por MARIA JOÃO CAETANO
Vencedor da primeira edição do Prémio Leya com 'O Rastro do Jaguar', o escritor brasileiro recebe o galardão amanhã, das mãos do Presidente da República, Cavaco Silva. E aproveitará para falar da importância do acordo ortográfico para a língua portuguesa.
Quando, em Outubro do ano passado, foi anunciado o vencedor da primeira edição do Prémio Leya, muitos se interrogaram quem seria Murilo Antônio Carvalho. Os intelectuais portugueses não o conheciam mas, no Brasil, talvez perguntando nos botecos da beira da estrada, as respostas fossem surpreendentes. É que o escritor é também jornalista com longa carreira cobrindo guerras e eventos por todo o mundo, documentarista atento à cultura popular do seu país, sobretudo aos povos indígenas, e responsável, há 16 anos, por programas de rádio e televisão onde retrata a vida dos "caminhoneiros" - esses dois milhões de homens e mulheres que conduzem camiões pelas estradas do Brasil.
"Poucos jornalistas terão um conhecimento tão profundo do país", reconhece Murilo Carvalho. Oriundo de Minas Gerais, nascido e criado na beira do Tejo (porque esta foi uma zona povoada por portugueses que para lá levaram as suas tradições e palavras), Murilo Carvalho tornou-se jornalista em rádios e jornais locais, e nem a mudança para São Paulo e a passagem pela agência de publicidade McCann-Ericson, o desviaram do seu destino de contador de histórias.
Em 1974, o livro de contos Raízes da Morte recebeu um importante prémio no Paraná. O então jovem Murilo gastou todo o dinheiro a trabalhar: durante quase nove anos viajou sozinho, com uma máquina fotográfica, recolhendo "cenas brasileiras" - ficções baseadas em histórias reais - que depois publicava no alternativo jornal Movimento (quando a censura o permitia) ou em livro. Desde então, não mais parou de viajar. "Nunca fiquei na redacção, sempre fiz trabalho de campo. Sempre gostei de correr mundo e correr perigo", diz.
O Rastro do Jaguar é o resultado de todas essas experiências. Murilo Carvalho faz as personagens viajarem pela Europa, Brasil, Argentina, Paraguai. "Eu estive em todos esses lugares, todos existem realmente, as ruas, as estátuas, as casas", conta o escritor. A muitos dos locais já tinha ido para fazer documentários, outros visitou propositadamente durante os dois anos que dedicou à pesquisa para a obra. Assim, como investigou em bibliotecas, consultou documentos oficiais e tudo o que o pudesse ajudar a reconstruir fielmente o que aconteceu no século XIX.
A única excepção, revela, é a casa onde mora a personagem Francisca, no alto do Morro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro - essa casa foi retirada de um conto de Machado de Assis, Iaiá Garcia, como uma homenagem ao escritor que tanto admira.
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