Milionárias brasileiras dão à luz em Miami para ter filhos americanos

São ricos que buscam alternativas fora do país para fugir à crise. Classe média, mesmo crítica do governo, resiste a sair do Brasil

Wladimir Lorentz, médico brasileiro radicado em Miami há 17 anos, teve há um mês uma ideia luminosa: montar o site Ser Mamãe em Miami para atender brasileiras que desejem que os seus filhos nasçam nos Estados Unidos da América e, assim, garantir automaticamente a cidadania norte-americana. Logo nos primeiros dias recebeu quatro clientes - agora, as solicitações não param.

Juntamente com um sócio colombiano, Ernesto Cárdenas, o pediatra brasileiro já prestava serviços a turistas internacionais desde que mães russas milionárias começaram a procurá-lo com o mesmo objetivo: ter filhos norte-americanos. Seguiram-se dezenas de clientes das elites económicas da Venezuela, país que vive sob a instabilidade do regime bolivariano de Nicolás Maduro, e de outros países latino-americanos, até surgir o tal clique. Porque não um site dedicado só ao Brasil? "Com esta instabilidade económica e política, é a hora certa", explicou Lorentz, que já denota um ligeiro sotaque americano, ao DN.

"Mas eu, além de oferecer o conforto de falar português com as grávidas, só presto serviços médicos, todo o processo burocrático é com o cliente", adverte. Processo simples, sublinhe-se: por mais que o pré-candidato presidencial republicano Donald Trump venha censurando os chamados "bebés-âncora", a Constituição dos EUA garante cidadania a quem nasça no seu território, o que a posteriori facilita visto ou dupla nacionalidade aos pais.

Bianka Zad, uma das últimas clientes de Lorentz, explicou as suas motivações à BBC Brasil. Empresária paulistana de 37 anos, arriscou viajar com 32 semanas de gravidez para a Florida, deu à luz na clínica do compatriota e semanas depois já tinha um passaporte norte-americano para o filho Enrico. "Tirei-o numa repartição do governo, em meros 20 minutos, sem constrangimentos", contou.

Agora, planeia emigrar legalmente com o marido, à boleia do filho. "Já pus a minha casa [no condomínio de luxo Alphaville, em São Paulo] à venda e tudo: apaixonei-me pelos EUA, onde a educação de qualidade é gratuita, enquanto no Brasil nos consome o orçamento familiar."

Lorentz cobra de 9840 a 14 730 dólares (de 8691 euros a 13 010 euros) pelos partos mas diz que a sua clientela "como tem muito poder financeiro, paga tudo antes e a pronto".

Eleições decisivas para sair

Foram esses brasileiros de classe alta, ou média-alta, a maioria dos quais residente em São Paulo, estado com um PIB cinco vezes maior do que o português e que responde por um terço da riqueza do Brasil, que juraram partir para Miami (e outros destinos) se Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores, de centro-esquerda, vencesse Aécio Neves, do Partido da Social Democracia Brasileira, de centro-direita, nas eleições de outubro de 2014.

Aécio perdeu no cômputo geral, é certo, mas venceu a eleição entre as famílias ricas ou muito ricas e nos estados do Sul e Sudeste, os mais abastados do país - e teve 92 por cento dos votos dos inscritos no Consulado-Geral do Brasil em Miami, a sua maior votação proporcional.

Através de movimentos nas redes sociais com a hashtag #partiumiami, milhares de brasileiros cumpriram de facto o prometido após a derrota do seu candidato e procuraram - como Bianka Zad, o marido e o seu filho americano - alternativas ao Brasil.

O Wall Street Journal publicou uma reportagem em fevereiro onde noticiava que advogados da Florida receberam nos cinco meses seguintes à eleição dez vezes mais pedidos de vistos, solicitações de compras de casa e aberturas de negócios do que o padrão. Dois brasileiros ouvidos pelo jornal contaram que a "insegurança" e a "instabilidade política" foram os motivos da mudança.

O EB-5, uma versão americana dos vistos gold, permite residência a quem invista um mínimo de 500 mil dólares e gere dez ou mais empregos no país. Newton Azevedo, empresário de 69 anos, e o seu genro investiram essa quantia e mudaram-se com as respetivas famílias para a Florida. "Tínhamos mais luxo no Brasil, com vários empregados fixos, aqui temos menos luxo mas mais segurança", disse Azevedo.

Agora, em plena recessão económica - dois trimestres consecutivos de PIB a contrair, a mais longa retração desde a introdução do real em 1994, desemprego e inflação em crescendo, crise cambial, juros nas alturas - não serão apenas os muito ricos mas sobretudo as classes socioeconómicas média e baixa a sofrer na pele com a crise. O Brasil tem tudo, portanto, para voltar a ter um fluxo emigrante na sua história, como aquele que levou milhares de cidadãos a trocar o seu país por, por exemplo, Portugal, nos anos 1990.

"Eu não diria isso", diz o cônsul-geral Paulo Lourenço, que lidera o maior consulado português no mundo, em São Paulo. "Considero temerário relacionar a crise com a procura de passaportes ou cidadania, nós, pelo menos, não sentimos particular mudança de 2013 ou 2014 para 2015", revela ao DN. Lourenço, que está desde 2012 no país, lembra a propósito a proverbial tendência para a euforia e depressão dos brasileiros. "Nem a situação económica estava tão boa há uns anos, nem está tão má agora...", regista.

"Nunca pensei nisso"

A maioria dos brasileiros de classe média ouvidos pelo DN, alguns com ascendência direta de países europeus, como Portugal, parece corroborar os dados do cônsul português. Embora quase sempre admitam estar revoltados com a classe política do país, ninguém está a fazer as malas - ou sequer disposto a fazê-las.

"Nunca pensei em sair, nem nunca sairei, tenho as minhas raízes aqui, entristece-me que o país não possua altos índices de desenvolvimento mas sou, e ensino os meus filhos a serem uma voz contra a corrupção", disse Fernanda Ferreira, jornalista.

O engenheiro civil Luciano Romero está desiludido com o governo - "com esses juros altos e com todos esses impostos" - mas também não ao ponto de abandonar o Brasil. "Trabalho desde sempre na área privada, com pouca ou nenhuma dependência do Estado, sinto aliás que gero mais emprego e riqueza do que o Estado".

O advogado Rafael Riul admite que emigrar já lhe passou pela cabeça. "Passar já passou, porque não tenho esperança de que a corrupção, um mal que está instalado no país, termine." "Só com investimentos maciços em educação, com uma população ciente dos seus direitos e deveres e com consciência política, a situação se alteraria, mas mesmo assim, isso demoraria mais uns 500 anos", lamenta-se.

Entre os jovens, sair talvez seja mais fácil. Silvia Bolliger, que é professora de Francês, ouviu dos seus alunos "vontade de emigrar para o Canadá, por exemplo". "De vez em quando eles falam nisso mas eu não, tenho aqui no Brasil filhos e netos..."

Bruno Bonsanti, estudante universitário de 24 anos que já morou em Inglaterra e tem cidadania italiana, "moraria fora do Brasil novamente, se fosse uma boa oportunidade de trabalho ou de aprendizagem, mas embora o país precise de melhorar em muita coisa, esta crise não é o desastre todo que se anuncia".

"A vida está mais difícil nos últimos tempos, por culpa da inflação, vamos ao supermercado e os preços aumentam mês a mês, semana a semana, dia a dia", lamenta a porteira Lita dos Santos, cujo nível de vida subiu muito durante a era Lula da Silva. "Mas sair do Brasil? Para quê? Dizem que lá fora está ainda pior."

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