por JOÃO MOÇO
Aos 42 anos, cineasta alemão tenta encontrar paz na sua vida ao mostrar ao mundo 'Postcard to Daddy', documentário em que fala dos abusos sexuais que sofreu por parte do pai na infância e adolescência.
Já há alguns anos que Michael Stock tinha tentado realizar este Postcard to Daddy. No entanto, devido à temática delicada, e igualmente controversa, o cineasta dificilmente conseguiu apoios financeiros para concretizar este projecto, que este ano viu finalmente a luz quando foi exibido em Fevereiro no Festival Internacio- nal de Cinema de Berlim.
"Durante muitos anos senti imensa vergonha do que se tinha passado, mas com este filme quis também tentar perceber porque é que há homens que fazem isto às crianças, daí que tenha decidido ir ter com o meu pai. Considero importantíssimo falar deste assunto na sociedade, discuti-lo, não pode continuar a ser um tabu", disse o realizador alemão em entrevista ao DN.
Foram precisos 25 anos para Michael Stock conseguir realizar este documentário, durante o qual fala não só com a mãe e os irmãos sobre os constantes abusos que sofreu mas também com o próprio pai, um alcoólico durante largos anos: "Por um lado, sou realizador profissional e por isso tenho de falar sobre os assuntos que abordo como profissional que sou, mas há um outro lado, que é o facto de explorar a minha experiência pessoal, de expor a minha família, mas tenho de encontrar um equilíbrio", afirmou.
O facto de hoje se assumir como homossexual foi também uma questão problemática enquanto crescia: "Sei que a certa altura da minha vida sentia que tinha uma determinada preferência sexual, que me sentia atraído por homens, mas achava que era apenas pela relação que tinha com o meu pai, e sei que esses abusos contribuíram para que à medida que crescia não saber como era ter uma relação. Aliás, durante muitos anos, tinha uma ideia romântica do que era a relação entre um homem e uma mulher e demorei imenso tempo até conseguir aceitar plenamente que era homossexual", confessou.
Os abusos começaram na infância e, como afirma durante o documentário, nem tinha real consciência do que se estava a passar. Estes continuaram durante a adolescência, até que um dia não conseguiu "aguentar mais". Tinha 17 anos e os pais já se encontravam separados. Devido a este facto, preparava-se para passar vários meses sozinho com o pai: "Quase que endoideci. Não conseguia aguentar mais tempo e por isso fugi de casa e disse à minha mãe tudo o que se tinha passado", contou. A mãe apoiou o filho e uma parte importante de Postcard to Daddy centra-se precisamente nesta relação, aborda- da entre conversas durante uma viagem à Tailândia. Todavia, não esconde a frustração que sentiu por a própria mãe nunca se ter apercebido de que algo de errado se passava: "A minha mãe estava mui- to empenhada na política e lidava com este tipo de questões, mas não conseguiu aperceber-se de que isso se passava dentro da sua própria casa, e isso deixou-me frustrado. Mas hoje somos muito próximos, foi mesmo a minha maior ajuda."
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