Não há muralhas que consigam parar esta vontade de livros

Não vai deixar de haver ginjinha, Vila Natal nem Feira Medieval em Óbidos. Mas «festa» agora escreve-se com o verbo «literar».

Está a decorrer a primeira edição do Festival Internacional de Literatura e há escritores, leitores, esplanadas em que o livro faz parte da ementa, hotéis a mudar de capítulo e uma febre de livrarias contagiante.

Humberto Marques está motivado para mudar a marca da vila que o viu crescer. «Quem pensar em literatura, agora vai pensar em Óbidos», garante o presidente da câmara. A verdade é que, desde a invasão de livros e livreiros iniciada em 2012, não há muralhas que consigam parar esta vontade de posicionar Óbidos como a maior rede de livrarias do mundo num centro histórico. Já são doze e variam muito quanto ao estilo: há uma na Igreja de Santiago, outra que combina livros com mercado biológico, e até uma que se dedica também ao comércio de vinhos, a Livraria da Adega.

The Literary Man Óbidos Hotel

O autarca acredita que as identidades se constroem com estratégias, mesmo quando não há ligação histórica - como é o caso da literatura. E dá o exemplo do chocolate, com o qual «também não tínhamos nada que ver e os portugueses agora consideram-nos a capital». A vila dispensa apresentações quanto à popularidade dos seus festivais e numa altura assumidamente em contraciclo, em que grande parte das livrarias pelo país estão a fechar, entenderam ser este o momento ideal para se afirmarem: um rebranding para Vila Literária.

É visível que esta febre dos livros não tende a parar e Humberto Marques, consciente do «vírus» da era digital, admite que tal só aconteceu quando o município encontrou alguém também «contagiado» com quem trabalhar. «Foi José Pinho, proprietário da livraria Ler Devagar [em Lisboa], que com uma certa dose de loucura acreditou no projeto e desde sempre investiu no crescimento », brinca, falando sério, o autarca.

Uma renovação no interior do hotel deu lugar a cerca de 25 mil livros nas paredes

Mas mais do que abrir livrarias, sentiram a necessidade de desenvolver e educar a vila como um centro mais atrativo culturalmente. E com essa nova visão nasceu o Festival Internacional Literário de Óbidos (Folio) que, até 25 de outubro, trará à vila espetáculos, concertos, 200 autores portugueses e estrangeiros, várias sessões literárias, conversas informais e workshops para todas as idades. Para quem já está a imaginar filas intermináveis na Rua Direita e confusão na Cerca Velha fica a garantia da organização de que o programa foi pensado e alargado por toda a vila, para que tudo funcione com espaço.

Quem pensar em literatura, agora vai pensar em Óbidos

Quarto do The Literary Man Óbidos Hotel

Atrás dos livros e desta nova marca de Óbidos, também alguns estabelecimentos hoteleiros quiseram mudar, não só de página como de capítulo. Foi o caso da antiga Estalagem do Convento: um edifício de 1830 pensado para acolher as religiosas de uma ordem mendicante, o que nunca chegou acontecer com a sua extinção em Portugal quatro anos depois. Há pouco mais de uma semana, a história começou a escrever-se com o The Literary Man Óbidos Hotel, após uma profunda renovação do interior e dando lugar a cerca de 25 mil livros nas paredes - grande parte à venda. Os «autores da obra» são o casal Telmo Faria e Marta Garcia, já experientes na área com o hotel Rio do Prado, que em maio arrendaram o espaço a Luís Garcia - pai de Marta e responsável pela ampliação do edifício após a sua compra nos anos 1980.

Sugestão para comer: Restaurante Pretensioso

Dos antigos 31 quartos, por enquanto só oito foram totalmente remodelados - utilizaram materiais reciclados, livros à cabe ceira e linhas contemporâneas. Até porque Telmo garante que «há uns muito giros» e que querem manter como estão, mudando alguns apontamentos. Também as áreas comuns e restaurante ganharam vida nova, moderna mas cheia de pormenores rústicos. O pátio foi arranjado e pensado como zona de leitura à sombra das árvores e, à entrada do hotel, criaram um local para degustação de petiscos, cocktails e vinhos. E de vinhos está a cave cheia, com uma orgulhosa coleção dos anos 1950, em que a criatividade levou os proprietários a idealizar uma zona dedicada ao bem-estar. Isso mesmo, na cave: massagens relaxantes, pedras quentes e em breve sauna e banho turco.

Já o nome nasceu da ideia de que em cada hóspede há um lado de ficção para despertar, como nos livros. Eis uma boa oportunidade para revelar a personagem que há dentro de si, vivendo histórias de castelos na Vila Literária. Boas leituras!

The Literary Man Óbidos Hotel. Rua de Dom João de Ornelas. Tel.: 252959214/262959214. Quarto duplo a partir de 85 euros por noite (inclui pequeno-almoço).

Folio

Entre os dias 15 e 22 de outubro decorre a primeira edição do Festival Literário Internacional de Óbidos, que junta 200 autores portugueses e lusófonos num programa com várias iniciativas: workshops, tertúlias, seminários, apresentação de livros, mesas-redondas e até concertos improváveis de se repetir tão cedo (saiba mais sobre a programação musical na página 38). Entre os convidados das letras estão nomes como Hélia Correia, João Tordo, Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, Pedro Mexia, Ricardo Araújo Pereira e José Pacheco Pereira. Do estrangeiro, o lote inclui nomes familiares como Mia Couto, José Luís Tavares, Tatiana Salem Levy e João Paulo Cuenca.

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