Tráfico de órgãos

Já desapareceram mais de 120 crianças em NampulaOrdem dos Servos de Maria escreveu uma carta ao Presidente de Moçambique, Joaquim Chissano, a dar informações e a pedir uma acção imediata, mas ainda não teve resposta.

Já desapareceram de Nampula mais de 120 crianças que viviam, a maioria, das vendas do mercado de rua naquela cidade do Norte de Moçambique. Esta é uma das informações que consta do segundo relatório que o padre Claudio Avallone, da ordem dos Servos de Maria, enviou para o seu superior em Roma, padre Patrick Carroll, secretário-geral para a Justiça e a Paz da mesma ordem.

Avallone foi enviado a Nampula para averiguar o rapto de crianças para tráfico de órgãos, que foi denunciado pelas Servas de Maria naquela cidade. No dia 19 de Fevereiro o padre Avallone enviou a primeira carta para Roma, confirmando as informações alarmantes, como o DN ontem revelou.

Nesse mesmo dia, a partir de Nampula, a ordem enviou uma carta ao presidente moçambicano, Joaquim Chissano, dando conta do problema e pedindo uma acção imediata. Mas até agora, confirmou o DN, não houve resposta da parte de Chissano.

O segundo relatório do padre Avallone, de 25 de Fevereiro, chegou ontem às mãos do padre Carroll, em Roma. É esse texto que se publica a seguir na íntegra.

O relatório. «O procurador-geral da República, Joaquim Madeira, publicou no passado dia 23 de Fevereiro, às 12 h, o resultado da investigação realizada pela sua equipa em Nampula, em colaboração com a polícia e as autoridades da região: "Em Nampula não foi descoberto ou comprovado nenhum tráfico de órgãos nem desaparecimento ou venda de crianças ." Após esta conclusão, a população volta a viver o terror dos tempos da guerra civil. Depois do anoitecer, jovens e crianças escondem-se dentro das casas com medo do "homem branco". Durante o dia, se algum estranho, branco ou preto, se aproxima de uma criança, a palavra de ordem é fugir.

«No domingo, por volta das 11 e 30 h, quatro homens e uma mulher, bateram à porta do convento das Servas de Maria, para revelar o último caso de horror que testemunharam: dois homens, num dos bairros mais pobres de Nampula, obrigaram dois miúdos a subir à força para um jipe, e sentaram-nos nos bancos de trás. Aos gritos das crianças , as pessoas que passavam na rua obrigaram os dois homens a fugir, mas as crianças aterrorizadas e sem perceberem o que se passava, fugiram. Não sabemos portanto onde estão ou quem eram os raptores...

«Neste momento posso dizer que são mais de 120 as crianças desaparecidas , na maioria miúdos que vivem das vendas no mercadinho da rua, nas ruas à volta do convento e noutros dois lugares mais distantes...

«À ceia deste Natal, preparada como sempre pelos frades espanhóis da ordem Juan de Dios, só vieram 15 rapazinhos dos 95 convidados.

«Um pastor da Igreja Evangélica, Moisés, que no ano passado seguia mais de 150 meninos da rua, providenciando comida, cadernos, roupa, só conseguiu convencer este ano nove crianças a vir à festa de Natal.

«Algumas das crianças que desaparecem conseguem escapar ou são libertadas. Falei com Marcelino, de 13 anos. Duas pessoas pediram-lhe que lhes indicasse como chegar ao bairro mais próximo. Depois de entrar no carro delas, ele percebeu que tinha caído numa armadilha quando se dirigiram para fora da cidade.

«Apesar do choro e gritos, suplicando que o deixassem descer do jipe, Marcelino foi obrigado a descer num lugar isolado, foi amordaçado, acorrentado e entregue a dois homens que ali se encontravam.

«Alguns habitantes de Nampula, que tinham seguido o jipe, viram que Marcelino tinha sido deixado fechado numa casa. Quando o jipe se afastou, arrombaram a porta e encontraram Marcelino, um outro rapazinho e duas meninas. Trouxeram-nos todos para o convento. Mais tarde as famílias foram avisadas e vieram buscar as crianças.

«Um velhote de Nampula, Pastela Cocola, serviu-me de guia para visitar as sepulturas onde foram enterradas duas meninas, uma mulher e um homem, encontrados pela população sem órgãos internos, quando os corpos foram exumados.

«As pessoas confessam-me que os cadáveres, depois de esquartejados, são deixados ao ar, no lugar do assassínio. A população já não avisa a polícia. Disseram-me que quem informa a polícia é submetido a um interrogatório dias e dias a fio. Uma verdadeira tortura psicológica para desencorajar a população de denunciar seja o que for que veja.

Em Nacala, perto de Nampula, um rapaz de 13 anos conduziu amigos e parentes à casa de onde se escapara, depois de dias de horrível prisão. Ali encontraram outros 30 meninos e meninas. Depois de os libertarem e avisarem a polícia foram "convidados" pela polícia a estar calados...

«Um outro menino de 9 anos, João Joaquim, desaparecido nos primeiros dias deste mês, foi encontrado por acaso, fechado numa cabana, juntamente com outras duas crianças , quando umas pessoas que procuravam lenha para acender o fogão ouviram gritos e choros pedindo socorro.

Sem saberem quem eram, levaram-nos à polícia, onde os pais, que foram chamados para os reconhecer, os encontraram chorando, traumatizados pelos maus tratos da polícia.

«Falei também com as irmãs Servas de Maria, e com quem viu pessoalmente os cadáveres. Os nomes, por óbvias razões não os posso revelar, mas todos me confirmaram que os corpos das crianças não tinham olhos nem órgãos internos importantes, como o fígado, rins, coração.

Falei com pais que continuam a espera de encontrar os filhos desaparecidos. Mas agora que o procurador-geral disse que não existe nenhum tráfico de órgãos nem comércio de crianças , perguntam-me: o que podem esperar? Será que a justiça se tornou um tráfico ou foi ela mesma raptada?

Neste momento, as freiras e a população pensam que são as organizações internacionais, ou pressões sobre o governo que poderão pôr ponto final ao que está a acontecer ...»
Claudio Avallone, Ordem Servos de Maria.

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