O desaparecimento de Maddie em teoria da conspiração global

"Maddie serviu entre nós para desviar a atenção sobre a discussão dos 'canudos independentes'", escreve, no final de Maddie, Joana e a Investigação Criminal - A Verdade Escondida, Barra da Costa, o antropologistacriminologista que tanto se tornou notório nas TVs e jornais a comentar o caso da menina inglesa de três anos desaparecida na Praia da Luz a 3 de Maio de 2007. E que apresenta a sua obra, posta hoje à venda e à qual o DN teve acesso, como tendo "o objectivo geral de desconstruir uma aposta sistemática no clima de medo que sinto a pairar sobre as pessoas".

E prossegue: "Sou, pois, dos que defendo [sic] que o aproveitamento do caso tem muito a ver com aquilo que se pretende: o controlo da população com base no terror dissimulado, através da alienação". Mais à frente, escreve: "Por isso surgem os desaparecimentos e os sequestros de crianças - para nos conduzirem, a todos, a uma situação de ansiedade, até que um dia sejamos nós a solicitar a introdução do dito chip no corpo (...). Daqui à escravidão total é um passo. Porque se as 'Maddies' desaparecem para serem vítimas de qualquer crime, os abutres do sistema aparecem interessados pelo caso 'apenas', e primordialmente, para criar insegurança. É só por isso que as 'Maddies' têm de desaparecer."

Está lançada a linha de força desta Verdade Escondida: a de uma conspiração de forças ocultas e tenebrosas, a que se junta a descrita inépcia investigativa de uma polícia criminal que o autor integrou durante 30 anos mas que parece entretanto ter perdido todas as qualidades, conspiração à qual não falta sequer a premeditação, através de leis que enquadram a política e a investigação criminal, e que o autor considera "impostas por aqueles que tudo fizeram para expulsar do processo os verdadeiros detentores da investigação e que, agora, donos dela, se habituaram a ter nas mãos um poder incomensurável, incontrolado e incontrolável, de que se arrogam o direito de não prestar contas."

Apesar de trazer na capa, em tamanhos iguais, as fotografias de Madeleine e de Joana (a menina de sete anos desaparecida no Algarve em 2004 e cuja mãe e tio foram condenados pelo seu homicídio, apesar de o corpo não ter sido encontrado), o livro é sobretudo dedicado ao caso Maddie. Barra da Costa vai enumerando as sucessivas teses sem se fixar em nenhuma (ver texto em baixo), não raro contradizendo-se e envolvendo toda a narrativa em insinuações conspirativas, de que é exemplo este parágrafo: "A tese de rapto, admitida logo no terceiro dia pela PJ, nunca agradou ao Governo português, tendo em conta a imagem de segurança que era necessário transmitir do País, sobretudo numa região que vive essencialmente do turismo, ainda por cima num período em que Portugal ocupava a presidência da UE". Conclui-se daqui que estaria fora de questão, na perspectiva do autor, a suspeita sobre os McCann , suspeita essa que, de resto, o próprio vocalizou com frequência nas suas intervenções televisivas? Não: o autor não afasta categoricamente essa linha explicativa. De resto, gasta muitas páginas a tentar demonstrar a forma como os britânicos (leia-se o respectivo governo e media) tentaram condicionar a investigação portuguesa e o seu alegado êxito.

Quem ouviu Barra da Costa durante meses comentar o caso e insinuar, por parábolas, conhecer ou pelo menos suspeitar de uma verdade sobre o que sucedeu à criança, esperaria um pouco mais que uma revisão da matéria dada. Talvez uma justificação para a publicação de mais um livro sobre um caso que promete muitos mais. Livros e filmes e novelas, porque, afinal, Maddie vende. Mas, como na citação bíblica que o médico legista Pinto da Costa escolheu para dar o mote ao prefácio da obra de Barra da Costa,"Cada qual segue o seu caminho, e busca o seu interesse, do primeiro ao último".

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