Ninguém quer viver em casas manchadas pelo crime

As habitações onde ocorrem crimes sangrentos ficam, muitas vezes, vazias. Poucos gostam  de comprar uma casa onde ocorreram mortes violentas. Mesmo que os preços desvalorizem muito, como é frequente,  as pessoas resistem. Especialistas explicam que é o medo mítico dos fantasmas que afasta potenciais novos proprietários.  O castelo na Carqueja do 'rei Ghob' pode tornar-se em mais uma casa-fantasma, desabitada e sem interessados.

Um castelo gótico no pataco lugar de Carqueja, em São Bartolomeu dos Galegos (Lourinhã). Um jardim com figuras da Disney, como a Branca de Neve e os Sete Anões. Anjos e querubins em pedra. Câmaras de vigilância nos torrões. Réplicas de brasões medievais. Francisco Leitão, de 41 anos, conhecido como "rei Ghob", transformou a casa que herdou num castelo associado ao culto pagão.

O castelo que se destaca nas poucas casas que povoam Carqueja foi construído pelo "rei Ghob" nos últimos cinco anos, com sucessivos acrescentos. "Um indivíduo que vive num castelo é uma pessoa com características egocêntricas e narcisistas, que acredita ser superior aos outros", explica ao DN Francisca Rebocho, especialista em psicologia criminal, para quem a vontade de habitar um castelo demonstra que o rei do Gnomos é um indivíduo que "sente necessidade de chamar a atenção".

Segundo Francisca Rebocho, o castelo, as réplicas de brasões medievais e os gnomos são indícios da sua "aspiração monárquica". Pondo de lado a hipótese de devaneio, a psicóloga defende que "é narcisismo, mais do que delírio".

Carlos Poiares, docente de psicologia forense, acredita que o castelo de Francisco Leitão "é uma metáfora da sua vida e daquilo em que ele acredita". O psicólogo refere-se aos vídeos que o rei publicou na Internet, anunciando o fim do mundo. "Uma fortificação que engloba todas as defesas contra as invasões externas por ele anunciadas", reforça.

Se em Inglaterra existem multidões de mansões e castelos assombrados, em Portugal há casas que, na sua maioria por terem sido manchadas de sangue, se tornaram malfadadas. Essas casas desvalorizam e, ainda assim, a sua venda é difícil. "Há maior dificuldade na venda de habitações onde ocorreram crimes violentos: se as pessoas souberem o que aconteceu, não vão querer viver nessa casa. Mas isto depende da sensibilidade de cada um", diz ao DN Luís Lima, presidente da Associação Portuguesa de Empresas de Mediação Imobiliária (APEMI).

Moita Flores, especialista em investigação criminal, refere que a dificuldade na venda dessas habitações "está relacionada com a multiplicação do medo da morte, da violência, da ausência de alegria". "As pessoas têm medo de estar nos sítios onde os crimes aconteceram. Isto está relacionado com o pensamento mítico que ainda se mantém de que o fantasma da pessoa que morreu apareça e provoque estragos imensuráveis", esclarece Carlos Poiares.

Quando o suicídio ocorre em casa, a habitação também passa a ser mal olhada e, por isso, desvalorizada.

MORADIAS DE MORTE

Praia da Luz

Ninguém compra o apartamento de Maddie

O imóvel, pertencente a uma inglesa, foi colocado à venda, em 2008, por 200 mil euros, mas só tem havido interessados em vê-lo por curiosidade. Excursões desde o Norte do Pais chegaram a incluir o local nos seus programas. O apartamento nº. 5 A do resort The Ocean Club, situado na Praia Luz, no concelho de Lagos, de onde a inglesa Madeleine McCann, de três anos, desapareceu misteriosamente na noite de 3 de Maio de 2007 quando passava férias com os pais e os dois irmãos, também menores, continua fechado e à venda, desde Agosto do ano seguinte por 200 mil euros, embora já não exista placa informativa no local.  O mediatismo mundial em torno do caso "não retira valor nem o dá" ao imóvel, de rés-do-chão e tipologia T2, localizado a cerca de 200 metros da praia, dizem ao DN empresários do sector imobiliário.

José Manuel Oliveira

Vale de Ílhavo

Casa onde Tó-Jó matou os pais foi comprada, mas voltou ao mercado

No dia 12 de Janeiro de 1999, a localidade de Vale de Ílhavo, no concelho de Ílhavo, acordou com uma verdadeira cena de terror: Tó-Jó, de 23 anos, assassinou brutalmente os pais, um conhecido médico, Jorge Machado, e a esposa, Maria Fernanda. No dia do último eclipse solar do ano, o número 60 da Rua Prior Valente, em Vale de Ílhavo, ficou manchado de sangue. O casal foi morto com dezenas de facadas e houve, ainda, tentativa de pegar fogo ao local. Houve teorias de que o crime se tinha ficado a dever a um ritual satânico. A moradia estava inacabada. Cerca de cinco anos depois foi comprada. Os compradores, que são ainda os proprietários, acabaram a construção. Mas o DN soube que já fizeram várias tentativas para vender a habitação. "Dizem que os donos não se sentem bem lá", conta  uma vizinha.

Joana Capucho, em Aveiro

Borralheira

Café da Borralheira mudou de dono, mas continua a funcionar

Em Novembro de 2007, o Café Regional, localizado na principal rua da localidade da Borralheira, concelho da Covilhã, tornou-se notícia nacional. Era o local onde João Inácio, um homem de 42 anos, tinha sido encontrado morto. Estava atado às grades da janela e às jantes de um carro. 

O café encerrou mas reabriu depois. José Cruz Reis foi o homem que decidiu arrendar. "Esse assunto aqui não é comentado. As pessoas querem esquecer. Não sei se este local lhes traz, ou não, lembranças", explica.  Já Valdecir Bittencourt, o homem que em 2007 explorava o espaço, assume que os acontecimentos daquela noite mudaram a sua vida. "Se aquilo não tivesse acontecido, provavelmente ainda estava no café. Mas de 30 quilos de café que eu vendia mensalmente, passei a vender menos de cinco", conta.

Catarina Canotilho,  Fundão

Bairro de Santa Eugénia

Casa onde agente imobiliária foi morta voltou ao mercado de aluguer

18 meses depois do crime, que abalou a cidade viseense, o andar onde a agente imobiliária foi encontrada morta está de novo no mercado de arrendamento.
Dulce Moreira, agente imobiliária, foi encontrada morta num 5.º andar de um prédio do Bairro de Santa Eugénia, pelo próprio filho, a 15 de Dezembro de 2008.

Preparava-se para alugar o apartamento a um potencial cliente que a terá, alegadamente, degolado.

Anabela Nunes, agente imobiliária da cidade e testemunha no julgamento, confirma que o andar "esteve vazio" mas actualmente não sabe se foi alugado. Na vizinhança, ninguém gosta de falar do assunto. São necessários muitos telefonemas para encontrar a resposta. "A casa foi alugada e voltou ao mercado. O proprietário não pode arcar com os prejuízos pelos disparates dos outros", conta o proprietário de uma imobiliária na Ribeira.

Amadeu Araújo, em Viseu

S. Xisto

Aldeia mantém três habitantes após metade da população ter sido assassinada

Encavalitada no Douro, desde cedo que S. Xisto, em S. João da Pesqueira, cujas casas fazem jus ao nome, viu partir os seus. A aldeia, que já teve 40 habitantes, chegou a 2005 com apenas sete. A meio da tarde de 21 de Janeiro de 2005, de uma só vez morreram quatro habitantes: Augusto Vila Real, de 60 anos, Alice Ribeiro, 64, Ernesto Ermida, 76, e Etelvina Lopes, 75. Em 30 minutos, metade da população foi dizimada por Augusto Vila Real, que nos tempos vagos disparava a caçadeira pelos montes. Movido pelos ciúmes, matou a mulher e três vizinhos. Do crime, que correu mundo, quase ninguém se lembra. Hoje "restam os três habitantes e os turistas", conta Adelino Nascimento, presidente da Junta de Freguesia de Vale Figueira. "A tragédia é a desertificação não a loucura de um homem. O que lá vai, lá vai." 

Amadeu Araújo, em Viseu

Madragoa

Casa onde degolaram italiana nunca mais foi habitada

As águas-furtadas do n.º 98 da Rua das Madres (na Madragoa) não voltaram a ser habitadas desde que, há dois anos, foi lá assassinada Marilina, uma italiana de 39 anos. Maria Drisolina Anna Ciraudo foi degolada com um objecto contundente em Março de 2008 e, na altura, a notícia transformou aquela pacata zona da cidade de Lisboa num rebuliço, onde se instalou o medo. No prédio onde a jornalista foi morta, o 1.º andar é habitado por três rapazes entre os 20 e os 30 anos. Há três anos que vivem ali, acompanharam o que aconteceu, mas nunca lhes passou pela cabeça mudarem de casa. "A porta não foi arrombada e, pelo que se percebeu na altura, terá sido uma questão pessoal que levou àquela morte. Por isso, nunca tivemos necessidade de mudar", conta um dos jovens. 

Isaltina Padrão

Cacém

Vivenda que serviu para tortura e homicídio continua mal frequentada

O cheiro nauseabundo e o quintal coberto de lixo e mato não deixam dúvidas a quem passa pelo número cinco da Rua Virgílio Lory, no Cacém, Sintra. Apesar de estar a poucos metros de uma das ruas mais movimentadas da cidade, a vivenda abandonada continua a atrair diversos tráficos e já foi cenário de uma longa sessão de tortura que culminou com a morte de um jovem de 27 anos.
Há quase um ano, dois irmãos angolanos sequestraram, torturaram e acabaram por matar um cabo-verdiano, alegadamente por acreditarem que este estava envolvido num assalto a um dos irmãos. Segundo se conta na rua, a casa esteve vazia e fechada até há cerca de dez anos ter sido assaltada. Desde então "é usada por sem-abrigo, traficantes e prostitutas", apesar "das limpezas" que a PSP efectua esporadicamente.

Luís Galrão, em Sintra

Vila Fria

Quinze anos depois, palco de triplo homicídio continua deserto mas já tem novo dono

As ervas pela entrada da casa e uma pintura a precisar de tratamento indiciam pouca utilização, mas Albina garante que todas as semanas por lá passa. "Para tratar das coisas, dos jardins e da casa. Porque agora é de uns amigos nossos", começou por explicar ao DN. Depois de 12 anos fechada, a casa onde ocorreu um dos mais graves homicídios que há memória no Minho, continua deserta. A mesma onde a 10 de Agosto de 1995 Rui Amorim matou, a golpes de machado e faca, os dois tios e o filho destes. A pacata freguesia de Vila Fria, Viana do Castelo, nunca mais foi a mesma. O tempo foi passando e o único filho vivo das vítimas emigrou para a Alemanha. "Quis vender a casa mas ninguém a comprou porque dizem que estava embruxada", confessa outro vizinho. Após 12 anos à venda, agora é propriedade de um emigrante em Andorra. Custou 125 mil euros. Uma pechincha, dizem.

Paulo Julião, em Viana do Castelo

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