Passos quer mudança, Sócrates "moderação"

O duelo Sócrates-Passos foi tenso e cheio de interrupções. Passos Coelho acusou Sócrates de "fantasiar" sobre o estado do país - e de pôr em causa do acordo da troika. Sócrates voltou ao "aventureirismo" do programa social-democrata.

Foi tensa e cheia de interrupções a hora do duelo entre Passos Coelho e José Sócrates. Até cheia de citações de contradições do adversário. Novidades, poucas, ou quase nenhuma. Apenas Passos Coelho acusou Sócrates de já estar a colocar em causa o acordo da troika, não só não querendo cumprir a redução da Taxa Social Única, como deixando as contas públicas derrapar.

José Sócrates tinha um objectivo: vincar que o programa do PSD é radical. Apostou as cartas na Saúde, lembrando frases de Passos onde este sugeria o co-pagamento, e no mercado de trabalho, onde chegou a propor o fim da justa causa do despedimento. Passos foi respondendo, mas sempre interpondo que Sócrates tem um programa "que é uma vacuidade" e que "nunca explica as suas responsabilidades na situação a que chegou o país.

O trunfo de Sócrates era, porém, um relatório e contas da empresa onde trabalhou Passos antes de ser líder do PSD. Onde se lia que a responsabilidade da crise era internacional. A carta era de 2010 e Passos assumiu que tinha mudado de opinião. Daí para a frente, não parou de acusar Sócrates de atirar o país para uma situação de pré-falência.

Quanto ao líder do PSD, quis vincar a ideia de que "o país precisa de uma mudança" e que esta só acontecerá consigo. Foi esse o seu minuto final. O de José Sócrates foi a pedir diálogo e responsabilidade e um voto contra quem quer "atacar o Estado social".

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22h00. Passos: "O país tem muito claro que precisa de um governo competente e capaz que produza resultados. O país foi conduzido praticamente à bancarrota. Há um responsável, é o eng José Sócrates e ele não tem desculpa - o PSD já cooperou bastante. O país precisa de mudar a liderança". Promete "Capacidade de diálogo", mesmo que não tenha experiência, diz não trazer "na consciência 700 mil desempregados e um estado social em perigo".

21h59. Sócrates no minuto final: "Nunca virei a cara nos momentos difíceis. O país precisa de um Governo responsável e uma liderança forte. O país dispensa agendas radicais e ideológicas". Propõe agenda "responsável e moderada", defendendo o Estado social e aposta no crescimento.

21h58. Sócrates diz que quem é convidado para formar Governo é quem ganhar. E quer diálogo, compromisso e entendimento. "Lamento que o dr. Passos Coelho esteja" indisponível. Passos responde: será primeiro-ministro apenas se vencer.

21h56. Sócrates responde com "nova metodologia" e que défice comparável "é de 6,8%". E acusa Passos de "divagar" sobre reestruturação da dívida. Acusa PSD de prejudicar as negociações com as cartas à troika.

21h50. Sócrates diz que a despesa pública está a descer 3% ("que nunca aconteceu"). E volta a atacar as "maledicências" do PSD. Sobre a TSU, o líder do PS diz que não acompanha essa medida. "É uma ideia da economia do passado". Fala de apenas 15% de custos de trabalho nas exportadoras e quer, antes, melhorar a inovação, etc. Passos responde à maledicência: "É uma acusação infundada". E diz que acertou nas previsões que deu sobre o défice deste ano, mais de 9%. "Sabia quanto custava o BPN e sabe quanto estão a custar as intervenções das Estradas de Portugal". Sócrates diz que não sabia que era preciso colocar BPN nas contas: "O sr. diz mal de tudo!" Passos recupera a palavra para lembrar o que disse a troika, que não dava para cumprir o défice que estava previsto no PEC4.

21h48. Sócrates vai interrompendo ("diz mal de tudo"), Passos prossegue com as contas da execução orçamental. "Ainda não conseguiu deixar arrefecer o que acordou e já não está a cumprir. Os objectivos já não são atingíveis - não sei porque está a rir, o assunto preocupa-me". Sócrates fala de maledicência e pessimismo, Passos de "fantasias".

21h42. Sobre TSU: "Em primeiro lugar estudar. Mas deve ser muito moderado". E ataca PSD por não dizer de onde vem o dinheiro e por sucessivas contradições sobre o que quer fazer. "Decidiu apenas apresentar a parte simpática". Passos anota que Sócrates "não diz como vai cumprir" o que está no acordo. Sócrates rejeita que seja um objectivo crítico do acordo. Passos garante que sim. "Assinou um acordo para gerar emprego e continua a dizer que vai estudar o assunto. Não tem uma ideia do que vai fazer. Como é difícil e custa dinheiro, opta por não fazer". Passos diz que várias instituições estudaram a TSU, apontando no sentido da sua proposta - descida até quatro pontos. "É auto-sustentável", diz. Sócrates interrompe, mas Passos não deixa - "deixe falar quem estudou".

21h40. Moderador interrompe. E vira para a Taxa Social Única. Sócrates volta atrás: "O que está aqui escrito é gravíssimo, porque o trabalho temporário só com justificação - e aqui deixa de haver". E volta à justa causa, que só esteve no ante-projecto de revisão constitucional do PSD - não no definitivo.

21h36. Sócrates recupera propostas de Passos: "Propõe ir mais além no trabalho temporário. Antes propunha contratos verbais". Passos diz que não é verdade - pela segunda vez no debate. "Propõe liberalizar o contrato de trabalho temporário", insiste Sócrates. Sobre o programa da troika, diz que propõe "poucas" mudanças "em relação ao que estava previsto no PEC4". Passos desafia-o a ler. Sócrates lê e Passos pede que "leia tudo". Sócrates lê e "deixa de haver justificação desde que...". Passos responde: "Defendi até que devemos caminhar no sentido de um único contrato, ou seja, sem termo".

21h34. Passos diz que Sócrates está "agarrado ao lugar". Sócrates responde que Passos "estava à espera do FMI para abrir uma crise política". O líder socialista diz que Passos várias vezes sugeriu que se devia pedir o FMI - "posição irresponsável".

21h28. "O eng Sócrates criou uma fantasia: eu não tenho nenhuma pressa de ir para o Governo a não ser a que o país tem", diz Passos. Sócrates de imediato: "Não me parece!". De novo Passos - "o PEC 4 não servia, o sr. falhou o 1, o 2, o 3. O sr. nunca respeirtou um objectivo a que se propôs, perdeu a confiança dos mercados. As taxas de juro estão altas não apenas desde o PEC4, desde Outubro são insustentáveis". Cita o ministro das Finanças e até Sócrates, de Outubro: "Não admito recorrer ao FMI". E cita outras entrevistas onde Sócrates não queria o FMI. São três - "é para recordar que há muito tempo Portugal devia ter pedido ajuda".

21h25. "Ninguém será recusado no SNS", diz Passos. Sócrates regressa: "Não recuso nenhuma responsabilidade". Lembra a crise internacional, diz ser responsável pelas medidas difíceis - "nunca virei a cara". Mas, diz, "espero que o sr. assuma as suas - criou uma crise política e levou o país a uma ajuda externa." Sócrates responsabiliza Passos pelo programa da troika (que tem o PEC4 por base) e pela subida dos juros. "O que é que ganhámos com esta crise? O sr. enganou-se nas prioridades, pensou em si e no seu partido. Talvez se engane", afirma.

21h22. Depois de Sócrates fazer várias citações, Passos responde: "Acabamos de assistir a uma das boas razões para mudar de Governo. É incapaz ao fim de seis anos, apesar de ter tido o PSD a apoiar o Governo no essencial.. estamos a discutir a sua herança. Gostava de o ver discutir as suas responsabilidades! O sr. vai a votos como primeiro-ministro, porque não tem a coragem de começar por discutir a sua responsabilidade?!". Só depois diz que a Saúde "não fica em perigo." Repete que 30% da Saúde é de co-pagamentos.

21h16. Sócrates diz que Passos não está a ser correcto, Passos pede que não o interrompa: "Afinal, aquilo que eu disse no programa foi o que disse a ministra da Saúde a seguir, depois de me ter criticado".Sócrates sobe o tom: "Não pretenda disfarçar, estou a falar de co-pagamentos no SNS, que o sr. defende, o senhor disse que estou a mentir". Sócrates mostra artigo de Passos no i (de há meses). E cita frase, deixando artigo na mesa. Depois, cita o livro de Passos, onde defende até alteração constitucional nesse sentido. "Espero que sirva de prova". Mais duas entrevistas televisivas.

21h14. Passos ironiza: "Portugal afinal não precisa de ajuda externa, o país está bem, não precisou de aumentar brutalmente os impostos, de cortar nos apoios sociais. Este é o resultado da sua política: são 700 mil desempregados". Antes tinha dito rapidamente que não é verdade que defenda co-pagamento na Saúde ("eles já existem, 30% da despesa em saúde é feita por privados, significa que mesmo onde o Estado contratualiza o Estado não faz cobertura universal"). Mais: diz que o PS quer discutir as ideias do PSD porque "o seu programa é uma vacuidade".

21h12. Sócrates diz que todos os países mudaram de estratégia devido à crise. E volta ao Estado Social para pedir respostas a Passos. Agora o alvo é o fim do SNS tendencialmente gratuito: "O sr. defende o co-pagamento, que põe em causa a igualdade ao acesso e de tratamento". A sua estratégia, diz, é "continuar o que temos vindo a fazer (...) melhores serviços custando menos dinheiro" - nomeadamente mais USF.

21h07. Passos diz que é uma técnica de Sócrates. "Assumo as minhas diferenças de opinião quando mudo de opinião", diz Passos. Os dois discutem se em 2009 o Governo andou bem (Sócrates aponta para o dito relatório, Passos rejeita - "não contraiu a despesa pública como devia". Cita Banco de Portugal, relatório de ontem. E lê várias respostas de Sócrates, ao longo de 2010, onde promete sempre não aumentar impostos. Estas mudanças de opinião afectaram mais o país do que esse relatório e contas que assinei".

21h03. Passos de novo, pede respostas a Passos sobre o rumo a que levou o país ("foi a crise internacional, o governo nunca tem culpas de nada"). Sócrates diz que está enganado e que subiu várias prestações sociais. "O sr. não tem outro discurso senão responsabilizar-me, mas nem sempre foi assim", alega. E lê um relatório de empresas, de 2010, quando foi administrador de empresas, onde se anota a crise internacional. "Hoje ela já não existe".Mas pede respostas sobre

20h58. Passos é questionado sobre a sua falta de experiência. Dá o exemplo de David Cameron, primeiro-ministro de Inglaterra, e Blair que também foi eleito mais novo que ele. Mas depois responde a Sócrates: "Em vez de andarmos a discutir a oposição pretendia, discutir o que o Governo faz". E ataca: "É o primeiro-ministro que mais maldades fez ao Estado Social": cortes nos salários da função pública, acabou com abonos de família, etc.

20h56.Sócrates diz que se trata de uma escolha e não de uma "nova oportunidade". A questão, diz, é que "estávamos a fazer o nosso caminho e o processo foi interrompido por uma crise política".E ataca Passos por colocar em causa o modelo social do Estado, recuperando o projecto de revisão constitucional do PSD (de Junho de 2010): fim da justa causa, SNS e Educação menos públicos.

20h55. Debate começa. O jornalista Vítor Gonçalves dá a palavra a José Sócrates.

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