Entre o "pouco apetite" pela "bomba atómica" e a tentação de responder aos apelos da "grave crise política"

O que se espera  de Cavaco Silva no dia seguinte  à reeleição? A magistratura activa acabará numa antecipação de legislativas?

Cavaco Silva inicia hoje um novo ciclo em Belém. Reeleito para o segundo mandato, a campanha das últimas semanas abriu brechas na cooperação estratégica, que o Presidente definiu como a sua orientação nestes primeiros cinco anos no palácio cor-de-rosa.

Na campanha, Cavaco-candidato navegou entre o alerta de não se "excluir a possibilidade de ocorrer uma crise grave em Portugal, não apenas no plano económico e no plano social, mas também no plano político" (na primeira semana) e o "pouco apetite" pela "bomba atómica" da dissolução do Parlamento, uma vez que "o País não aguenta um Governo de gestão" (já na segunda semana).

Ontem, no discurso como um dos derrotados da noite, José Sócrates prometeu "leal cooperação" ao Presidente da República, mas o líder do PSD, Pedro Passos Coelho, veio pôr água na fervura a quem já sonha com a velha vontade de Sá Carneiro, de "uma maioria, um governo, um presidente" (ideia que aliás enclausurou num período histórico determinado). Estas "foram eleições para Presidente da República", não "uma espécie de primárias para as legislativas", avisou Passos, repetindo uma ideia que já tinha avançado quando apareceu na caravana de Cavaco.

O Presidente eleito prometeu para este mandato uma"magistratura actuante", que enunciou ontem na varanda do CCB, e que já se reflectiu em discursos críticos na estrada aos "sacrifícios" pedidos aos portugueses, com o Orçamento aprovado pelo PS e PSD. E ontem foi um vencedor que não esqueceu a luta de "um contra cinco" (repetiu-o duas vezes), que denunciou o que disse ter sido uma campanha da infâmia contra a sua honra - os casos das acções do BPN e da sua casa de férias não o largaram durante a campanha e foram muitos os que, na órbita do PS e do próprio Governo, também alimentaram estas polémicas.

O paladino da estabilidade, que foge do conflito como o diabo da cruz, promete agora estar ainda mais vigilante do que nunca. Cavaco Silva não o disse, mas na cabeça de todos estará o mês de Abril, quando se conhecerem os dados da execução orçamental do primeiro trimestre, quando se volta a discutir na Assembleia da República o Plano de Estabilidade e Crescimento e analisando a evolução das taxas da dívida soberana.

No caso destes objectivos do Orçamento do Estado falharem, o Presidente poderá ter de decidir se abre o apetite a um prato que sempre o enjoou: o da dissolução de uma Assembleia da República, onde mora uma minoria parlamentar socialista que tem sobrevivido com o apoio "em nome do País" dos sociais-democratas. Abrindo terreno à "grave crise política". Ou se optará por engolir em seco e avalizar o Governo de Sócrates por mais tempo, porque não o País não aguenta um executivo em gestão e uma campanha eleitoral é dispendiosa (como disse, ao afastar a possibilidade de uma segunda volta, na semana passada).

Se Eanes saiu de Belém com um partido presidencialsita nos 18%, se Soares conseguiu enterrar o cavaquismo e lançar Guterres, se Sampaio proporcionou a maioria absoluta a Sócrates, lançará Cavaco para o poder Passos (ou um seu sucessor na liderança do PSD)?

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