Juros da dívida no patamar proibido em dia de leilão

Se os juros da dívida pública portuguesa atingirem os 7% fixados por Teixeira dos Santos, como quase voltou a acontecer ontem, não significa que Portugal peça mesmo a intervenção do FMI. É apenas um valor de referência, como entende a maioria dos analistas. Mas há uma quase unanimidade quanto a ter sido "um erro" o ministro apontar um valor concreto

Os juros da dívida pública portuguesa ultrapassaram ontem o limite de 7% que o ministro das Finanças apontou como sinal de alarme para o País recorrer ao FMI.

Embora no mercado secundário, que controla a maioria das operações, o valor máximo para as obrigações do Tesouro (OT) a dez anos tenha ficado em 6,92%, escapando por um fio ao patamar fixado por Teixeira dos Santos, o certo é que algumas instituições financeiras, conhecidas como bond providers, chegaram a negociar acima dos 7%, como o banco francês Natixis, que atingiu os 7,108%, de acordo com a Bloomberg.

O dia foi, aliás, bastante agitado, com as constantes subidas e descidas típicas de um mercado extremamente nervoso, mas no final da sessão os juros para compra de dívida portuguesa exigidos pelos investidores pararam nos 6,763%, 1,3 pontos-base abaixo portanto dos 6,776% a que encerraram na segunda-feira, mas ainda muito próximo da barreira psicológica fixada. E na véspera do último leilão deste ano de obrigações do Tesouro portuguesas, que hoje se realiza e no qual o Estado pretende conseguir entre 750 milhões de euros e 1,25 mil milhões, o ministro fez uma derradeira tentativa para acalmar os mercados, reafirmando que a consolidação orçamental será cumprida "sem hesitação".

"Os portugueses já perceberam, e os mercados podem estar certos disso, que este é o caminho a seguir e que será de facto seguido sem hesitação, de modo a assegurar que o País continue a financiar-se nesses mesmos mercados", citou a Reuters. Às várias agências noticiosas, o ministro garantiu que as medidas de austeridade preconizadas no Orçamento "serão levadas até ao fim" para que o défice desça para 4,6% do PIB em 2011, salientando que o programa de privatizações em curso "vai permitir controlar e inverter o andamento da dívida pública" e assegurou que "Portugal prosseguirá e aprofundará as reformas estruturais em curso de modo a aumentar o potencial de crescimento do País".

Apesar de o limite dos juros da dívida para Portugal pedir a intervenção do FMI ter sido fixado em 7%, a maioria dos economistas e operadores financeiros entende que se trata de uma referência, não sendo uma inevitabilidade lançar mão a esse recurso assim que se atinja esse valor.

Mesmo assim, é praticamente unânime que o ministro não devia ter quantificado um limite para pedir ajuda externa. O economista da Schroders Azad Zangana afirma taxativamente que "foi um erro" o ministro ter referido "o patamar dos 7%". E considera que a "profecia" se está "a concretizar", com as taxas de juro a aumentar para "um nível tal, que Portugal já não consegue pagar".

Contactados pelo DN, João Duque e António Nogueira Leite têm idêntica opinião. "Nunca entendi a fasquia dos 7% e não se deve ter esse tipo de discurso se não houver intenção de cumpri-lo", considera João Duque. O presidente do ISEG acredita, porém, que os mercados acabarão por serenar depois do leilão de hoje e com o Orçamento para 2011 aprovado. "Se não, o melhor é mesmo entregar as chaves", afirma.

Mas às vésperas de um leilão, como o de hoje, Duque considera "normal" que os investidores "façam pressão". Defende, porém, que os portugueses têm um papel importante para descomprimir o mercado, "aplicando as poupanças na compra de dívida" e que devia mesmo ser feita uma campanha institucional nesse sentido.

Nogueira Leite também não vê "fundamentação técnica possível" para os 7% e acusa o ministro de ter sido "imprudente". Acredita que os mercados continuarão instáveis, mas que o recurso ao FMI só se justifica "se os juros subirem mais de 50 pontos-base".

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