Pelos caminhos de Ronaldo

A quatro dias da provável eleição como Melhor Jogador do Mundo pela FIFA, o DN sport regressa aos locais onde o futebolista deu os primeiros passos e fala com quem viu o 'fenómeno' crescer.

Turistas e jornalistas estrangeiros querem pisar o solo de CR7

Os taxistas da freguesia de Santo António poderiam oferecer ao turista um roteiro sobre a vida de Cristiano Ronaldo. Onde viveu, que escola frequentou, os locais onde, pela primeira vez, jogou futebol, as instalações do Clube Desportivo Andorinha, o salão de bilhares que frequentou. A procura é muita, dizem. São visitantes da ilha, com origens diversas, que querem pisar o mesmo solo que o "fenómeno". O mesmo acontece com jornalistas estrangeiros em reportagem.
Mas não há nada organizado. A casa velha de Cristiano, propriedade camarária, já foi demolida e o espaço ocupado por tomateiros selvagens e ervas daninhas. O carro entra aos solavancos nos becos estreitos que já foram terra batida, por entre casas de um bairro nascido por necessidades familiares, pouco ou nada infra-estruturado, desordenado de nascença. A Quinta Falcão é um dos muitos exemplos que encontramos nas zonas altas do Funchal. Com o andar dos anos, a paisagem foi sendo alterada. Blocos de apartamentos começam a crescer um pouco por todo o lado. Mas as marcas daquele núcleo continuam. A droga infiltrou-se e instalou-se. A PJ tem esta localidade na mira. Neste contexto, Ronaldo é visto como uma esperança de vida. Fala-se de dotes extraordinários e questiona-se o que seria o seu futuro se por ali ficasse, os riscos que corria. Todos têm consciência disso. Cada vez menos o vêem, é certo, mas pouco importa, porque sabem que o registo de nascimento de Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro, nascido a 5 de Fevereiro de 1985, obrigará sempre a um regresso às origens.
 
Ramiro, o Flor, conheceu-o desde miúdo. "Já se escreveu tanto sobre ele. Mas nós já estamos acostumados. É uma honra", diz. Mas há contradições. Talvez por ser uma terra pequena. Há os que recusam falar. Fala-se em "invejas" e justificações culturais, ou seja, "o povo madeirense é assim, não pode ver o sucesso do vizinho". Descemos o barranco até à velha escola primária de Santo António, abandonada, rodeada de mato, e que distancia meia dúzia de metros do lar do pequeno e esguio menino que sempre preferiu uma bola a um carro telecomandado. Não muito dedicado às letras, ainda passou pela Escola Básica e Secundária Gonçalves Zarco, mais conhecida por Escola dos Barreiros por encontrar-se perto do Estádio com o mesmo nome. Se uns falam de vaidade e arrogância, outros têm consciência que tornar-se estrela mundial na idade dele é um "rombo na cabeça". Daí a importância da família Aveiro. "As pessoas esquecem-se que ele é um puto com uma vontade e garras sem limites, mas que cresceu muito cedo. A sua liberdade de movimentos nasceu com ele por imposição da vida", filosofa Ramiro, que lamenta que "outros Ronaldos" de Santo António não tenham tido a mesma sorte.

A ida para o Sporting

A Madeira nutre um sentimento estranho para com Cristiano Ronaldo. A psicologia social explica. Nasceu nas franjas da sociedade. Nas margens que pouco e nada contam porque o rio continua a correr com ou sem eles. A família tem consciência de que muitos dos que antes os ignoravam, passaram a fazer vénia e a idolatrá-los. De banqueiros e governantes, ao jet set dos negócios. Marques de Freitas, antigo procurador-geral adjunto na Madeira, presidente do núcleo de simpatizantes do Sporting na região, conhece a história desde início e jura que o menino que conheceu, com "qualidades extraordinárias, sofreu muito" quando ingressou na escola do Sporting aos 11 anos.

"Ao contrário do que muitas das pessoas aqui na Madeira pensam, Cristiano Ronaldo não é um indivíduo vaidoso. É modesto e extremamente tímido. Mas é natural que queira ter os brinquedos que não teve, como os carros, as boas casas. Ele sempre teve uma postura rebelde. Mas foi essa rebeldia que o fez singrar. Ele sabe liderar bem com a pressão e é um líder. E tem uma teimosia que lhe vem de dentro. Toda a gente sabe que ele é de origem humilde, que era um puto de rua. Foi aí que jogou à bola na terra batida. E depois? Talvez Ronaldo deva a esse enquadramento a sua personalidade tão determinada. Fez muitos sacrifícios e venceu sempre. Estava vacinado para todas as dificuldades. Quantos jogadores, quantos políticos, quantos empresários não tiveram o mesmo percurso?", diz ao DN. Ou seja, "se fosse um indivíduo que quisesse popularidade fácil andava aqui na Passagem de Ano pelas ruas da cidade com uma multidão atrás. Mas ele foge das pessoas. Não é por mal mas o assédio é muito. Por isso, refugia-se num hotel e não sai. Nem a casa vai", referiu.

Este homem do Ministério Público, entretanto jubilado, orgulha-se de ter dado ouvidos ao padrinho do miúdo, Fernão Sousa, responsável pela "transferência" de Ronaldo do Clube Desportivo Andorinha, um clube de freguesia, para o Clube Desportivo Nacional.

"Eu já tinha feito contactos com o Sporting quando vieram cá os dirigentes. O Cristiano já tinha sido campeão do Nacional nos infantis, com o treinador António Mendonça. E tudo aconteceu de forma espectacular. O Nacional devia 4 mil e tal contos ao Sporting. O Sporting perdoou a dívida em troca do Ronaldo, que foi cuidado em Alvalade como um filho da casa. A Isabel Mira que era, então, vice-presidente do Sporting, era quase a madrinha dele", diz.

Marques de Freitas lembra que o Núcleo do Sporting da Madeira apoiou naquilo que pôde, nomeadamente nas viagens para a mãe, que a partir de uma certa altura foi viver para Lisboa num apartamento da Quinta Lambert, uma forma de acompanhar o filho e quebrar as saudades da ilha. As viagens à terra de Ronaldo eram custeadas pelo Nacional e pelo Sporting. Mas muitas vezes "ele não vinha, pois ficava de castigo. O Sporting meteu-o na linha. Era preciso discipliná-lo", disse. Mesmo assim, não conseguiram que terminasse o 9.º ano. "Todos nós temos, ainda, a imagem de Ronaldo sempre agarrado ao pai, o senhor Aveiro, que já faleceu, roupeiro do Andorinha, que foi muitas vezes maltratado pela Junta de Freguesia de Santo António que, durante as festas locais, o colocava a guardar os sanitários públicos. Cristiano nunca perdoou o dia em que o pai não pôde ir ver o jogo por causa desta situação", lembra.

O padrinho

Fernão Sousa, padrinho de Cristiano Ronaldo, tem 54 anos, trabalha na Inspecção Económica do Funchal, mas foi, no passado, um homem do futebol. Estava no Clube Desportivo Andorinha quando a D. Dolores engravidou. O pai Aveiro convidou-o para padrinho da criança. "Um dia ofereci-lhe no Natal um carro telecomandado e ele não gostou muito. Queria uma bola. Aliás, ele dormia com uma bola. Jogava na rua de terra batida, tal como eu joguei, o que é muito diferente porque os limites são outros. Havia guerras entre casas. Jogava um grupo contra o outro, com gente muito mais velha do que ele", recorda.

Neste último Natal, Ronaldo ofereceu ao padrinho uma miniatura da Bola de Ouro que ganhou da France Football. Simplesmente porque sabe que Fernão Sousa nunca desistiu dele, empurrando-o para um percurso de sucesso. "Ronaldo tinha o destino traçado e eu sabia", sublinha.

Fernão Sousa foi quem acompanhou Ronaldo aos testes, na primeira viagem de avião. Nesse dia já treinou pelos leões. A opinião geral que é "tínhamos ali um diamante por lapidar". Ficou uma semana, sozinho. Regressou ao Funchal sozinho. Aos 11-12 anos. Depois regressou e a adaptação não foi muito boa. Mas tudo se compôs. O Sporting começa a depositar um ordenado de 10 contos numa conta que não podia movimentar. A mãe Dolores, um dia, "manda-lhe uns trocos. Nesse dia, Ronaldo não foi almoçar à cantina e gastou o dinheiro todo em chocolates". Fernão ri-se e acha piada. Mas Ronaldo foi chamado à atenção.

Para o padrinho, Ronaldo vai moldando aos poucos o seu carácter: "Ele é um líder. E nunca gostou de perder. Ainda hoje é assim. Mas já consegue controlar-se."

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