As linhas com que se cosem as lojas de roupa usada

Já tiveram outros donos. Algumas guardam memórias de outras épocas. Outras são modernas, etiquetadas por marcas de luxo. A roupa em segunda mão começa a ganhar cada vez mais fãs em Portugal. O DN foi conhecer três lojas em Lisboa que se dedicam a este negócio

_CATARINA REIS DA FONSECA



N'A Outra Face da Lua podem encontrar-se peças de roupa 'vintage', das décadas de 40 a 80.



Pousados numa vitrina, uns óculos de sol que podiam ter pertencido a John Lennon esperam pacientemente por um novo dono. Enquanto isso, chapéus de várias cores, tamanhos e épocas ou óculos de tamanho XL repousam em manequins de plástico eternamente sorridentes. Entramos no número 22 da Rua da Assunção, na Baixa lisboeta, e de repente já não estamos em 2010. N'A Outra Face da Lua, uma loja de roupa em segunda mão, pairam memórias das modas de outros tempos.
Rigorosamente organizadas por cores ou padrões - é impossível não reparar nos chamativos padrões de tigresa alinhados a um canto - estão camisolas, lenços, camisas, laços, saias. Há também dezenas de vestidos compridos, alguns feitos à mão, com ou sem brilhantes, rendados ou não, a preços que rondam os 40 euros.
As roupas mais antigas datam dos anos 40 e 50 e, por serem mais raras, têm um va-lor superior, podendo ultrapassar os cem euros. "Se aparece por cá um Dior, por exemplo, o preço será mais alto", explica Carla Belchior, de 36 anos, sócia da loja que há cinco anos funciona neste espaço. Ainda assim, por cinco euros é possível levar para casa uma peça de roupa com um pouco de história.
Depois de alguma hesitação, Carla aponta "atitude" como a melhor palavra para definir A Outra Face da Lua. "Há muitas palavras que podia escolher, 'ecléctica' é também uma delas".
As peças são encomendadas em países como a Holanda ou a Alemanha e por serem vintage - uma categoria em que se inserem roupas dos anos 20/30 aos anos 80 - são obrigatoriamente usadas.
"A roupa em segunda mão não é necessariamente vintage. O vintage marca uma época e por isso as peças são mais caras. Segunda mão pode ser simplesmente a camisola que usámos há dois anos e já não queremos", explica Carla.
Diz que este "não é um negócio fácil". "É preciso perceber as tendências e ter olho para escolher. As roupas precisam de estar em bom estado".
A receber os clientes com um sorriso e alguns hello para os clientes estrangeiros - que nesta altura do ano ultrapassam o número de portugueses a visitar a loja - está Daniela, de 21 anos. Trabalha n'A Outra Face da Lua há poucos meses, mas veio para ficar. "Adoro trabalhar aqui porque não é um tipo de roupa para as massas, não se encontra em todo o lado." Na sua opinião, "nos anos 50 e 60 fazia-se óptima roupa, os cortes eram diferentes e a qualidade dos tecidos era melhor. Hoje em dia, infelizmente, não se dá valor a isso. Só mesmo em alta costura".


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“Vestir bem a preços acessíveis é o lema da Trapizonga, uma loja que nasceu em Março


Um outro projecto de venda de roupa usada é a quase recém-nascida Trapizonga. Em Março, Marta Costa abriu a primeira loja e apenas dois meses depois já inaugurava outra na Rua de Arroios, em Lisboa. Foi este último espaço que o DN foi espreitar. Ali, o conceito adoptado é a venda de roupa moderna em segunda mão ou restos de colecção a preços acessíveis . A empresária era cliente deste tipo de lojas no estrangeiro e achou que faziam falta por cá. "Há outras lojas de roupa usada, mas com o conceito que nós adoptámos, não. Não temos concorrência nenhuma", explica Marta. Lá dentro, paredes forradas a flores rosas e um antigo guarda-fatos espelhado ao fundo dão as boas-vindas aos clientes, que podem escolher entre marcas tão variadas como Hugo Boss, Levi's, Ralph Lauren, Prada ou Miss Sixty. As peças vão desde um euro até aos 120, que é quanto podem custar alguns vestidos de noiva ou de casamento. "Vêm aqui pessoas de todas as classes sociais e de todas as idades. A cliente mais velha tem 86 anos", refere a empresária. "Quem mais precisa, acaba por ser também quem tem mais preconceito em relação a este tipo de roupas."
Ao ritmo do seu sotaque brasileiro , Janaina, uma funcionária da Trapizonga, conta que há pessoas que entram na loja e "dizem logo que não querem roupas usadas. Depois dão uma volta, vêem que está tudo em bom estado e acabam por comprar".

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A Humana, que tem quatro lojas em Lisboa, selecciona e vende roupa doada em segunda mão



A última paragem do DN foi a loja Humana da Avenida Almirante Reis. Integrada num projecto de uma associação humanitária internacional com o mesmo nome, funciona com base em doações. "Temos vários contentores espalhados pela cidade onde as pessoas depositam as roupas que já não querem. Depois há uma equipa que selecciona as peças que estão em condições para vender ", explica a gerente de 33 anos, Margarida Silva. A roupa mais fresca é enviada para países africanos ou Brasil, regiões onde a Humana tem projectos de voluntariado.
A "nova colecção", composta por mais de três mil peças, tinha acabado de chegar à loja, depois de uma semana atribulada em que ficou tudo a um euro. Fora da época de saldos, 50 cêntimos é o preço das peças mais baratas. Outras podem chegar aos 125 , no caso de terem marcas de luxo.
À porta, um cão espera preguiçosamente pela dona que veio conhecer as novidades. Quem faz compras aqui não se importa que roupas e acessórios já tenham tido outros donos. Há quem simplesmente procure roupas baratas ou marcas que, novas, custariam o triplo. Margarida conta que "há pessoas que vêm todos os dias. Já se sentem em casa".


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'Online'
A segunda mão na Internet
A roupa há muito esquecida no fundo do armário pode ainda servir para alguma coisa? Quem está habituado a fazer compras através da Internet provavelmente já saberá a resposta para esta pergunta. Vagueando pelo mundo das vendas de artigos usados online, multiplicam-se as secções dedicadas ao vestuário, calçado e acessórios de todos os feitios, marcas e preços. Alguns dos mais famosos pontos de venda são os sites de leilões como o pioneiro e-bay, fundado nos Estados Unidos há 15 anos. Em Portugal, o mais famoso espaço online deste género é o miau.pt onde se vende de tudo um pouco, desde livros, relógios ou jóias a barcos e apartamentos. Os blogues pessoais de venda de roupas usadas começam também a proliferar. Para ganhar algum dinheiro extra com peças que já não servem ou das quais já não gostam, muitas pessoas utilizam estas plataformas para tentar perceber se há alguém interessado naquilo que têm guardado no fundo do baú. Tiram fotografias às peças, publicam-nas e depois enviam-nas, normalmente à cobrança, a quem se mostrar interessado. Roupa em Segunda Mão (www.roupa2mao.blogspot.com), Roupas da Fina (www.roupasdafina.blogspot.com) ou Bazar Há Novo e Velho (www.bazarhanovoevelho.blogspot.com) são apenas alguns exemplos. Há ainda uma comunidade portuguesa inteiramente dedicada à troca e venda de roupa e acessórios na rede Live Journal. Chama-se O Sótão e para comprar ou anunciar produtos basta um simples registo em http://community.livejournal.com/o_sotao.

 

Agora escolha...
Luxo
- vestido Dior - 3000 €
Económico - Vestido usado - 30€

Na loja A Outra Face da Lua pode comprar um vestido vintage por 30 euros. Mas se é uma peça de luxo que procura, a Dior tem alguns vestidos que rondam os 3000 euros