Vá de retro mas não tanto

A comandante Rita Barbas, na TAP desde 1989

Numa viagem que foi um regresso ao passado, aos anos de 1970, a companhia assinalou os voos diretos para Toronto. Depois deste, seguem-se Miami, São Paulo, Luanda e Rio de Janeiro

O avião vai fazer-se à pista e voar para Toronto, uma rota que a TAP recuperou a 10 de junho deste ano. É um voo especial para todos os passageiros que, logo no check--in, ficam a saber que entraram numa viagem com regresso ao passado. Do avião já tinham ouvido falar, com a pintura que usava nos anos de 1970, a passarola em destaque, o nariz vermelho, o nome de Portugal. Mas agora deparam-se com comissárias de bordo usando as fardas dessa época, então desenhadas pela casa de alta-costura Féraud. Há música dos anos 70, filmes dos anos 70, memórias sem fim dos anos 70. Definitivamente, numa operação de marketing, a TAP viaja no tempo. Podemos partir.

"Muito boa tarde , senhoras e senhores passageiros, fala-vos a comandante Rita Barbas..." STOP. A comandante!? Estamos na década de 1970, nos cockpits dos aviões da TAP não há mulheres. As hospedeiras, bonitas nas suas fardas bonitas, fazem parte da tripulação mas não assumem o comando. Quem é Rita Barbas? "Estou na TAP desde 1989, fui assistente de bordo durante sete anos, dos quais dois foram já a fazer o curso de pilotagem, estive como copiloto desde 1996 e tenho 13 anos de comando." Rita entrou para os Transportes Aéreos Portugueses no ano em que a companhia de aviação passou a ter a primeira mulher piloto, a comandante Teresa Carvalho. Na mesma altura em que caiu o muro de Berlim, se desmoronava a União Soviética e ao mesmo tempo que em Portugal se concluía a segunda revisão constitucional que punha fim às nacionalizações efetuadas depois do 25 de Abril de 1974. Nos dias de hoje, ainda há companhias de aviação que não aceitam mulheres como comandantes do avião.

O mundo mudou, a TAP também. Ainda bem. A profissão ainda é maioritariamente masculina, mas longe vão os tempos em que Teresa Carvalho era recebida com estranheza no cockpit do avião. Esse tempo ficou para trás, vamos voar então para Toronto, deixando os comandos de toda a operação nas mãos de Rita Barbas. Os aviões sempre fizeram parte da vida dela. Nasceu em Angola e sempre que vinham "visitar a família à metrópole viajavam na TAP, como é óbvio". A Linha Aérea Imperial tinha 12 escalas e houve alturas em que, mesmo de avião, ligar Lisboa a Lourenço Marques (Maputo) demorava uma semana. "A tripulação descansava nos mesmos hotéis dos passageiros e ao longo do voo as pessoas iam-se conhecendo pessoalmente", lembra Rita. Os aviões eram bastante mais lentos e não levavam tanta gente, mas havia um grande glamour. Também isto mudou.

Depois de Toronto, seguem-se Miami, São Paulo, Luanda e Rio de Janeiro. A TAP ainda vai fazer, até ao final de agosto, mais cinco voos retro com este Airbus 330. Alia o revivalismo de uma época de ouro da aviação com o tempo das novas tecnologias, a rapidez com que se atravessa o Atlântico e as comodidades para os passageiros. A pasta medicinal Couto, a água-de-colónia Lavanda, o jogo O Sabichão, os furos dos chocolates Regina, está tudo lá a remeter-nos para a década de 1970. Como está, em papel, a edição do dia do DN, um jornal com 153 anos que noticiou os maiores feitos da aviação portuguesa, com uma capa falsa a dar conta desta operação de marketing da TAP. Mas estando tudo isto, não podia faltar uma entrada USB para ligar o smartphone ou o tablet, aparelhos essenciais para trabalhar, e um ecrã com dezenas de filmes para ver, ajudando a passar o tempo numa viagem que dura mais de sete horas.

Há coisas que mudam e outras nem tanto. Por exemplo, o gosto que os emigrantes têm por tudo o que é português. Este regresso da TAP a uma rota que tinha abandonado foi saudada como uma "carreira" que eles preferem utilizar. Sabendo disto, o regresso ao passado faz sentido exatamente para recuperar rotas que se abandonaram, para ir onde estão os portugueses. Também vale a pena recuperar o design, os cheiros, os sabores, os jogos de antigamente, sem perder de vista que o mundo avança. Este voo a Toronto mostrou que é possível viver no melhor de dois mundos. Nem preso ao passado nem esquecido dele. Quando uma empresa tem uma história para contar, deve fazê-lo. Quando quer mostrar a diferença, faz bem em escolher uma mulher para assumir os comandos da operação. As mulheres na aviação sempre foram, nalguns casos ainda são, vítimas de um estereótipo. O marketing também serve para ajudar o mundo a andar para a frente. Rétro ma non troppo.

O jornalista viajou a convite da TAP

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