"Sou um raciocinador, gosto de conectar pontas soltas"

Aos 38 anos, o português nascido em Castelo Branco tem um longo e intenso percurso académico e uma caminhada igualmente destacada nos setores público - nas Nações Unidas e no governo estadual de São Paulo, Brasil - e privado, com a empresa que criou há dois anos, a Granito & Partners. É o único português entre os 100 jovens líderes globais escolhidos pelo Fórum Económico Mundial

A Granito tem o objetivo de "potenciar a capacidade de as empresas contribuírem para um desenvolvimento humano e sustentável sem sacrificar os lucros". Como funciona?

A Granito foi idealizada quando eu estava em Harvard e percebi que o mercado de capitais gere cerca de 1080 triliões de dólares em ativos, enquanto o PIB combinado de todos os países do mundo é cerca de metade disso. Trabalhamos com empresas de grande porte, corporações detentoras e gestoras de ativos no mercado financeiro, visando a geração tanto de valor económico quanto social em todas as transações em que participam. Fazemos isso de diversas formas. Em primeiro lugar, como consultores, ao trabalhar com empresas para melhorar, por exemplo, a sua responsabilidade corporativa, ajudando-as a ter mais valor e mais impacto. Ou seja, oferecemos serviços de banco de investimentos, ajudando grandes poderes do mercado a captar recursos para projetos de grande envergadura, em energias renováveis, educação, infraestruturas. Desenvolvemos também fundos de investimento que analisam riscos sociais ou ambientais ou só investem em ativos que têm impactos positivos para a sociedade. E fazemos investigação.

Investigação em que campos?

Principalmente sobre o mercado financeiro. Não é uma empresa idealista, envolve banqueiros, gestores de fundos, presidentes de multinacionais. Temos um espírito de impacto pragmático de resolução que ajuda os clientes a gerar um impacto positivo para a sociedade e também a conseguir impacto financeiro e económico para eles. Temos operações nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina.

Poderia indicar algum projeto que já tenha sido financiado com dinheiro obtido desta maneira?

Posso mencionar dois projetos concretos. A Microsoft decidiu ter o seu primeiro fundo de venture capital para investir só em startups que possam gerar um impacto positivo para a sociedade e para o meio ambiente, além de serem viáveis e rentáveis. Fomos nós que estruturámos esse fundo, fizemos a captação e criámos todas as métricas de impacto. Segundo projeto: somos responsáveis pela captação de recursos do mercado de capitais para uma das maiores centrais de energia solar do mundo, na Bahia, no Brasil.

O que é a paradiplomacia, sobre a qual escreveu o seu livro mais recente?

Paradiplomacia refere-se às relações internacionais e à política externa conduzida por cidades e estados (governos subnacionais). O livro, escrito quando eu era Senior Research Fellow em Harvard, analisou a paradiplomacia de centenas de cidades e estados em todo o mundo para inferir que é uma forte tendência internacional. É um manual para as cidades serem mais competitivas, sustentáveis e globalizadas.

Esse é um trabalho académico?

A minha vida profissional acabou por se formar em torno de três caminhos. O primeiro é académico. Sou, em primeiro lugar, como dizia Pessoa, um raciocinador. Preciso de ler, estudar, aprender, refletir. Gosto muito quando entro numa biblioteca com os livros espalhados no chão e saio com tudo minimamente arrumado. Gosto de conectar pontas soltas, de preencher espaços vazios, de fazer ciência. Isso levou-me às universidades de Harvard, Berkeley, Columbia e Gotemburgo. Desde o início que me interesso por novos modelos de cooperação, de governação. Os quatro livros que escrevi foram sobre o papel das universidades e o papel de organizações internacionais na resolução de problemas sociais, económicos, ambientais. Gosto de pesquisa aplicada. Precisa de fazer sentido, de ser assimilada, e útil. Se puder, é um trabalho que continuarei a fazer, geralmente aos fins de semana, bem cedo de manhã - acordo às cinco da manhã - ou nas férias. Mas nunca fui capaz de fazer trabalho académico full-time. Sou muito irrequieto, sinto-me desconfortável quando passo muito tempo a fazer a mesma coisa.

Isso é incompatível com a academia?

A academia está afastada da sociedade. Não sou capaz de ensinar ou escrever durante um ano, uma década. A minha segunda trajetória é o setor público. Em criança, lembro-me de fingir dores de barriga para deixar de brincar com os meus amigos e ir para casa ver debates políticos na televisão com o meu pai. Há uns anos, emocionei-me quando o meu filho, com a mesma idade que eu tinha, se sentou-se no meu colo para ver um debate entre o Obama e o Mitt Romney em 2012. Gosto da causa pública. Isso levou-me a trabalhar nas Nações Unidas, no governo do estado de São Paulo, experiências radicalmente diferentes e igualmente estimulantes.

Qual é o terceiro caminho?

É o mais recente, o setor privado, onde o que me estimula é o rigor na aplicação dos processos, e poder escolher trabalhar com pessoas muito talentosas. Mas o que me trouxe para aqui foi a consciência de que entre os diversos atores internacionais, organizações, países, ONG, o setor privado tem forte potencial de contribuição, ainda não devidamente explorado, para enfrentar problemas sociais. O mercado financeiro gera recursos extremamente expressivos que poderão ser aproveitados para enfrentar problemas sem sacrificar lucros.

Não sacrificar os lucros é uma das razões para ser bem acolhido?

Sim, porque nós conseguimos demonstrar matematicamente que algumas empresas, em algumas situações, em alguns projetos conseguem alavancar os lucros se inserirem uma consciência social ou ambiental nas transações que operam. Quando conseguimos provar isso, então nem têm de pensar muito, porque continuam na sua trajetória de geração e maximização de recursos, lucro de retorno, mas podem também impactar positivamente os outros. É um jogo de ganha-ganha para todos.

Em 2011 escreveu no DN um artigo em que dizia que Portugal precisava de se repensar. Acha que se repensou?

Acho que sim. Uma das coisas que me deixam animado acerca de Portugal é o facto de as três gerações - a dos meus avós, formada na ditadura, rural, conservadora; a dos meus pais, que amamentou a democracia; e a minha, mais liberal, mais globalizada, mais tecnológica - conviverem harmoniosamente. O meu avô, de quase 100 anos, que nunca entendeu bem o que eu faço profissionalmente, delicia-me quando penetro no universo dele, do campo, do pão de centeio com azeite feito no lagar da aldeia, naquele bucolismo em que os dias são todos iguais. Adoro esse universo. Se formos à Escandinávia ou aos Estados Unidos, a evolução e as diferenças entre estas gerações são mais esbatidas. Em Portugal, são mais notórias, estes degraus têm uma distância maior, mas existe um respeito geracional. Esta é uma certa beleza de Portugal que gosto de valorizar. Entre 2011 e 2016, houve uma transformação profunda porque, pela primeira vez, a minha geração começou a irrigar a administração pública, o setor privado e Portugal tornou-se um país com maior lastro, mais globalizado, mais liberal, mais moderno e mais interessante.

Por que escolheu o nome Granito para uma empresa com características tão globais?

Estou fora há 18 anos e acabo por ter sempre uma relação muito intensa com os países onde vivo, misturo-me com facilidade. Passado algum tempo, é fácil ser confundido com os nativos do país onde estou. Mais uma vez, Fernando Pessoa dizia que uma das três características dos portugueses é terem uma adaptabilidade instintiva. Como bom português, tenho essa adaptabilidade e não procuro replicar nos países onde vivo o Portugal que eu deixei, que foi a minha primeira área de conforto. Mesmo assim, sou português, gosto muito de ser português e identifico-me verdadeiramente com Portugal. Mesmo no mundo de negócios gosto de me sentir português. Granito é a rocha mais comum na região de onde eu sou oriundo em Portugal, que é a região da Beira Baixa. Ao não querer personalizar a empresa dando-lhe o meu sobrenome, de uma forma um pouquinho mais subtil associei-a a algo que me é memorável que é a rocha de granito.

Que projetos tem de novo para os próximos tempos?

Na academia devo continuar a escrever e a publicar, acabaram de me chamar para ser colunista no site do Fórum Económico Mundial e isso vai obrigar-me a escrever ainda com mais frequência. Portanto, a parte académica vai continuar a ser explorada. O setor privado também. A Granito é uma empresa com dois anos, tem muitas novidades a caminho, está a crescer com alguma rapidez e nós temos de nos adaptar para que a empresa seja verdadeiramente global. Daqui a três ou quatro meses haverá novidades sobre a Granito. Nos próximos anos, deverei estar focado na consolidação desse projeto do setor privado.

Nunca pensou em dedicar-se à causa pública em Portugal?

Diria que sim, já. Muitas vezes perguntam-me se eu espero ou se gostaria de voltar a Portugal. Olhando para trás, todas as vezes que tive de responder a essa pergunta percebo que as respostas têm sido relativamente diferentes. Variam de um rotundo não para um rotundo sim. Hoje, a minha visão é mais pacificada, menos dicotómica. Estou tanto em casa fora de Portugal como dentro dele. Vejo mais continuidades do que fronteiras. Então, eu diria que se forem criadas as condições pessoais e profissionais, faz sentido viver novamente em Portugal e trabalhar seja no setor público quanto no setor privado.

Há algum projeto da Granito que esteja relacionado com Portugal?

Ainda não. Temos alguns projetos na Europa mas infelizmente ainda não passam por Portugal.

O que é preciso para uma empresa em Portugal se ligar à Granito para potenciar a sua atividade e o seu impacto social e ambiental?

Qualquer gestora de ativos, fundos de investimentos ou qualquer detentora de ativos, sejam bancos, fundações com endowments, famílias, quando chegarem à conclusão de que querem associar a sua gestão de capital a determinado propósito, a determinados valores, a Granito é a entidade certa para colaborar com eles. Nós temos equipas na Europa, seria fácil nós tomarmos um avião e ir trabalhar com entidades portuguesas.

Porque na verdade a Granito é global, não tem sede num sítio e se limita a esse lugar. É um novo paradigma?

Não, não é. As empresas não precisam de ser locais desde o início e só depois de muitos anos passar a ser globais. Desde a Revolução Industrial que isso acontecia dessa maneira. A Granito é composta por pessoas que falam muitas línguas, têm muitas nacionalidades e têm muitos talentos. Os seus clientes vêm de vários países e nós temos operações em três continentes diferentes. E as receitas também vêm de vários países diferentes. Desde o início, tem pequenas estruturas em vários países, temos um sistema interno de comunicação que é forte o suficiente para manter a empresa consolidada interna e externamente.

Não é um prémio, é uma responsabilidade para o futuro

É o único português entre os 100 jovens líderes globais escolhidos pelo Forum Económico Mundial, como foi anunciado na quarta-feira. Ao longo de cinco anos, participarão em reuniões com os 700 antes nomeados, numa comunidade que deverá "capitalizar diferentes talentos, experiências e redes para chegar mais longe do que conseguiriam sozinhos". Entre eles, encontram-se cientistas, empresários, ativistas de ONG, artistas, jornalistas, políticos. A ideia é selecionar em cada ano "os mais inovadores, empreendedores e com preocupações sociais homens e mulheres abaixo dos 40 anos que estão a derrubar fronteiras e a repensar o mundo à sua volta". Nomes como Jack Ma, executivo do grupo Alibaba (China), Marissa Mayer, presidente da Yahoo, Amal Clooney, advogada e ativista dos direitos humanos já foram integrados nesta rede. Entre os escolhidos em 2017 estão Katie Hill, chefe do programa da Apple para as Energias Limpas, Ankur Jain, vice-presidente da Tinder (EUA), Mouhamed Moustapha Fall (Senegal) do Instituto Africano para as Ciências Matemáticas, Ciro Guerra, realizador de cinema colombiano, Hooi Ling Tan (Singapura), cofundadora da GrabTaxi.

O que significa para si a nomeação?

Fiquei feliz. A primeira reunião de todos os nomeados será em Buenos Aires no início de abril. Só aí terei uma verdadeira noção do que significa a nomeação. O título por si só é menos importante quando comparado com a responsabilidade de usá-lo. A distinção deve ser usada como um instrumento para avançar na jornada profissional, para contribuir de forma mais significativa para a sociedade. Não vejo a nomeação como a premiação do passado mas como responsabilização do futuro.

Este grupo vai ter reuniões e missões?

Em 2017 foram designadas 100 pessoas, no total são 700 a 800. O contacto entre nós é fortemente impulsionado pelo Fórum Económico Mundial, somos estimuladas a colaborar entre nós para desenvolver projetos que possam ter impacto na sociedade e contribuir para o avanço das carreiras profissionais. Além dos contactos entre nós, há reuniões presenciais com muitíssima frequência. O Fórum Económico Mundial, juntamente com as universidades de Harvard e de Oxford, oferece cursos de formação e aperfeiçoamento profissional.

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