Zamzam Farah perdeu tudo, até renascer como maratonista em Londres

“Quero ser um exemplo para outras mulheres que não têm possibilidade de fazerem aquilo que desejam", diz Zamzam

Passou de porta-estandarte a refugiada após os Jogos de 2012. Sem família nem teto, só agora conseguiu regressar à competição

Na falta do mais famoso refugiado somali convertido em atleta britânico (Mo Farah), lá estará uma congénere e homónima, amanhã, a correr a Maratona de Londres. Zamzam Farah, que passou de porta-estandarte da Somália nos Jogos Olímpicos de 2012 a refugiada sem família nem teto, renasce agora como maratonista. A mítica prova londrina marca a estreia da antiga atleta de 400 metros na longa distância.

A história de superação de Zam-zam Mohamed Farah tem pouco do glamour da do compatriota Sir Mohamed Farah, que se sagrou bicampeão olímpico de 5000 e 10000 metros, multicampeão mundial e tornou talvez o mais bem-sucedido atleta britânico de sempre, depois de ter emigrado para o Reino Unido quando tinha oito anos. Zamzam, hoje com 26 anos, teve de se refugiar em Londres após os Jogos Olímpicos de 2012 - para escapar às ameaças de morte recorrentes que recebia no seu país (ingovernável e parcialmente controlado pelas milícias islamitas Al-Shabab). E só depois de percorrer um longo caminho conseguiu regressar ao atletismo.

"Na Somália, as pessoas não gostam de desporto, principalmente quando se trata de mulheres a praticarem-no. Tornava-se muito complicado treinarmos ou fazermos o que nos apetecesse. Era mesmo assustador", recordou a atleta, numa entrevista à Press Association. Por isso, quando o mediatismo da presença em Londres 2012 ameaçava por a sua vida ainda mais em perigo no regresso a Mogadíscio (as ameaças de morte tornaram-se ainda mais frequentes), ela e o outro atleta da Somália nessa edição dos Jogos Olímpicos - Mohamed Hassan Mohamed, dos 1500 metros - decidiram não voltar a casa e pedir asilo político ao Reino Unido.

Porém, esse foi só o início de uma longa jornada para Zamzam: longe da família ("Não te quero perder. Não importa quanto tempo estejamos separadas, prefiro que estejas segura", disse-lhe a mãe, incentivendo-a ficar em Londres), sem teto (após uns tempos a viver com uns primos) nem meios para subsistir, a atleta viu esboroar-se o sonho de uma carreira desportiva. Até que, com o apoio da The Running Charity, uma instituição de solidariedade britânica, se começou a reerguer: garantiu o estatuto de residente permanente no Reino Unido, arranjou um trabalho e pôde voltar a praticar atletismo.

"É muito duro não poder voltar ao meu país, não ter a liberdade que qualquer pessoa no mundo devia ter, de regressar ao lugar onde nasceu ou onde pertenceu. Mas sinto-me muito feliz por estar aqui e por viver em muito maior segurança. Aqui, posso fazer o que quero e seguir o meu sonho", nota Zamzam.

Ora, esse sonho passa pela Maratona de Londres. Após a humilde participação nos 400m em Londres 2012 - afastada na 1.ª eliminatória, com o 45.º entre as 50 participantes (três desistiram e duas foram desqualificadas) -, Zamzam Farah vai aventurar-se na longa distância. "Nunca corri uma maratona. Vai ser a minha estreia e mal posso esperar por começar", explica a refugiada somali, que mantém a ambição de voltar aos Jogos Olímpicos (eventualmente nos 1500 metros), mesmo sem saber sob que bandeira poderá competir - até porque a situação política na Somália não se alterou significativamente.

"Quero ser um exemplo para outras mulheres que não têm possibilidade de fazerem aquilo que desejam. Quero dizer-lhes que devem seguir o seu coração, tentar o que tiverem de tentar e nunca desistir. Não podemos morrer sem lutar por aquilo em que acreditamos", conclui Zamzam. Foi essa crença que a levou a juntar-se às cerca de 36 mil pessoas que amanhã se fazem à estrada na Maratona de Londres.

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