"O lagartão" vaidoso e o "líder" que não dizia palavrões

Antigos colegas de Jorge Jesus e Rui Vitória desvendaram ao DN como eram os agora treinadores na pele de praticantes. E não faltam histórias...

Jorge Jesus e Rui Vitória. Estes são os homens que vão estar nesta noite, respetivamente, nos bancos de Sporting e Benfica. Serão eles a determinar o rumo do maior dérbi do futebol português e quiçá o vencedor do título, com o FC Porto à espera de uma ajuda leonina.

Hoje nas bocas do mundo, Jorge Jesus e Rui Vitória foram jogadores vulgares, com poucos atributos e que motivavam escassa curiosidade. Por certo que os atuais treinadores não dariam oportunidade aos futebolistas Jorge Jesus e Rui Vitória, ainda que estejamos a falar de diferentes patamares, com vantagem para Jesus, que foi futebolista profissional - chegou a jogar no Sporting e inclusivamente a ser chamado à seleção de esperanças, ao contrário do seu adversário, que foi sempre amador.

O DN foi tentar perceber como eram estes homens nos tempos de futebolistas, falou com quem partilhou o balneário com eles, e percebe-se que há um fio condutor que invalida que os protagonistas tenham criado uma máscara.

Estamos a falar de gerações distintas, pois Jesus tem 62 anos, mais 15 do que Vitória. Aliás, só durante duas épocas foram futebolistas em simultâneo. Falamos de 1988-89 e 1989-90, altura em que Jesus jogou no Benfica e Castelo Branco e Almancilense e Rui Vitória vivenciava as suas primeiras emoções como sénior em Fanhões depois de ter cumprido a formação no Alverca. E logo nesse clube do concelho de Loures Rui Vitória não escondeu a sua preferência. "Não havia dúvidas, ele assumia-se como benfiquista, falávamos muito sobre isso mas não havia guerras", diz bem-humorado José Braga, colega do agora treinador do Benfica na sua época de estreia como sénior. Aliás, José Braga era companheiro diário de viagem de Rui Vitória. "Ele vinha de Alverca, onde tinha jogado, com o nosso defesa esquerdo, o Atouguia, e apanhavam--me na Póvoa de Santa Iria. Eles os dois eram benfiquistas e eu era o único portista no balneário do Fanhões", conta.

Também Jorge Jesus nunca omitiu a sua preferência pelo Sporting. Se Fernando Tomé, seu companheiro em Alvalade e mais tarde em Leiria, fala de uma "grande costela sportinguista", Amílcar Fonseca, com quem Jesus privou na seleção de esperanças e mais tarde no Estrela da Amadora, esclarece o assunto sem deixar margem para dúvidas. "Lagartão mesmo. Isso não engana. Posso mesmo dizer-lhe que quando ele e o Miguel Quaresma estavam no Benfica, clube com que simpatizo, eu chamava-os na brincadeira de infiltrados. Qualquer pessoa com coragem assume o seu clube, só os trafulhas é que dizem que não têm clube. O Jesus foi grande profissional no Benfica, mas o clube dele sempre foi o Sporting", refere o antigo defesa internacional português.

Palavrões? Nem um

Rui Vitória era um homem que primava mais pela discrição. "Lembro-me de que fui muito bem recebido por ele na qualidade de capitão. Pôs-me bastante à vontade. Ele era muito respeitado", recorda Miguel Vaz, hoje diretor desportivo do Benfica e Castelo Branco mas que em 1994 esteva no Vilafraquense. Mas há quem vá mais longe a falar de Rui Vitória. "Nunca o vi exaltar-se nem dizer um palavrão, nem contra os adversários nem contra os árbitros, nada. Ele era uma pessoa excelente e muito humilde", recorda Jorge Ferreira, antigo defesa de Sp. Braga, V. Setúbal e que chegou à seleção A. Jorge Ferreira foi, no Alcochetense, colega de Rui Vitória nos seus últimos seis meses de carreira, na altura um momento trágico na sua vida. "Ele deixou de jogar porque perdeu os pais num acidente de viação. Depois dessa situação abandonou o futebol e essa até foi uma época em que o Alcochetense investiu mais um bocadinho e vai buscá-lo porque ele tinha estatuto naquele escalão", explica Jorge Ferreira que nos dias de hoje assume-se "como sportinguista". Mas esta noite, em Angola, onde reside, estará contra o clube do coração: "Sou do Sporting, mas como já não pode ganhar nada, que seja o Rui a vencer, ele é uma pessoa boa e o futebol português só tinha a ganhar com mais pessoas como ele."

Curiosamente, também José Braga, que privou com Rui Vitória 15 anos antes, garante que "nunca" ouviu um palavrão da boca do antigo colega. E salienta o que o marcou perante aquele jovem que estava a iniciar a carreira: "Sabia bem o que queria, tinha as suas prioridades bem definidas, por isso estudava Desporto, mas surpreendeu-me a forma como chegou a um clube novo e em campo mostrava aquela personalidade toda, dando indicações... tinha qualquer coisa de líder. Já fora do campo era supertranquilo, um rapaz normal."

"Calmo", "tranquilo", "educado", "respeitador" e, principalmente, "líder". Estas são as características que Miguel Vaz, Armando Sá, antigo lateral do Benfica, Jorge Ferreira e José Braga recordam de Rui Vitória. Mas há quem vá mais longe. Além de nunca terem ouvido vernáculo da boca de Rui Vitória, Miguel Vaz sublinha que não se lembra de "o ver zangado" e guarda a memória de um homem "afável, um verdadeiro líder". Até neste ponto da liderança, Armando Sá realça que o Benfica "tem muito dele, porque ele sabe fazer grupos".

Os calções de Armando Sá

Para rebater este perfil de pessoa tranquila há uma situação descrita por Armando Sá, ex-lateral do Benfica. Tal como Miguel Vaz, também Armando esteve cedido pelo Belenenses ao Vilafranquense e o primeiro embate com Rui Vitória não foi fácil. "Era o meu capitão e só tenho a dizer coisas boas dele. Eu vinha de um clube com todas as condições e era o meu primeiro ano de sénior, e a verdade é que cheguei a Vila Franca de Xira com tiques de vedetismo [risos]. No Belenenses tinha equipamento de marca e ali uns calções de pano... e o Rui veio ter comigo, deu-me um puxão de orelhas e disse-me qualquer coisa como isto: "Os calções não jogam, tu é que tens de mostrar o que vales no campo." Era o meu capitão, respeitei o que disse e levei esta frase para toda a minha carreira. Há tempos encontrámo-nos num jantar do Benfica e ele revelou-me que usava o meu exemplo para muitos jovens", descreve Armando Sá, que chamava Rui Vitória de "professor" pois o agora técnico dava aulas de Educação Física.

A PJ e o champô

Jorge Jesus, ao contrário do que muita gente possa pensar, "não era um irreverente", sustenta Jorge Amaral, seu colega no V. Setúbal. Mas afiança que o treinador do Sporting era "muito exigente com ele próprio e com os colegas mas sem criar anticorpos". A mesma opinião tem Fernando Tomé, que se lembra bem dos tempos de Leiria: "Ele já era quase um treinador, interiorizava algumas questões táticas, ouvia com atenção e depois em campo retificava os colegas."

Pessoa de bom humor, rapaz entretido e com um relacionamento que era uma "mais-valia" para o grupo, Jesus gostava, durante os estágios, de jogar às cartas, "em especial ao King e ao Sobe e Desce", acrescenta Jorge Amaral, que lembra uma das muitas viagens entre Lisboa e Setúbal. "Na altura ele estava lesionado e ia um colega nosso a conduzir o carro dele, um BMW azul. E então quem ia a conduzir fez uma manobra estranha e o carro à frente não gostou e parou. Eu, que ia atrás, saí disparado às pessoas que nos barraram e ele para me agarrar nem pegou na muleta, saiu ao pé-coxinho para me agarrar. Fomos para o treino, e ele como não treinava no final da sessão veio ter comigo para me dizer "epá! livrámo-nos de boa, os gajos vieram aqui e eram da PJ"", relata Jorge Amaral, revelando a alcunha de "mãozinhas" do agora técnico por estar "sempre a esfregar as mãos".

Mas pior foi em Leiria. "O Álvaro gostava de se servir do champô da malta, então o Jesus e o Garcês combinaram que no dia a seguir traziam o champô da cadela do Garcês. O Álvaro, como sempre, serviu-se e... andou 15 dias com o cabelo louro. Foi uma risada", conta Fernando Tomé.

Mas para se perceber o companheirismo de Jesus podemos atentar na amizade com Amílcar Fonseca, então no E. Amadora. "Quando íamos jogar ao Algarve, para sair do hotel era com ele que me desculpava. A minha mulher morava no Algarve e eu dizia que ia beber um cafezinho com o Jesus, mas ia ter com ela. E ele ia... arranjávamos uma amiga para ele conversar um bocadinho. Só para conversar [risos]", assegura o antigo defesa, que contou este episódio a custo. "Há muitas histórias com o Jesus, mas não posso contar", salienta antes de defender o amigo: "Ele tem as suas ideias, acha que algumas foram inventadas por ele e eu bato palmas porque ele defende isso. É o melhor treinador em Portugal."

Os elegantes

Em níveis diferentes, curiosamente os antigos colegas de ambos os treinadores descrevem-nos em tom elogioso pela forma como se exibiam em campo.

"Ele era elegante, esguio, mas pensava mais rápido do que executava", relembra Jorge Amaral, que acentua "a paixão de Jesus por Cruijff desde que era jogador" devidamente exacerbada por Amílcar Fonseca. "O Cruijff para ele era tudo, a organização tática... adorava falar sobre isso. Uma vez fomos a um convívio e estavam lá o Toni e o Jesualdo. A dada altura, o Jesus diz "ou falamos de futebol ou vou-me embora"".

Já Rui Vitória tomou uma opção que o fez esquecer o profissionalismo. "Ele tinha qualidade para ser profissional mas abdicou para ser professor e foi conciliando as duas coisas", considera Jorge Ferreira, ao passo que Miguel Vaz faz mais uma adenda. "Ele era um jogador elegante que gostava de tratar bem a bola. Nada de pontapé para a frente", remata o ex-Campomaiorense.

Hoje veremos o que farão Vitória e Jesus como treinadores. Afinal o tempo de andar lá dentro foi chão que já deu uvas.

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