O elogio do "intelectual" que foi tratado como um pedreiro

Título do Mónaco fez chover loas a Leonardo Jardim na imprensa francesa, depois de dois anos em que o técnico foi injustiçado

Quase um ano depois do pontapé de Éder, a França celebrou um novo triunfo "português" nos seus relvados, com a consagração de Leonardo Jardim (e Bernardo Silva e Moutinho...) e do Mónaco que o treinador madeirense liderou de forma sublime para a conquista do título francês, após 17 anos de jejum.

No day after da festa monegasca, um pouco por toda a imprensa francesa, as reações ao título do Mónaco concordavam ontem em coroar Leonardo Jardim como o rei de um feito tão inesperado à partida (face ao domínio desportivo e financeiro do milionário PSG) quanto convincente no seu desfecho. "É com justiça que o português finalmente recebe a consideração devida pelo seu tremendo trabalho no Rochedo", escreveu-se, por exemplo na magazine Le Point.

O treinador madeirense de 42 anos, que se juntou a Artur Jorge (PSG, 1994) como os únicos técnicos portugueses campeões na Ligue 1, vingou o sentimento de injustiça que as primeiras duas épocas em França lhe provocaram. E o hexágono rendeu-se a "um intelectual do futebol", como lhe chamava o Le Parisien na quarta-feira, entre alusões à admiração do técnico pelo sociólogo francês Edgar Morin e às citações de poemas de Rudyard Kipling em conferências de imprensa.

Para trás fica o tratamento de "pedreiro", o preconceito que Jardim sentiu ao ser ignorado nas nomeações para melhor treinador da liga nas temporadas anteriores e que lhe suscitou esse desabafo: "Depois de dois anos candidato ao prémio de trolha d"ouro, esta nomeação [este ano] já é um progresso."

Agora, não restam dúvidas: Jardim é o melhor treinador da Ligue 1 e construiu um campeão de sonho que regalou a crítica francesa com um festim de futebol ofensivo. "Esse foi o mérito de Jardim, o de transformar uma equipa "chata" numa máquina de ataque capaz de render 2,8 golos por jogo, isto enquanto se adaptava às muitas mudanças na política desportiva de um clube preso entre a ambição desportiva e o desejo de rentabilidade económica", realça a Le Point, aludindo à reconstrução da equipa que permitiu destacar jovens como Mbappé, Bernardo Silva, Mendy ou Lemar.

O Libération exalta a vitória do Mónaco como "a celebração da diferença", de um tipo de futebol movido "à lei do fogo" numa Ligue 1 "há muito tempo refém de um jogo fechado e realista".

Vadim Vasilyev, vice-presidente do Mónaco, disse ontem à CNN que vai fazer de tudo para manter o português. "É o treinador perfeito para o nosso projeto. Sempre apoiei a sua contratação. Era desconhecido para a grande maioria e levantaram-se dúvidas sobre a sua competência. Mas nunca as tive. Vai de certeza receber propostas, mas vamos fazer de tudo para o manter", garantiu o dirigente.
"O que o Mónaco fez é enorme", comentou ao Le Parisien o técnico francês Claude Puel. "Jogaram um futebol perfeito, magnífico", aplaudiu Paolo Maldini. E a France Football recorreu ao português Toni, ex-treinador do Benfica (e do Bordéus), que lembrou que Jardim "deixou sempre a sua marca por onde passou".

Em França, a marca de Leonardo Jardim já está garantida. Resta saber se o projeto do Mónaco não ficou já demasiado pequeno para o treinador português.

Últimas notícias

Conteúdo Patrocinado

Mais popular