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Entrevista: Rui Águas

"Rui Costa parece-me um homem isolado e triste no Benfica"

por ALEXANDRA TAVARES-TELES  

Ex-avançado e ex-director da prospecção do Benfica

O que está a fazer neste momento?

Tenho uma colaboração com a TVI como comentador na área do futebol, sou prelector num curso de treinadores da Associação Nacio-nal de Treinadores. Estou a estruturar uma outra acção de formação na área do futebol e tenho ainda a perspectiva de um regresso à minha Universidade (FMH) para tentar completar o curso que comecei há anos.

Abandonou a carreira de treinador por uns tempos?

Cá em Portugal, o regresso é difícil. Não me parece que surja uma proposta que me motive o suficiente. O que nessa área me animava seria um trabalho em África. O meu pai era angolano e eu sempre tive a ideia de que um dia passaria por lá - e por lá, passe a presunção, deixaria obra feita. Essa perspectiva animar-me-ia e não falo dela a seco. Já por um par de vezes fui sondado nesse sentido. Tive pena que não se concretizasse. Seja como for, seria uma hipótese a colocar-se apenas no final desta época.

Há três anos assumia no Benfica o cargo de director-geral da prospecção cheio de entusiasmo...

Entrei cheio de vontade de fazer, com ideias, mas com o decorrer do tempo e com as limitações que encontrei reconheço que esse entusiasmo arrefeceu.

Que limitações?

Ao contrário do que acontece agora, na altura não encontrei pessoas que se identificassem com o que penso e defendo para a prospecção e para a formação do clube.

Entrou no tempo errado?

É isso, mau timing. Se tivesse chegado agora encontraria seguramente outras condições.

Actualmente, o Benfica tem um director e um coordenador técnico da formação, com competência e características para os respectivos cargos - Armando Jorge Carneiro e o professor João Santos, nomes que eu também sugeri quando lá estava.

E então porque razão não foi ouvido?

Não sei responder. Sei que sugeri as pessoas que agora lá estão e ainda bem para o clube.

Porque é que saiu?

Porque o contrato acabou e porque existia já algum desgaste pessoal e, consequentemente, de relações com algumas pessoas que tornaram o ambiente de trabalho pouco propício. Alguns episódios confirmaram as diferenças de gerações e de filosofias. Além da detecção de talentos, tentei valorizar e premiar o trabalho gracioso dos observadores voluntários do departamento.

Sempre considerei este tema um investimento e não um gasto. Por exemplo, na fase em que o Estádio não enchia propus que se dessem bilhetes para os jogos em casa a esses 200 ou 300 adeptos, o que foi conseguido. A partir do momento em que o estádio começou a ter mais espectadores esse compromisso moral foi quebrado. Optou-se por ter mais algum dinheiro na bilheteira do que manter esse justo prémio. Esse foi um assunto de maior divergência, porque entendi tratar-se de uma injustiça e de um claro erro estratégico.

Essa divergência dos bilhetes foi com o presidente?

Sim.

Voltaria a aceitar o convite?

Estes três anos em que estive no Benfica foram uma experiência difícil mas útil. A recepção que tive não foi muito animadora e, por vezes, sentia que pisava terreno adversário. No final concluo que foi um período que me tornou mais forte, mas mais desconfiado e também menos ingénuo. No entanto, acredito que hoje, com o novo enquadramento da área de formação, teria tido outra abertura para as propostas que defendi.

Que trabalho deixou feito?

Deixei o departamento mais bem estruturado do que encontrei e a observação de atletas mais especializada. A prospecção passou a ter maior cobertura , sendo quase exclusivamente nacional. Foi entendido, e bem, também pelo Rui Costa, centrar a nossa pesquisa no território português.

Se olharmos para a equipa de juniores, com vários estrangeiros, parece o contrário.

Tal facto deve-se a acordos entre a administração e outros clubes ou agentes que não passavam pela prospecção nem pelo nosso parecer. Entre a formação e a profissionalização há, de facto, alguma área cinzenta.

No primeiro ano, liderou o gabinete de prospecção na vertente profissional e na de formação. Nos dois anos seguintes, Rui Costa, já director desportivo, ficou a cargo com a parte profissional. Mais tarde, com a saída de Camacho, foi criado um Conselho técnico do qual fez parte. Ajudou na escolha do novo treinador, Quique Flores, quando já então se falava em Jorge Jesus?

Os nomes em causa eram principalmente os de Eriksson e Quique Flores. Comentou-se que seria melhor apostar num treinador mais jovem e com menos história no Benfica. Lembro-me que o nome de Jesus também foi referido.

E o Benfica perdeu um ano?

Seguindo essa lógica perdeu dois, com a vinda de Camacho e assim por diante. O que é que Camacho acrescentou ao Benfica?

Que balanço faz do trabalho de Rui Costa no Benfica? Tem sido pouco ouvido?

Eu e o Rui somos amigos, no entanto não falamos há algum tempo. Tem tentado dar o melhor de si e está, por certo, a evoluir nesta nova fase da sua vida. Porém, sinto que se pode tirar mais partido da sua experiência e conhecimento. Que me parece algo isolado e triste, parece.

Que funções tinha esse conselho técnico?

Esse Conselho era composto por vários técnicos, pessoas com experiência, formação e sensibilidade para o fenómeno futebolístico e serviria de suporte ao director desportivo. O Rui não pode ter tudo a seu cargo.

E o presidente, ele próprio, admite não ser um perito em futebol...

Há presidentes com obra feita nos respectivos clubes que sabem de gestão e com grande sensibilidade para o futebol. É assim, por exemplo, com os presidentes do FC Porto, do Nacional e do Sp Braga. O presidente do Benfica já reconheceu que não tem essa sensibilidade. É um trabalhador incansável, reabilitou a imagem do Benfica, equilibrou as contas, o administrador Domingos Soares de Oliveira tem uma grande visão estratégica global, mas o futebol é um terreno muito específico. Um terreno onde o representante da prática da modalidade deverá merecer outra importância. Daí a criação de um conselho consultivo que pense e construa a política futebolística do clube.

Porque razão foi extinto?

Não sei, durou muito pouco tempo, até porque houve a divisão física entre o departamento profissional e o da formação, entre o Seixal e o Estádio da Luz.

Teve que ver com alguma imposição de Quique?

Não, nada. Esse conselho era suposto existir fosse qual fosse o treinador, exactamente para haver uma adaptação do novo treinador ao clube e não o contrário.

Enquanto o futebol não for entregue a profissionais que percebam de futebol o Benfica não entrará num ciclo de vitórias?

Será mais difícil. Até lá, os resultados tenderão a ser episódicos quando deveriam ser estruturais, tendo em conta a grandeza do clube.

Uma análise ao trabalho de Jorge Jesus.

Jorge Jesus é o tal português simples, mas profissional e interessado, que os adeptos mais críticos foram forçados a aceitar pela qualidade do seu trabalho.

Em algum momento desta época achou que Jesus estava de saída?

Não. O que fez e o que sobre ele foi dito na época passada impedia que passado tão pouco tempo o céu se tornasse em inferno. Mesmo depois dos cinco a zero do Dragão.

Conhecendo o Benfica, fez sentido o anúncio por Luís Filipe Vieira de uma novo ciclo de vitórias?

As pessoas mostraram esse desejo, mas era previsível uma reacção forte do FC Porto, clube que ao longo dos anos foi criando uma estrutura geral muito sólida. Como observador, não me ficou nada claro que a hegemonia de décadas fosse quebrada só porque o rival mais forte ganhou um campeonato, apesar de ter sido uma vitória reconhecidamente justa.

Um erro estratégico do presidente?

Uma intervenção excessiva. Alguma euforia, que no entanto se aceita.

Regressará ao Benfica?

Talvez um dia.

Para fazer trabalho de campo ou de gabinete?

Não sei. Acredito que voltarei porque continuo a pensar que posso ajudar a melhorar o clube.

Há quem diga que falta a Rui Costa um pouco de José Veiga, nomeadamente na confrontação com os adversários. Nas questões de arbitragem, por exemplo. Concorda?

Nada. Penso que esses assuntos não deveriam estar a cargo de ninguém. Nos países desenvolvidos e com futebol mais competitivo tão pouco são tema.

Villas-Boas não perde uma oportunidade para falar desses temas e entrar em confronto.

É um técnico jovem e de valor, com um temperamento muito próprio. No entanto, a verdade é que o ambiente tarda em normalizar - pelo contrário, radicaliza as rivalidades. Além disso, não me parece que para vencer esse discurso seja necessário.

O campeonato deste ano já está entregue?

O Benfica vai tendo mais rendimento, mas os jogadores que contratou, embora com potencial, são jovens e precisam de tempo num campeonato que não espera. Em contrapartida, o FC Porto tem feito uma prova sem precedentes, o que dificulta a aproximação pontual.

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