Violeta Parra: mulher simples e um génio, centenária e com 17 anos

Violeta Parra

Para celebrar de nascimento de Violeta Parra, a sua filha e a sua neta, Isabel e Tita Parra, sobem ao palco do CCB, em Lisboa, na terça-feira.

Violeta Parra agradeceu à vida meses antes de acabar com a sua. A canção, entoada pela voz daquela que cantou o Chile e a sua gente como ninguém, era Gracias a la Vida, do álbum Las Últimas Composiciones, e viria depois a soar como uma despedida à vida que lhe deu "o riso e o pranto", o "canto de todos" que era, afinal, o seu "próprio canto". Gracias a la Vida é hoje como um hino, gravado por Elis Regina, Joan Baez ou Mercedes Sosa. Violeta nasceu há cem anos, a 4 de outubro, e morreu há 50, a 5 de fevereiro. Agora, a sua filha Isabel e a sua neta Tita celebram esse século no concerto Yo Soy La Feliz Violeta, que sobe ao palco do Centro Cultural de Belém na terça-feira, num concerto integrado na programação de Lisboa Capital Ibero-Americana da Cultura. E apetece citar Volver a los Diecisiete, outra canção desse último álbum: "Voltar aos dezassete, depois de viver um século."

Tita Parra, que ao telefone de França conta como Violeta sempre viveu muito "nos 17", concorda que a sua sabedoria era a de uma centenária. Mas hesita quando perguntamos se haveria nela um peso próprio desses cem anos. "Não sei se é um peso. Não confundir sabedoria com peso, ela pode vir da sensibilidade, da inspiração. A sua obra foi inspirada pela vida popular do Chile, de camponeses, da sua mãe [costureira, de origem camponesa], da cultura popular, mas também vem de algo muito especial: a sua genialidade. Nem todos os Parras são geniais como a Violeta. Por um lado, ela é a mulher simples do Chile; por outro, é genial."

A "genial" Violeta percorreu o seu Chile nos anos 1950 para recolher o cancioneiro folclórico camponês, que tocou, cantou e fixou em Cantos Folklóricos Chilenos. "Ela era muito querida pelo povo do Chile, mesmo agora. Era muito conhecida. Fazia programas de rádio sobre folclore. As pessoas ligavam para a rádio a dizer: "A minha avó cantava essa música!"", conta a neta, que viveu com Violeta até aos 11 anos. Violeta, figura de proa da Nueva Canción, foi uma voz militante do Chile nos anos da Unidad Popular, coligação que levaria à presidência Salvador Allende. Oiça-se Yo Canto la Diferencia ou La Carta. Todavia, a neta lembra: "Não fez panfletos, [as canções] eram poéticas, eram poesia direta e simples."

Isabel e Tita Parra

Tita tem agora mais 11 anos do que tinha a sua avó quando morreu. "Às vezes olho para o espelho, vejo os meus cabelos brancos e penso que agora sou eu a avó da Violeta." Pedimos-lhe que nos conte uma história. Tita - filha de Isabel, uma dos quatro filhos de Violeta - conta que avó e neta cantavam e tocavam juntas. Lembra-se especificamente de cantarem e gravarem La Cueca Larga, os versos de Nicanor Parra, irmão de Violeta e um dos grandes poetas da América Latina. "Imagino que o título deve ser muito divertido em português", ri-se Tita, a propósito do género musical sul-americano que se confunde com a peça de roupa interior. Conta que conversavam muito, mas "mais do que conversar cantávamos, pintávamos, passeávamos para comprar lãs coloridas. Fazíamos as diligências, como ir ao correio".

O irmão de Violeta, Nicanor, veio à conversa, como poderia vir a irmã, Hilda, que cantou e viajou com ela, o seu primogénito Ángel, também músico, ou as próprias Isabel, de 78 anos, e a sua filha Tita, de 61, que na terça trazem ao palco lisboeta canções de cada uma delas e de Violeta: "Uma síntese de uma vida de músicas." Por isso, a primeira pergunta que pusemos a Tita foi como era pertencer ao clã Parra. Ela rejeitou-a. "Não considero que a família Parra seja um clã. Somos artistas individuais que temos, geneticamente, alguns talentos." Explicamos que não era uma espécie de máfia o que tínhamos em mente. Antes, a imagem daquela casinha de madeira em La Reina, bairro de Santiago - hoje maior e onde Tita vive agora -, com Violeta a tocar, pintar, fazer cerâmica ou bordar arpilleras (quadros bordados em serapilheira).

Mas Tita desfaz os mitos. Na verdade, conta a neta, ela "trabalhava sozinha, e não no meio da gente. Começava muito cedo, às seis da manhã, quando todos dormiam. Trabalhava o dia inteiro. Esquecia tudo. Não se pode fazer comida, ir procurar as crianças que vão para a escola e continuar a música ou a poesia. Ela precisava de silêncio, como todos os criadores". Quanto às casas, aquela foi a única que tiveram "a que se pode chamar casa". Tita seguiu a avó pela Europa, onde viveram em Paris e Genebra. Tornar-se-ia a primeira artista latino-americana a expor individualmente no Louvre em 1964, quando mostrou no Pavilhão Marsan as suas arpilleras e os seus quadros a óleo. Quando regressou ao Chile, Violeta não foi para uma casa, mas para uma grande tenda de circo onde queria fazer uma universidade nacional de folclore, e onde acabaria por se suicidar.

Isabel e Tita vão cantar Amigos Tengo por Ciento, canção em que Parra apresenta o canto como o seu melhor amigo. Em Gracias a la Vida, diz que "o canto de todos" é o dela. Perguntamos a Tita que solidão é que isso implica. "O canto dela ser o canto de todos implica ser como um fragmento que faz parte de uma totalidade que faz parte de todos. É bom sentir essa solidão, porque está conectada com todos." E assim, mais uma vez sozinha e acompanhada, um século passado, Violeta volta aos 17.

E de Portugal, conheceria alguma coisa? Tita fala do "grande amigo" de Violeta, Thiago de Mello, o poeta brasileiro que viveu em Portugal. E a música popular? "Eu acho que conheceu, porque viveu em Paris. Violeta era muito pesquisadora, muito inquieta." Paramos na última palavra. Define-a? A neta assente.

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