Uma porquinha chamada Okja na Cannesflix

Uma criatura fofinha a fazer estragos em Seoul e Nova Iorque, assim é "Okja", o filme da Netflix que passou em competição. Na Quinzena dos Realizadores, a presença de atriz francesa Juliette Binoche, que participa no filme "Un Beau Soleil Intérieur", de Claure Denis, encantou a Croisett.

Monstro fofinho este Okja, uma enorme porca da Coreia que foi criada como as vacas Kobe para dar uma imagem de qualidade a uma marca agroquímica. O monstro da Netflix chegou a Cannes com estrondo. Bong Joon Ho, cineasta do inatacável Expresso do Amanhã (2013), faz um filme de género, com um monstro supostamente amigável e mil e uma mensagens antiglobalização, antimanipulação genética e todo muito pró-vegan. Por muito que não se odeie ou simplesmente não se antipatize com o filme, parece, no mínimo, estranha a sua seleção na competição - talvez fizesse mais sentido nas sessões da meia-noite, talvez...

Este autêntico desastre pago por Brad Pitt (a sua Plan B é a produtora), Tilda Swinton e a Netflix conta a história de uma série de criaturas parecidas com porcos que foram criadas para crescer e produzir carne supostamente não química e deliciosa. Okja é uma porca que foi criada por uma menina das montanhas coreanas, Mija. Quando chega a altura de a porca ser levada para Nova Iorque para ser mostrada ao mundo, a pequena, juntamente com uma organização de apoio aos direitos dos animais, sequestra a criatura. Daí para a frente o filme torna-se um tornado de mensagens simbólicas, todas elas muito pouco subtis, tal como o tagline do filme: "O animal que está entre nós."

O melhor de Okja está na sua capacidade aqui e ali de utilizar a sua excentricidade formal em prol de uma sátira à televisão e às suas parasitagens, em concreto através da caricatura de um apresentador de televisão interpretado por Jake Gyllenhaal (muito irregular na tentativa de um acting amaneirado), mas, mesmo isso, é atraiçoado por um guião com um sem-número de tontices de cinema juvenil. Bong Joon Ho é aqui um realizador perdido na fusão de géneros que quer convocar. Um desconsolo esta obra que nunca chegará às salas e que sairá de Cannes ofuscada com críticas negativas no meio de algumas positivas.

Felizmente, na Quinzena dos Realizadores há bom cinema para respirarmos fundo com Claire Denis e o seu estonteante Un Beau Solei Intérieur, com uma Juliette Binoche a dar cara e corpo a uma mulher à procura de amor. A sua Isabelle quer amar, quer ser amada, mas ao longo desta hora e meia alguns homens surgem no seu caminho e o amor não chega.

Ela dança, faz amor, pinta, bebe e chora. Tem 50 anos e não quer desistir. É teimosa, caprichosa, mas também autêntica, verdadeira. Pontuado pela música de Stuart A. Staples (habitual colaborador da cineasta), dos Tindersticks, o filme está disposto segundo as regras da comédia. Mas nas mãos de Denis o humor torna-se sempre algo fino, peça de porcelana que às vezes explode quando se fala daquilo que de mais íntimo a interrogação do amor provoca em nós.

E além de Binoche há também o charme de Gérard Depardieu, a classe de Nicolas Duvauchelle e a angústia de Valeria Bruni-Tedeschi.

Não é um filme sobre mulheres libertinas, é um filme sobre mulheres. Sobre mulheres maduras e tristes. O desencanto feminino pode ter malabarismos com piada.

No Un Certain Regard chega também um dos títulos mais esperados, Wind River, estreia na realização de Taylor Sheridan, o argumentista do belíssimo Custe o Que Custar!, que foi nomeado aos Óscares. Aqui, as regras do thriller levam-nos para uma reserva de índios, Wind River, onde um caçador (Jeremy Renner) e uma agente do FBI (Elizabeth Olsen) tentam encontrar o assassino de uma jovem em plena tempestade de neve.

Sheridan emula o estilo de Sam Peckinpah, sobretudo nos tiroteios, mas acredita sempre num ultrarrealismo muito interessante, nomeadamente quando descreve um mal-estar daquela comunidade dos índios. Apesar de um começo algo desgarrado (é daqueles casos em que é preciso dar tempo), Wind River tem sempre uma tensão muito assinalável. Dir-se-ia que é um suspense com uma solenidade curiosa. O filme tem já estreia garantida em Portugal (pela NOS Audiovisuais) e chega a Cannes depois de garantir algum furor no Festival Sundance, em Park City, nos EUA.

Em Cannes

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