Uma bienal de cerâmica em três tempos: coleção, autor, fábrica

Alguns animais de Manuel Mafra e de Bordalo Pinheiro da coleção de João Maria Ferreira no Museu de Cerâmica

Plataforma de apresentação de uma cidade que quer ganhar o título de criativa pela Unesco, a bienal Molda mostra o que tem sido e o que pode ser a "louça das Caldas".

Macacos, cobras, sapos, lagartos. Há um zoo feito de louça em exposição no Museu da Cerâmica, em Caldas da Rainha. São uma das exposições da bienal Molda, que uniu câmara municipal e ESAD (Escola Superior de Artes e Design), em torno do cartão de visita da cidade. Os bichos vieram da coleção do caldense João Maria Ferreira e foram selecionados pela curadora Margarida Elias para a exposição Animais na Cerâmica Caldense. Lá estão os exemplares de Rafael Bordalo Pinheiro, mas também de Manuel Mafra e da artista de origem judaica Hansi Stäel (1913-1961), diretora criativa da Secla.

É pela artista e pelos seus pratos decorados que João Bonifácio Serra, professor da ESAD e comissário da Molda 2016 começa a visita no papel de cicerone do DN. A fábrica fechou em 2008, uma entre muitas que não resistiu à crise, à globalização, ao grés.

Pintura de Hansi Staël, diretora criativa da Secla, para a exposição Animais na Cerâmica Caldense que está no Museu da Cerâmica e é parte da Bienal Molda 2016

A coleção de João Maria Ferreira cresceu nos últimos anos em exemplares da cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905), fundador da fábrica batizada com o seu apelido. Mas é também "talvez a melhor coleção de [peças de] Manuel Mafra", diz João Serra.

É diante de um exemplar deste autor que se detém o comissário: uma travessa com um cavalo pintada por outro colecionador de cerâmica caldense, D. Fernando II. Está assinada com o símbolo de sempre, as iniciais de Fernando Saxe-Coburgo emaranhadas e o f. de fecit (isto é, feito por). "D. Fernando foi o primeiro colecionador de louça de Caldas", nota João Serra e forneceu a Casa Real (ver texto ao lado).

João Bonifácio Serra, professor da ESAD e comissário da Bienal Molda

A coleção de João Maria Ferreira destaca-se no momento em que outros dois conjuntos se esfumam, o de António Capucho (pai), que começou a ser vendida ainda em vida do colecionador, e outro, de Maldonado Freitas, que a família também já vendeu em parte, conta João Bonifácio Serra. Apresentar coleções é um dos propósitos da Bienal Molda, de acordo com o professor coordenador da ESAD (a escola convidada em 2016, com uma exposição na Casa dos Barcos).

Outra ideia é dedicar uma das exposições a uma empresa. A de 2016 foi a Molde, cuja história se confunde com a entrada de Portugal na então CEE. A adesão foi em 1986, a fábrica nasce dois anos depois. "Vivia-se uma euforia em torno da cerâmica", contextualiza Serra. Abriram muitas. "A única que sobreviveu, em dezenas, foi a Molde, reformulou o modelo de negócio, exportador, muito sólido, passou da faiança e da terracota para o grés", sintetiza.

Nos seus quase 30 anos de vida manteve também ligação com vários artistas e designers. Eduardo Nery, por exemplo, fez vários painéis de azulejos com esta fábrica, o designer Filipe Alarcão, professor da ESAD, é o autor de um dos seus "serviços de combate", logo no ano de abertura. E a comissária da exposição, Carla Lobo, é, ela própria, parte da história da fábrica e autora de várias peças agora em exposição. Para mostrar os objetos levou para o Espaço Concas peças de cerâmica por pintar e usou-as, sobre paletes, para pousar as peças que fazem a história da fábrica.

A fábrica Molde, de 1988, representa a indústria na Molda 2016. A exposição, no centro de artes, mostra uma coleção de cerâmica industrial

É também a maneira de mostrar objetos de cerâmica, de autor, que salta à vista quando se entra no Museu José Malhoa. Sobre três filas de tijolos que vão formando um labirinto. É assim que Fernando Brízio, também designer, também professor da ESAD, mostra a coleção de design contemporâneo Primeira Escolha.

Com os 20 mil euros de orçamento da mostra, catálogo e curadoria, foram escolhidos objetos de diversas geografias que fazem um mapa da produção dos últimos anos e, ao mesmo tempo, constituem uma nova coleção. A sua originalidade: uma parte foram compradas online, o que se revelou mais económico do que fazer empréstimos.

As peças do designer Vítor Agostinho, escolhidas por Fernando Brízio para a exposição "Primeira Escolha", no Museu José Malhoa

Há designers internacionais (Valérie Traan, Lola Goldstein), mas também os nacionais (Alarcão ou Marco Sousa Santos) e alguns deles alunos da ESAD, que trabalham nas Caldas da Rainha, como Vítor Agostinho ou Samuel Reis. São exemplos da Cidade Criativa que é Caldas da Rainha, como pretende demonstrar a candidatura a esta categoria da Unesco em 2020.

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