Um porco voador nos céus de Londres

A banda celebra 50 anos de músic aem exposição no museu Victoria & Albert

Depois das exposições recentes sobre David Bowie e os Rolling Stones, chegou a vez dos Pink Floyd. Um museu de Londres presta homenagem aos 50 anos de música, arte e inovação de uma das bandas britânicas mais icónicas.

Porcos voadores, um avião de guerra insuflável, vacas, martelos em marcha militar e um professor gigante de bengala na mão que nos olha, ameaçador, do alto dos seus 21 metros. Sala após sala, a exposição Pink Floyd: Their Mortal Remains, no Victoria & Albert Museum de Londres, surpreende com as suas instalações ambiciosas que recriam a estética emblemática de uma das bandas mais importantes da história da música. "Esta exposição é também uma história da cultura britânica, uma história não só da música mas também da tecnologia, do design e da inovação", comentou o novo diretor do museu, Tristram Hunt, durante a apresentação à imprensa estrangeira.

A mostra coincide com o 50.º aniversário do primeiro disco dos Pink Floyd. Quando o grupo nasceu, em 1965, era formado pelo adolescente que queria ser pintor Syd Barrett (guitarra, cantor-compositor) e pelos estudantes de Arquitetura Roger Waters (baixo), Nick Mason (bateria) e Richard Wright (teclados). A carreira discográfica arrancou em março de 1967 com o single Arnold Layne - uma canção divertida sobre um travesti que rouba lingerie e roupa de mulher pendurada nos estendais. O primeiro álbum chamava-se The Pipe at the Gates of Dawn (1967) e já incluía uma peça instrumental de quase dez minutos - o tipo de composição experimental que os tornaria famosos anos mais tarde.

Em 1968, o fotogénico Barrett foi afastado do grupo devido a problemas mentais, provavelmente agravados pelo uso de drogas alucinogénicas. David Gilmour entrou como guitarrista e vocalista e Waters passou a ser o principal compositor. Na década de 1970 os temas passaram a ser mais ambiciosos. Os Pink Floyd produziram, nessa altura, The Dark Side of the Moon (1973), Wish You Were Here (1975) e o influente The Wall (1979), três dos álbuns mais vendidos da história da música. Waters abandonou em 1985 para seguir uma carreira a solo, mas o grupo continuou até 1995, com retomas breves e esporádicas já no século XXI. Os Pink Floyd venderam mais de 250 milhões de álbuns em todo o mundo.

A entrada na exposição faz-se através de uma réplica da carrinha preta Bedford que costumava transportar os Pink Floyd em meados dos anos 1960. O jovem grupo de rock progressivo com tendências psicadélicas fazia então "coisas estranhas" e a fama cedo começou a estender-se para lá do circuito underground de Londres. A Bedford custara 20 libras e era "incrivelmente lenta e caprichosa", lê-se numa carta comovente que Syd Barrett mandou à namorada. "Os outros [membros] pintaram uma faixa branca que fica bem e tem o nosso nome pintado. Não vês o nome porque é muito pequenino. E não me vês a mim porque eu estou no banco de trás."

Os corredores são labirínticos e a iluminação nas salas é mínima. A música e o som que se ouve nos auscultadores inteligentes Sennheiser fornecidos aos visitantes vai mudando de sala para sala (e até dentro de cada sala: quem se aproximar de um ecrã vídeo passa a ouvir na perfeição o áudio respetivo). A história de várias décadas deste grupo que inventou sons e novas técnicas visuais e musicais é contada por cartas, desenhos, cartazes, filmes, recortes de jornais, instrumentos musicais, bilhetes e uma parafernália de objetos estranhos.

Estão lá, naturalmente, a mítica guitarra preta Fender Stratocaster (a Black Strat) de Gilmour, mas também um pedal AstroTone, o sintetizador Mini Moog dos anos 1970, o projetor Rank Aldis Tutor utilizado pelo engenheiro de luz Peter Wynne-Willson em 1967 (aparentemente ele usava "preservativos esticados" para criar efeitos de cor) ou o estranhíssimo Azimuth Coordinator, que produzia um inovador som quadrifónico em plena década de 1960 (o Azimuth era uma sensação nos espetáculos ao vivo e tinha direito a menção nos cartazes).

Entre os 350 objetos em exibição conta-se, por exemplo, o livro de registo dos castigos mais a bengala de cana que o diretor do liceu de Cambridge usava para bater no aluno Roger Waters (o tema das bengaladas foi retomado pelo professor psicótico protagonista em The Wall). Outros objetos, como uma carta de Gilmour para a mãe ou o diário pessoal de Nick Mason, aberto num dia de março de 1968, são de uma simplicidade cativante. A modéstia de um dos primeiros contratos dos Pink Floyd, para atuação num programa de rádio da BBC (curiosamente, o nome de Syd Barrett está rasurado; alguém escreveu por cima "David Gilmour"), contrasta com a longa lista de exigências para a digressão de 1975 ["600 libras (272 quilos) de gelo seco que deverão ser fornecidas uma hora antes do espetáculo", lê-se numa das páginas].

A exposição está organizada de forma mais ou menos cronológica e aproveita ao máximo as capas dos discos, muitas delas icónicas, concebidas pelo estúdio Hipgnosis, de Storm Thorgerson e Aubrey Powell, que também colaborou ativamente na conceção da exposição. Estão lá a vaca leiteira de Atom Heart Mother (1970), as camas de ferro de A Momentary Lapse of Reason (1987) ou o fato de lâmpadas do álbum ao vivo de 1988 Delicate Sound of Thunder. Um espaço dedicado inteiramente à capa de The Dark Side of the Moon é ocupado por um lindíssimo holograma tridimensional de um prisma que flutua no meio da escuridão quase total da sala. Perto dali, os visitantes podem divertir-se a fazer um remix do clássico Money que abria o lado B do álbum.

Outra sala é dominada pelas duas enormes cabeças metálicas, com mais de seis metros de altura, da capa de The Division Bell (1994). O espaço inclui também várias estatísticas sobre as digressões mundiais deste grupo que aperfeiçoou como poucos a arte do espetáculo total. O palco para a digressão europeia The Division Bell, por exemplo - uma tour que arrancou em Lisboa, no antigo Estádio Alvalade, em julho de 1994 -, demorava três dias a ser montado. Uma área enorme da exposição é preenchida com parte do muro de The Wall, vários bonecos gigantes insufláveis e uma réplica enorme da central elétrica de Battersea, com um porco voador a pairar sobre os visitantes, como na capa de Animals (1977).

A mostra Their Mortal Remains termina numa performance zone com telas gigantes nas quatro paredes, efeitos de luz e 25 colunas de som - o palco ideal para uma imersão audiovisual total na música dos Pink Floyd. Um dos três vídeos exibidos é Comfortably Numb, do álbum The Wall. Esta música e os seus dois solos arrepiantes de guitarra é uma das mais famosas da discografia do grupo. E uma escolha mais do que apropriada para este tributo/despedida em final de visita ao museu.

A gravação foi feita em julho de 2005 no festival Live 8 no Hyde Park, em Londres. Nessa noite, a pedido de Bob Geldof, os quatro membros dos Pink Floyd esqueceram brigas antigas e voltaram a tocar juntos. Foi a primeira vez que isso aconteceu, em 24 anos. Mas seria também a última: Rick Wright morreu de cancro em 2008, aos 65 anos.

Informação útil:

The Pink Floyd Exhibition: Their Mortal Remains

Victoria & Albert Museum, Londres

Bilhetes a 20 e 24 libras (23 e 28 euros)

vam.ac.uk/pinkfloyd

Até 1 de outubro

Em Londres

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