"Tirei a cerveja da biografia porque ganhou muito protagonismo"

O escritor Afonso Cruz

Afonso Cruz tem novo romance, Nem todas as baleias voam. Uma história inspirada numa operação da CIA.

A história pessoal de Afonso Cruz pode confundir-se com a do protagonista do seu novo romance, Nem todas as baleias voam... Quando se lhe diz isso, o autor franze a testa, pois não se vê como um agente da CIA numa missão ao serviço dos interesses americanos nos tempos da Guerra Fria. Sim, é verdade, mas o protagonista deste livro acabará por aceitar divulgar o jazz norte-americano no Leste da Europa porque o seu modo de tocar piano permite passar mensagens subliminares de revolta contra os regimes socialistas, atividade parecida ao que Afonso Cruz anda a fazer em nome da literatura portuguesa por esse mundo fora. A prova encontra-se na sua ausência constante de Portugal para participar em feiras do livro na América do Sul, lançamento de traduções em países do leste, apresentações em Itália ou em digressão pelo Canadá, como acontece enquanto esta entrevista é publicada. A bem dizer, pode definir-se Afonso Cruz como um dos mais expostos agentes secretos da literatura portuguesa entre os autores da recente geração que estão na faixa dos 40 anos e a dominar o mercado livreiro nacional. Até porque também toca piano como o seu protagonista.

Existe um pacto de não agressão entre os autores da sua geração?

Nunca vou falar mal de um dos meus pares, até porque sou amigo da maior parte dos escritores da minha idade e gosto do que leio.

Mas é uma geração bem desigual?

Há autores muito diferentes, eu próprio não sou muito descritivo e só o faço quando é mesmo necessário para ter um contexto. Se possível, só teria diálogo, como se observa no princípio deste livro. Mas admiro imenso os escritores que conseguem fazer grandes descrições e até me esforço por ler autores assim para adquirir um pouco dessa capacidade, apesar de não ficar tão eficiente como eles. É um defeito.

Gostava de escrever diferente?

Tento procurar o que é mais espontâneo, porque a escrita sai melhor.

Treina para eliminar as falhas?

Não, mas se for preciso leio um certo tipo de livros enquanto escrevo porque sei que fico mais imbuído desse espírito ou modo de escrita e sai mais aproximado do que quero.

Os leitores não estão satisfeitos?

Não tenho queixas, mas não é uma coisa em que pense quando escrevo. Não penso se os leitores vão ou não gostar, o importante é fazer o livro. Mesmo que ligue bastante às opiniões, pois têm um distanciamento crítico que me é impossível e é deles que sinto a reação.

Respeita o leitor a posteriori...

Respeito sempre, mesmo que não seja a minha preocupação. Algumas pessoas dizem que há um sentimento de amargura muito grande no Flores e eu não tive essa sensação. Há muitas coisas que só o leitor é que sabe interpretar.

Este não tem mais amargura?

Não faço ideia, mesmo que ache que todos os meus livros têm alguma amargura e tristeza, pois as histórias são construídas com dificuldade - faz parte da aprendizagem.

A intenção é a de convencer o leitor a ler os seus romances?

Não tenho essa intenção, porque ou o farão naturalmente ou não adianta. A ideia de obrigar as pessoas a ler, ou tentar que o façam, é anti-produtiva pois cria resistência à leitura.

Nove em cada dez autores diz que ignora o leitor enquanto escreve...

Todos os autores são parecidos e o que não querem é o leitor a tropeçar no texto. O que penso é no conceito do que quero fazer e, por isso, quando começo nem sei se o livro é para crianças, jovens ou adultos.

Tem um personagem que diz que uma das formas de obter a ficção é através da tortura... É o seu caso?

Gosto tanto de escrever que me é muito difícil imaginar essa situação. Não precisa ser tão custoso.

Quando começa tem um plano?

Quase sempre se for romance, porque gosto que o livro tenha enredo. Aprecio que se conte uma história e não considero isso empecilho para a linguagem, como há quem pense.

Foi preciso vergar a estrutura do livro para que a chantagem do final resultasse?

Não, porque já tinha escrito o princípio e fim do livro, como é hábito.

O protagonista, Erik Gould, tem direito a uma foto. Não é ficcional?

Sou eu, depois do photoshop.

Há personagens repetentes.

Este livro tem muito a ver com A Boneca de Kokoschka, onde estão algumas destas personagens. É o caso de Isaac Dresner, sobre quem ainda vou escrever um outro livro para esgotar a sua vida literária.

Porquê situar este livro no tempo da Guerra Fria?

Sempre fui fascinado com o programa Jazz Ambassadors, com que a CIA achava poder ganhar uma guerra através da música. Sei que houve muitas operações da Agência ridículas ou tenebrosas e que esta poderia ser inserida no primeiro grupo. Tem uma beleza que outras não possuem, que é reconhecer o grande poder da música sobre as pessoas e imaginar que se poderia converter o mundo assim. O programa tinha duas facetas importantes para a CIA, uma mais quimérica que era a de conquistar os jovens para o seu sistema através de música feita num país capitalista e que vivia em liberdade; a outra, o desfazer a ideia de que era um país racista, já que a maioria dos músicos desse programa eram negros.

Será que a CIA está a fazer o mesmo hoje com o islão...

É bem capaz, até porque em muitos países, como no Afeganistão, era proibido ouvir outra coisa que não fosse o Alcorão. Esses países sabem que a música pode mudar muita coisa! É bem possível que se continue a usar a música, mais do que a literatura, para transformar as sociedades, porque um músico enche estádios e um escritor não é capaz.

O Jazz Ambassadors tinha a força de um verdadeiro argumento?

Para mim tinha, como se vê na introdução, onde explico os motivos da CIA para montar esta operação.

Há no livro heresias como a de "se Deus falasse teria a voz de Johnny Cash". Ainda se pode escrever isto no tempo de conflitos religiosos?

Acho que se pode escrever de tudo e que existe muita coisa politicamente correta, afinal cada vez somos mais iconoclastas. Acostumámo--nos a que a religião seja muito criticada, mesmo quando já tivemos problemas com os radicalismos muçulmanos que têm dificuldade em aceitar a crítica religiosa. Quando escrevi Jesus Cristo bebia cerveja, convidei frei Fernando Ventura para o apresentar e ele não ficou chocado. É preciso ver que na Última Ceia há vinho...

Houve uma altura em que toda a gente o relacionava com a sua atividade de fazer cerveja artesanal...

Escrevi isso nas badanas que apareceram no primeiro e segundo livro. Como começaram a fazer demasiadas perguntas sobre o assunto, tirei a cerveja da biografia porque estava a ganhar muito protagonismo. Não era a minha intenção, antes uma piada para aligeirar a solenidade da biografia. De qualquer modo, houve um tempo em que pensei em comercializar a que fazia e, nesse momento, voltei a pensar que esse protagonismo era bom, daí que tenha voltado a incluí-la. Agora, retirei e só digo que gosto de beber cerveja.

Chegou a ser projeto comercial?

Nunca, só a fazia cá em casa para os amigos. Mas ainda pensei no assunto, só que achei que iria ser muito complicado, até porque apareceram muitas marcas e deixou de fazer sentido. Pode ser que um dia...

A literatura fermentou mais alto?

Espero muito das coisas, mesmo que vá vivendo o dia a dia sem criar grandes expectativas. Estamos a falar deste livro mas já estou a escrever um novo e está outro na gráfica, por isso a cabeça está noutro sítio.

O rótulo da cerveja colou-se-lhe. Houve outros com essa força?

Sim, fala-se de que faço muitas coisas: o homem dos sete ofícios ou do renascimento, mas isso é exagerado porque sempre foi comum que artistas fizessem uma série de coisas em simultâneo. Essas situações sempre existiram porque, em termos de criatividade, pode-se ter uma ideia que funcione melhor noutro tipo de suporte. Até nos esquecemos que há uns anos o pintor precisava saber de química.

Houve algum rótulo menos bom?

Não, às vezes sinto-me um pouco embaraçado com o elogio.

Mas tem uma personagem que diz: "Uma pessoa acostuma-se a tudo até ao sucesso". É o seu caso?

Exatamente, até porque reagimos melhor ao elogio do que à crítica. Veja-se no Facebook, onde ninguém responde ao que é positivo mas à crítica até usa o insulto.

Nas entrevistas, sente o peso dos rótulos?

Se não fizesse certas coisas, as pessoas focavam-se mais no livro, o que era melhor. Há quem esteja mais próximo do autor e queira ler o livro por essa razão e também os que separam as duas coisas. Uma coisa é o que se escreve e outra o que se diz e, em certa medida, têm razão porque quando estou a escrever sou nitidamente mais inteligente do que se estiver a falar, porque na primeira faço edição e na segunda é o que sai.

Muitos escritores preparam frases fortes para as entrevistas ou ensaiam em frente ao espelho para ir à televisão. Já o fez?

Não, as únicas coisas que preparo são palestras, porque preciso de me concentrar num tema e ter uma linha narrativa. Gosto mais de improvisar do que de ler.

O livro, além de ter amargura, não é mais poético que os anteriores?

Gosto de poesia e leio muita, mas nunca tive coragem de publicar poemas além dos que atribuo às personagens. No entanto, sempre tentei que a minha prosa tivesse alguma poesia e ter personagens que as pessoas imaginam ser estranhas e exóticas. Que, na realidade são iguais às pessoas que estão à nossa volta se vistas de perto o suficiente. Nas personagens, gosto de me focar no que é extraordinário nelas e não no banal. Não me interessa descrever uma pessoa pelo que é comum a todos mas pelo que a faz diferente.

É o caso da criança, o Tristan?

Gosto de lhe dar um lado quase onírico, ainda que raramente crie personagens dependentes da magia. Não quero contrariar as leis da Física, apenas criar a sensação de que existe uma magia inerente. Esses comportamentos do Tristan também existem nos outros livros.

Constrói um autor que publica livros sob anonimato. Seria o melhor método para a literatura?

O nome do autor na capa ajuda os leitores a encontrarem-se com a pessoa que escreveu e com um tipo de escrita que lhes pode agradar. Percebo essa ideia de o autor morrer com o livro, mas isso não tem a ver com a liberdade ou a qualidade da escrita, até pode ser mais uma necessidade de distanciamento para os críticos. De qualquer modo, a minha personalidade social também não é o meu "verdadeiro" eu.

Se espremermos os seus livros, pode-se escrever uma biografia?

Com certeza, porque quando escrevemos não nos conseguimos alhear do próprio. Recordo aquela frase do Manoel de Barros: "Eu não saio dentro de mim nem pra pescar". Todos os escritores são assim. Descrevem as experiências acumuladas culturalmente, bem como uma parte de nós, mesmo que não seja a que as pessoas possam imaginar. Provavelmente, nunca encontrarão no livro o músico que se parece comigo.

Qual é a sensação de estar fora de Portugal a maior parte do tempo?

É verdade que passo muito tempo fora devido a muitas solicitações do estrangeiro, mas também noto que há uma participação muito reduzida de autores portugueses na maioria dos eventos aonde vou. Há muitos espanhóis e brasileiros, mas nacionais é raro.

A nossa literatura não tem peso?

Não tem comparação com o da espanhola, por exemplo. Também devido à má distribuição que temos no espaço da lusofonia, o que mostra que somos um país pequeno e sem capacidade de nos projetarmos em todas as áreas. Quem está radicado em Portugal raramente consegue ter algum protagonismo fora. É preciso sair para se o conseguir. É o mesmo que acontece com cientistas e jogadores de futebol se jogarem a vida toda no Sporting, Benfica ou Porto. Jamais terão o reconhecimento possível numa grande equipa europeia.

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