Robin Pecknold regressa com as raposas matreiras e fugidias

Com o novo álbum acabadinho de editar, os Fleet Foxes estiveram no Nos Alive no fim de semana passado

Ao terceiro disco, "Crack-Up", fica reforçado o recado que os Fleet Foxes nos querem deixar: junta a tua à nossa voz. É delas, das vozes vibrantes e calibradas, que depende (quase) tudo

A lista chega a ser impressionante, entre a "cesta básica" e os retoques gourmet que os ouvidos de Robin Pecknold e dos seus parceiros de viagem vão elegendo: guitarra clássica, a elétrica, a acústica de 12 cordas, outra de 12 cordas mas elétrica, o baixo Fender, piano, sintetizador e cravo, um moog, um órgão Hammond e um mellotron, uma marimba, uma harmónica, uma caixa de ritmos, percussão sortida, um loop de comboio (!), um loop de água (!!), passos e porta (!!!), um lápis a escorregar num papel (!!!!), ruído de amplificador, címbalos, sinos, uma chaleira usada como instrumento de percussão, violoncelo, clarinetes, flautas, violinos, trombones e trompetes. Chega?

É com estes múltiplos recursos que se faz o terceiro álbum dos Fleet Foxes, uma maneira simpática e solidária de dizer Robin Pecknold & C.ª, uma vez que é esse protagonista - de 31 anos, que também grava com outro projeto, os White Antelope, e em nome próprio - quem compõe, quem escreve, quem coproduz, em parceria com Skyler Skjelset. E, sobretudo, quem canta e vai determinando a pulsação de cada compasso, ora encostado a umas orgânicas mas luxuosas harmonias vocais, ora assentes apenas no seu indesmentível poderio como cantor, capaz de evocar, à vez, referências tão marcantes como Neil Young ou Brian Wilson.

Será, de resto, uma das razões mais poderosas para que, fazendo alarde de um expressivo comodismo, se atirou com estes moços para o saco fundo do indie folk, onde cabe um pouco de tudo, desde Joanna Newsom aos Blood Brothers ou desde os Animal Collective aos Beach House.

No caso dos Fleet Foxes, regressados para desmentirem as certidões de óbito afiadas e assinadas desde Helplessness Blues (2011), as exacerbadas denúncias de "esgotamento" atribuídas a quem optou apenas por um intervalo e por outros percursos, este álbum vem sublinhar opções tão próprias que, em boa verdade, haverá argumentos concetuais que vão permitir arrumá-los em quase todos os departamentos já em vigor ou ainda por criar. Se houvesse como cruzar alguns momentos, cirúrgicos, dos Beach Boys com alguns "sobressaltos" chegados ao cancioneiro de Crosby, Stills, Nash and Young (porventura mais Crosby e menos Nash), teríamos um carreiro aberto. Depois, poderíamos juntar alguma da melancolia contemporânea dos Midlake e uns temperos repentistas que não são desconhecidos dos Grizzly Bear. Se tudo isto soa como uma salganhada, como uma confusão incapaz de traçar um perfil musical, podemos simplificar o desafio: como uns seguiram, encantados e convictos, o flautista de Hamelin, aqui a atitude mais prática - e, daí, a mais sábia - é entregar a condução à voz de Robin Pecknold, que nos leva por montes e vales, mares e desertos, sóis e luas e escuridão, alegrias quase épicas e tristezas que roçam a catástrofe. Não é dizer pouco do poder concentrado numa só voz, que ainda vai procurar aliadas para os momentos de exaltação.

Voz eterna, voz atenta

Em muitas ocasiões, a música dos Fleet Foxes parece dispensar a lógica e abraçar uma qualquer terapia de choque: a um momento mais etéreo, mais parado, mais hipnótico, sucede-se uma descarga elétrica e de adrenalina que nos obriga a uns saltos involuntários, momentos em que convergem guitarras, percussões e até vozes. Uma das virtudes de Pecknold, mesmo num disco claramente mais complexo (no sentido de preenchido ou recheado) do que os seus antecessores, com destaque para as cordas - ditas - eruditas, está numa aparente falta de "filtro", que lhe permite desrespeitar todos os códigos (basta atentar nos títulos "compostos", multiplicados, que servem uma canção que é, afinal, uma suite) e ignorar todas as regras habituais numa canção pop.

Há, ainda, um outro pormenor decisivo: terá um resultado nulo qualquer busca de uma temática que se sobreponha às outras nas canções dos Fleet Foxes. Há ocasiões em que o intimismo irrompe, poderoso, de tal forma que quase nos sentimos uns intrusos dificilmente toleráveis entre o emissor da canção e o respetivo destinatário. Há outras que permitem perceber que Pecknold, embora pareça viver "noutro mundo", não está, afinal, tão alheado da atualidade que possa passar ao largo de mais um assassínio racial norte-americano, ocorrido quando se gravava este disco e muito bem embrulhado em Cassius. Ficamos a saber, também , que o tema-título, uma alusão às grandes crises psicológicas, foi diretamente inspirado em ensaios escritos por Scott Fitzgerald, algo que confirma, por si só, que Robin não é um músico popular típico: admita-se que pode parecer andar à procura de lenha para se queimar, mas reconheça-se, em simultâneo, que a madeira que arde é criteriosamente selecionada...

Dito isto, será avisado recomendar alguma prudência no contacto com Crack-Up, sobretudo na "primeira volta". Não faltarão as passagens que nos impelem a voltar a ouvir para melhor percebermos o que se passou - e porquê, quais eram as intenções destas "raposas" que, como as outras, são matreiras e fugidias. Mas cujo convívio serve para concretizar vários tipos de prazeres e para se ter a certeza, absoluta, de que a música pop (outra vez o rótulo cómodo...) nunca acabará nem se repetirá incessantemente desde que vá aparecendo gente assim. Decididamente, o ano começa a ganhar pontos de referência e contributos para um perfil capaz de entusiasmar. Por aqui, a fragilidade é relativa, as vozes são mesmo intemporais e atentas, e chegará - chega sempre - o "ponto de rebuçado" que é o impulso de começar a cantar em coro com estes mestres. Aí, se for possível, cada um por si e em sua casa, para não estragar o efeito.

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