Quem disse que o fado é de Lisboa? Há 40 fadistas a caminho da Ribeira

Simone e Raquel Tavares ontem na apresentação do festival Caixa Ribeira na Casa do Infante

Segunda edição do Caixa Ribeira - a 3 e 4 de junho - leva à zona histórica da Invicta António Zambujo e Simone de Oliveira, entre quarenta artistas que vão atuar em dez palcos. Até março vão sendo conhecidos os nomes

E se por dois dias ecoasse no coração da zona histórica do Porto a voz da alma portuguesa e o trinado de uma guitarra como que saído de uma casa de fados de um típico bairro alfacinha? Isso seria uma feliz junção entre dois patrimónios da humanidade (edificado e imaterial) e o regresso do Caixa Ribeira, que a 3 e 4 de junho volta ao Porto para a segunda edição, depois de uma estreia acima das expectativas em 2015.

Quarenta fadistas, dez palcos com vista para o Douro e a Invicta como capital do fado no primeiro fim de semana de junho. Confirmadas estão já as presenças de Simone de Oliveira, António Zambujo, Raquel Tavares, que vai estrear no festival o seu novo disco Raquel, e do jovem fadista portuense Kiko.

Na apresentação do Caixa Ribeira, que decorreu ontem na Casa do Infante, na Ribeira, que é a novidade desta edição em termos de palco, foram para já revelados estes quatro nomes que vão fazer parte do "fortíssimo cartaz" do festival deste ano, como garantiu Luís Montez, responsável pela Música no Coração, promotora do evento.

"Até março vamos anunciando todas as semanas quatro nomes, como forma de irmos mantendo a expectativa. Uma coisa é certa: temos a maior armada de fado possível. Os grandes fadistas vão estar cá todos. Penso que vamos esgotar os bilhetes antes do início do festival, já que quem veio no ano passado adorou e sabe que o evento tem uma lotação limitada, cerca de cinco mil pessoas", referiu. "Além disso, os artistas que vamos ter como cabeças de cartaz sozinhos enchem vários Coliseus... E o público aqui no Porto é muito caloroso. Quando gosta, gosta mesmo a sério. Isso viu-se na segunda noite da primeira edição, quando, apesar dos chuviscos, o público não arredou pé dos palcos ao ar livre", declarou Luís Montez, salientando a diferença deste conceito para outros festivais de música com a junção do fado "à arquitetura da cidade e à gastronomia".

Francisco Viana, diretor de comunicação da Caixa Geral de Depósitos, patrocinadora do evento, salientou ainda as vantagens de ter como palcos monumentos como a Igreja de São Francisco, o Palácio da Bolsa, o Mercado de Ferreira Borges, onde se localizam as duas salas do Hard Club, entre os dez espaços de espetáculo.

História e fado

"No Porto, pelas características da cidade e dos espaços, que são lindíssimos e mais próximos uns dos outros, diria que a experiência foi ainda melhor do que em Lisboa, onde nasceu este evento com o Caixa Alfama", salientou.

O objetivo é num raio de 50 metros haver sempre uma alternativa para o público poder ver um espetáculo de fado, seja no megapalco Caixa, junto ao Douro, na rua, para o momento "fado à janela", ou em espaços mais intimistas e de grande valor arquitetónico, como o Salão Árabe ou o Pátio das Nações, ambos no Palácio da Bolsa.

O êxito mede-se também pela opinião dos artistas, como Simone de Oliveira e Raquel Tavares, que estiveram presentes na apresentação para salientar a importância de aliar o conceito de fado e levá-lo até ao público, seja na rua, seja em espaços inusitados.

"Faz sentido ter um festival de fado, como faria termos um festival de folclore. De há dez anos para cá canta-se o fado como raras vezes se cantou. Temos poetas maravilhosos que foram chamados ao fado e novos valores que vão surgindo todos os dias... Ainda há pouco a ouvir o Kiko, que é um jovem que eu não conhecia, deu-me vontade de chorar. Emocionei-me muito, porque ele canta muito bem, com muita alma", sublinhou Simone.

Acrescenta Raquel Tavares: "faz todo o sentido aliar a palavra festival a fado": "Essa associação entre os dois conceitos era completamente impensável e descabido quando eu comecei a cantar há vinte anos. Temos todo o potencial para fazer este festival e a prova disso é juntar quarenta artistas que enchem salas no mesmo cartaz. É uma edição de sucesso, o conceito funciona e é um êxito... E eu estou muito orgulhosa de fazer parte deste Caixa Ribeira, onde já havia estado na primeira edição, tal como no Caixa Alfama e no Caixa Luanda."

A caminho de Paris?

O êxito de um festival dedicado ao fado tem sido tal que o conceito estreado em Alfama em 2013 teve a sua primeira edição na Ribeira Porto no ano passado e foi "exportado" para a baía de Luanda. Para já, não está prevista a expansão para novas paragens, sendo o objetivo consolidar os três festivais já existentes.

Luís Montez deixa pistas sobre uma ambição antiga: levar o fado até à capital francesa. "Gostava muito de fazer este festival em Paris, até porque temos uma grande comunidade portuguesa em França. É uma ambição natural querer expandir este conceito, mas vamos dar um passo de cada vez. Quando avançámos para fazer o Caixa Alfama nunca pensei que em tão pouco tempo o festival viesse primeiro para o Porto e depois para Luanda..."

Últimas notícias

Mais popular