O regresso intempestuoso de Arundhati Roy

Estava a autora esquecida quando volta com uma história inesperada, rodeando-se de forma invisível das suas causas.

O regresso de Arundhati Roy ao romance é um acontecimento, mesmo que uma grande parte dos leitores desconheça quem é este nome. Poderia ser um dos muitos autores filhos de imigrantes que estão a afirmar-se e a inundar o mercado editorial norte-americano, vingando o esquecimento enquanto pessoas de que os seus pais foram vítimas naquele país ao contarem as histórias que ouviram da família expatriada como matéria-prima para uma nova literatura. Mas Roy não é isso, era a autora até ao momento de um único romance, O Deus das Pequenas Coisas, que foi um sucesso tal há duas décadas que nunca se imaginou que a escritora se marginalizasse tanto e só agora voltasse a publicar nova obra. Até porque O Deus vendeu oito milhões de exemplares, premiado e traduzido em mais de quarenta línguas, uma proeza que não é para desprezar. Desde então, a autora passou-se para um outro lado da escrita, não tão literária, o da não ficção, bem como o do documentário e um grande papel enquanto ativista social e política, situação que a levou a ser considerada pela revista Time como uma das cem pessoas mais influentes.

Voltar ao romance com O Ministério da Felicidade Suprema, quase 500 páginas de histórias entrelaçadas umas nas outras sem paragem, é um momento estranho. Primeiro porque se fazem comparações, segundo porque o mundo mudou muito nestes tempos e o seu cenário preferido, a Índia - já o fora de forma autobiográfica no anterior -, não se alterou assim tanto para quem o observa de longe e quer novidade. Ainda por cima surgiram muitas vozes novas e os leitores portugueses tiveram acesso a novas expressões bastante surpreendentes da literatura com matriz indiana.

Arundhati Roy, no entanto, não voltou ao mundo dos escritores que publicam sem os seus trunfos. Aliás, numa das entrevistas que deu para preparar o caminho para esta segunda vida literária disse algo muito curioso: "Toda a gente pensa que vivo sozinha, mas isso não é verdade. Todas as minhas personagens convivem comigo." Explica que desse convívio escuta uma opinião sobre o que pensam das questões que interessam à própria autora. Bem, isto dava outro romance e só serve para perceber que Roy imergiu fortemente no mundo que esta sua narrativa descreve.

Um texto que raramente deixa o leitor interromper a tarefa de o ler após se confrontar com uma capa muito bonita, em que a torrente de histórias não permite parar para se saber o que é este Ministério. Mesmo que às vezes se considere que estamos dentro da própria cabeça da autora, num conjugar de pensamentos que a regeram nos últimos anos. Uma sedução que faz lembrar bons exemplos do realismo mágico de há algumas décadas por serem tão endiabrados, só que com uma roupagem atualizada com as confusões próprias daquele continente, ecoando situações externas como é o caso de, por exemplo, o atentado do 11 de Setembro, que se tornam "uma bênção para muitos na Índia" ao nível da repressão.

O livro não é sobre política, antes passa longos capítulos a recriar a vida estranha de Aftab/Anjum, um ser "hermafrodita" que leva o leitor para os recantos de uma sexualidade proibida e que Roy evita relatar de uma maneira fácil de manipular, só possível de coexistir sob as características desta sua escrita em jorro e sempre pronta a surpreender. É o caso da parte do cemitério, bem como a de Saddam... Um bom regresso.

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