O pianista que não se consegue imaginar a não tocar Bach

Apaixonado por Lisboa, pianista Piotr Anderszewski regressa hoje ao Grande Auditório da Gulbenkian

O ciclo de piano da Gulbenkian tem hoje (19.00) um dos seus pontos altos, com um recital de Piotr Anderszewski com obras de Bach, Schumann e Janácek no cartaz. Anderszewski chega a Lisboa em "estado de graça" (ver caixa). Mas Lisboa é mais uma permanência que uma chegada para este pianista nascido em Varsóvia: ao entrarmos no seu apartamento, recebe-nos um intenso e perfumado odor de chá, uma das devoções de Piotr.

Sim, estamos em Lisboa, na Lisboa antiga e o apartamento é de Piotr Anderszewski - "comprei-o há uns oito anos. Nunca tive outra casa cá", esclarece-nos - "já procurei outras, mas habituei-me a esta rua. E a este silêncio..." [escutamo-lo por momentos]. Dominando a sala, um piano de meia cauda: "nem imagina como foi trazê-lo até aqui. E só dois carregadores, escadas [bem estreitas] acima!"

Visitou Lisboa, a primeira vez, "aos nove anos, com os meus pais" e voltaria 14 anos depois, "para o meu primeiro recital em Lisboa, na Gulbenkian, com um programa louco: as [Variações] Diabelli e a 8.ª [Sonata] de Prokófiev!" A partir daí, "fui regressando e aprofundando a minha relação com a cidade, inclusive dos restaurantes onde mais gosto de ir [Piotr é um gourmet assumido]". Classifica Lisboa como "um lugar de trânsito, entre continentes, entre continente e oceano, um lugar de limite, de limiar, onde convergem várias arestas".

A aura e o carisma

Piotr é um pianista de culto do atual circuito, por várias razões. Uma delas é o repertório relativamente limitado que toca: "foi uma forma de liberdade que eu próprio forjei. Claro que há um preço a pagar em termos de carreira, mas percebi que faz parte da minha forma de ser". Da qual também é parte a música de Bach: "é de certa forma uma base para mim. Há nele uma intemporalidade que torna atuais e prementes os problemas que a sua música nos coloca. E a Arte é mesmo isso: colocar-nos problemas, para os quais nos propomos encontrar soluções." E en passant nos diz: "comecei a estudar o 2.º Livro do Cravo Bem Temperado de forma sistemática. Espero daqui a algum tempo poder juntá-lo ao meu repertório de recital".

Diz ficar "embasbacado" e "invejar" os pianistas "que apresentam ciclos integrais de obras um após outro", pois, diz, "assimilo lentamente repertório. Sou muito minucioso e tenho o meu ritmo, que é pausado. Mas as obras a que me dedico entram bem fundo em mim e dá-se como que uma gestação", pois, considera, "tocar uma obra em público é como trazer uma nova vida ao mundo".

A presença do público

"Quando em palco, logo ao tocar a primeira nota, estou a iniciar uma conversação com o público e este reage, mas não de uma forma que se possa prever, e que só limitadamente se pode moldar". Essa reação "não influencia a minha interpretação, porque esta está bem ancorada no meu interior, mas pode matizar a minha visão da obra que estou a tocar". Piotr avança: "ao nível das respirações da obra, talvez, da pulsação-base, da organização do material no tempo". É que "não se pode estar em palco como se estivesse em casa a estudar sozinho" e aprendeu que "se estiver um pouco menos concentrado e absorto, comunico melhor o que faço". A sensação daí resultante "geralmente é muito boa, a começar porque me faz sentir parte daquela realidade. A música é um ato de comunicação, é o prazer de partilhar e o efeito deste é o prazer de receber!"

A Polónia atual

Piotr acha estranha "a forte amizade que aparentam" os governos polaco e húngaro (a mãe é húngara, mas sente-se muito mais ligado à Polónia): "digo com clareza: não gosto do que se passa lá em termos políticos, porque não é construtivo e vai numa direção que fecha em vez de abrir". Na sua opinião, "a Polónia devia restaurar laços com a sua tradição secular multiétnica e multirreligiosa, anterior a 1945, em vez de tentar refundar a Polónia fechada sobre si própria, só para polacos e católicos do pós-guerra, como este governo parece querer fazer". Na sua opinião, o país e as mentalidades "precisam de abertura". Uma situação que o leva a dizer: "se calhar, irei mais a Varsóvia, para acompanhar de perto estes tempos!" Depois, para o sossego e o silêncio, cá estará Lisboa.

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