O cidadão que fazia arquitetura de braços abertos

Nuno Teotónio Pereira fotografado em 1989

Nuno Teotónio Pereira morreu aos 93 anos. Deixa extensa obra e a obstinação da luta pelos direitos cívicos

Não há o homem ou o arquiteto. Há Nuno Teotónio Pereira, cidadão, lutador antifascista, arquiteto com extensa obra, forte, feita a pensar em quem a iria usar. É esta a ideia de quem com ele aprendeu, de quem com ele trabalhou, de quem como ele esteve preso, de quem estuda a sua obra. E até de quem habita as casas que desenhou. "Nuno Teotónio Pereira é uma espécie de referência contínua na arquitetura em Lisboa. É o mestre dos mestres", diz Manuel Aires Mateus, arquiteto, 53 anos.

Nuno Teotónio Pereira morreu ontem na casa no bairro de São Miguel, em Lisboa, ao fim da manhã, rodeado da família. Tinha 93 anos, quase 94 (completava-os no dia 30). A doença já lhe levara a visão, essa ponte vital com o mundo, com as cidades, com as pessoas para quem foi cidadão e trabalhou. Mas não o impedia de viver. "Mesmo depois de estar cego ele ia muito ao [Teatro] São Luiz", conta Jorge Salavisa, ex-bailarino, programador artístico. E habitante do Bloco das Águas Livres - utente como se dizia nos anos 1970 -, um dos edifícios emblemáticos do arquiteto. Salavisa lembra-se de ir com a mãe, andar a andar, escolher a casa, "escolher a vista", quando o prédio foi construído. E ficou a daquele quarto andar. "Vejo desde o Ritz até Palmela, é absolutamente fantástico."

Mas o mais fantástico daquele bloco de casas, entre o Rato e as Amoreiras, que Teotónio projetou com Bartolomeu Costa Cabral entre 1953 e 1955, construído em 1956, é a "lufada de ar fresco, a enorme modernidade". Estas palavras são de Manuel Graça Dias. "Não se limita a ser uma arrumação de apartamentos gigantes, que são, tinha espaço para comércio diário, pisos de escritórios no primeiro andar, uma lavandaria coletiva, um jardim infantil onde as crianças podiam ficar", explica o arquiteto. "Era uma espécie de pequena unidade de habitação mas não estava segregada da cidade."

Cidade sem guetos

Nem podia. A integração era a chave dos ideais de Nuno Teotónio Pereira. E isso está nos prédios - por exemplo, nas arcadas de edifícios como o Franjinhas, o prédio com "cabelo" na esquina da Rua Braamcamp com a Castilho - e na sua ação política e cívica. "A arquitetura que ele exerce e pratica de uma maneira relacionada com a vida. A arquitetura é uma profissão feita na perspetiva da cidade integradora, sem guetos", sublinha Gonçalo Byrne, 75 anos, um discípulo do mestre.

Não seria o único. "Foi o meu mestre na arquitetura, foi ele que me ensinou a fazer um projeto", afirma Bartolomeu Costa Cabral, com o vagar dos seus 87 anos que todos os dias ainda vão até ao seu ateliê lisboeta na Rua da Alegria. "Trabalhámos juntos no Edifício das Águas Livres e não só. Acompanhei o Nuno e ele a mim toda a vida", disse ao DN.

Autoria partilhada

Gonçalo Byrne segue ao telemóvel num comboio a caminho de Zurique, na Suíça: "Conheci o arquiteto Teotónio Pereira quando estava a tirar o curso. Ele tinha um ateliê com o arquiteto Nuno Portas. Quando já tinha acabado o curso tive a sorte de ir trabalhar com Teotónio Pereira e Nuno Portas, onde estive uns seis a sete anos, de 68 a 75, praticamente até ao pós-25 de Abril." Fala triste, pausadamente, com gosto, "do Nuno". De como o homem delicado de convicções fortes ouvia toda a gente. "A visão que ele tinha na sociedade, a cidade, o terreno em que a cidadania é partilhada, ele tinha também no ateliê. Quando via que algum colaborador tinha uma boa ideia, ele dava uma certa liberdade", conta Byrne. "Herdei dele a autoria partilhada. Não é fechada para benefício do próprio projeto." Ideia sublinhada por Graça Dias: "É uma referência do ponto de vista ético, sempre teve imenso cuidado com a explicitação das coautorias, nunca se esquecia de referenciar as pessoas e nunca se punha em bicos dos pés perante a arquitetura que tinha produzido."

Nascido em Lisboa a 30 de janeiro de 1922 numa família católica e pró-Salazar, Nuno Teotónio Pereira formou-se em Arquitetura, em 1949, pela Escola de Belas-Artes de Lisboa com nota final de 18 valores. Foi o sistema de captação de águas de Valada do Ribatejo (1948-57)que coroou a nota final de curso. Tinha 26 anos. Já passara pelo ateliê de Carlos Ramos, entre 1940 e 1943.

Participou no 1.º Congresso Nacional de Arquitetura, em 1948, afirmando-se como um dos opositores à estética do regime de Salazar, nomeadamente contra a ideia de uma "arquitetura portuguesa" típica. "Este é um arquiteto moderno que trabalha a partir da Segunda Guerra num Portugal atrasado, reacionário, com um poder político que quer impor um estilo", diz Manuel Graça Dias. "Trabalhava-se já em betão, fazem-se edifícios com elevadores, não fazia sentido que fossem coroados com telhados barrocos...", acentua.

Por esta altura Teotónio Pereira impulsionou e participou na realização do Inquérito à Arquitetura Popular Portuguesa, lançado pelo Sindicato Nacional dos Arquitetos, que deu a conhecer os vários estilos de habitação nas várias regiões do país.

A sua obra seria muito marcada pela habitação social. Defendia a habitação para todos. Foi consultor de Habitações Económicas na Federação das Caixas de Previdência, de 1948 a 1972, tem obra feita em Braga, Castelo Branco, Póvoa de Santa Iria, Barcelos, Vila Nova de Famalicão, Vila do Conde, Caramulo e Lisboa (Olivais, Chelas e Restelo).

O atelier da Alegria

Numa sociedade dominada pelo regime, a academia era repressiva. "A escola [de arquitetura] de Lisboa era retrógrada. Nuno Teotónio Pereira foi capaz de criar uma escola de arquitetura paralela no ateliê da rua da Alegria, chamávamos-lhe o atelier da Alegria", refere Ana Tostões. Arquiteta e professora universitária, lembra a "ponte" que Teotónio fez com a escola do Porto ("onde muitos arquitetos tiveram de ir acabar o curso"), a forma como influenciou novas gerações, como "cresceu com elas."

Teve ações políticas "muito claras", diz Tostões. "Foi um exemplo cívico", diz Graça Dias. "Integrou o movimento político dos chamados Católicos Progressistas, foi coordenador do jornal clandestino Direito à Informação, participou nas vigílias contra a Guerra Colonial da Igreja de São Domingos e da Capela do Rato e no Boletim Anticolonial. Era um dos rostos da Comissão de Socorro aos Presos Políticos", escreveu ontem Helena Pato, professora, militante do PCP, no Facebook do movimento Fascismo Nunca Mais. Tal como Teotónio, esteve presa às mãos da PIDE em Caxias.

Esquissos em Caxias

O arquiteto foi preso três vezes. Em 1967, 1972 e 1973. Foi libertado a 26 de abril de 1974 da "prisão mais longa de todas", lembra-se Gonçalo Byrne. No ateliê o discípulo do mestre teve de levar em frente a "pantera cor-de-rosa", que Teotónio já idealizara. O projeto para o bloco de habitação social que iria nascer em Chelas em 1974 foi "levado para diante" por Byrne, António Reis Cabrita e Nuno Portas. "Conseguimos fazer chegar à prisão uma pequena prancheta para desenhar mas não conseguimos reunir-nos com ele. Foi uma prisão muito dura, ele foi torturado, esteve bastante tempo em regime de grande isolamento", conta Byrne.

"Mesmo em condições adversas não deixava de pensar nos grandes problemas da arquitetura", realça Graça Dias. Quando no ateliê se trabalhava o Franjinhas (1965-1967), fez desenhos para as palas de betão, os elementos que deram "personalidade" (e sombra) ao edifício, na prisão. "Há vários estudos e desenhos produzidos em Caxias, enviados para os colaboradores."

A vida é marcada pela luta contra o fascismo. É um dos fundadores do MES (Movimento de Esquerda Socialista, em 1970) e nele se mantém até à sua extinção. Não deixa de ter "uma participação cívica muito ativa, nomeadamente a nível da cidade de Lisboa", escreve Helena Pato.

Quatro Prémios Valmor

"O arquiteto Teotónio Pereira conhecia a cidade de Lisboa como poucos e pensou e projetou a cidade de Lisboa como poucos", disse ontem António Costa, agora primeiro-ministro, ex-presidente da Câmara de Lisboa. Foi "um arquiteto admirável, que contribuiu para a reflexão sobre as políticas de habitação em Portugal e que deixou uma obra de arquitetura notável, em particular em Lisboa", referiu.

A cidade tem quatro edifícios do arquiteto que são Prémio Valmor: Torre de Habitação nos Olivais Norte (com Nuno Portas e António Pinto Freitas, 1967), o Franjinhas (com João Braula Reis, 1971), a Igreja do Sagrado Coração de Jesus (com Nuno Portas, 1975) e, mais recentemente, a estação de metropolitano do Cais do Sodré (com Pedro Botelho, 1998).

Era membro honorário da Ordem dos Arquitetos desde 2004 e doutor honoris causa pela Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (2003) e pela Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa (2005). Em 2015 foi distinguido com o Prémio Universidade de Lisboa pelo exercício "brilhante" na área da arquitetura e como "figura ética". A doença não permitiu que estivesse presente na Aula Magna para receber o prémio.

A igreja que se pode atravessar

A luta contra o fascismo marca a sua vida. Mas também a modernidade da arquitetura religiosa. Fundou, em 1953, o Movimento de Renovação da Arte Religiosa (com Nuno Portas). É autor de uma das mais extraordinárias igrejas do país, a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, na Rua Camilo Castelo Branco, em Lisboa. É aqui que vai estar em câmara-ardente a partir das 17.00 de hoje. Um edifício que fez para ser atravessado, na arquitetura de braços abertos que espalhou pelo país. O funeral realiza-se na sexta-feira, às 13.30, para o Cemitério do Lumiar.

"A sua obra é imortal, mas custa muito saber que o Nuno Teotónio Pereira já não mora em Lisboa. Há pouco, quando passei na Braamcamp, até o Franjinhas me pareceu mais vergado pelo peso da idade", disse Jorge Sampaio, ex-presidente da República e amigo de longa data do arquiteto.

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