O chá de Alice, o lanche do Capuchinho e outros banquetes

O banquete de "Alice no Países das Maravilhas"

Apaixonado por livros, Charles Roux, de 23 anos, criou Banquetes Fictícios, uma série inspirada em refeições da literatura

"Quero transformar o que vejo e o que sinto a ler os livros em imagens." Foi este o motor do projeto Fictitious Feasts (Banquetes Fictícios), do fotógrafo e leitor apaixonado Charles Roux, que dá imagem ao lanche de Alice no País das Maravilhas, ao lanche de Capuchinho Vermelho, às refeições no Pequod na saga Moby Dick - entre muitas outras.

Os retratos de Banquetes Fictícios materializam ao pormenor almoços, jantares e chás das páginas de obras de autores famosos e reconhecidos internacionalmente como Gabriel García Márquez, Lewis Carroll ou Charles Dickens, entre muitos outros. Roux recria com rigor partes de histórias bem conhecidas.

Tudo começou em 2014 "com ideias que já tinha de 2013", recorda Roux: "No final do curso de fotografia, em Paris (na escola Icart), precisava de um projeto final. A literatura é uma parte tão grande da minha vida que me parecia evidente que algum dia iria criar algo com base literária. Ao ler, notei que a comida era um motivo muito peculiar, que dava muito sentido a comportamentos humanos, a cenas icónicas e a metáforas. Fictitious Feasts começou por ser uma experiência sensorial."

O autor das fotografias, e dos banquetes, Charles Roux

E foi mesmo a paixão pela literatura que surgiu primeiro. "Sempre li muito e o meu amor pela fotografia é muito mais recente. Sou, antes de tudo, um leitor e converti-me cada vez mais num criador. Desenho, pintura e mais recentemente fotografia, porque a foto é o mais mais próximo da realidade que uso para criar histórias ou exorcizar o real", diz. A preparação de cada ambiente implicou que se estendesse a outros livros: "Li e reli uma quantidade de livros de ficção, colei notas nas páginas, rascunhei cenas e, às vezes, li uns artigos ou teses de críticos literários que me ajudaram a ter uma ideia precisa e um foco quanto às metáforas e aos símbolos. Os detalhes eram muito importantes para mim porque o que queria criar era principalmente a atmosfera."

"Cada cena era um desafio em si mesmo", conta o autor. Precisava de um certo número de acessórios, talheres..." Tinha de reunir um montão de coisas (na família, amigos, antiquários, mercados...) e ler receitas para cozinhar. Se lemos sozinhos, o projeto inteiro deve ser feito a solo. Cozinhei, encontrei e dispus objetos, criei a luz e as fotos", explica Roux, com a precisão que antecede cada clique.

Como "queria algo o mais natural possível, decidi que não ia usar um acessório duas vezes, pois cada foto é única e então tudo deve ser também. Fui a casa de familiares, de amigos, fui a jardins, a bosques, a montanhas, a castelos e a casas abandonadas para conseguir um resultado verdadeiro, autêntico, com texturas ou ambientes adequados".

Entre as fotografias mais difíceis de realizar, Roux recua até àquela que saiu de Alice no País das Maravilhas: "Tinha muitas coisas para cozinhar e pôr em ordem e pouco tempo para fazê-lo. Estava em casa de amigos, em Auvérnia (França), começou a chover e tinha de regressar a Paris. Fiz muitas fotos, mas escolhi a primeira porque era a que mostrava as coisas em cima da mesa o mais natural possível. Outra foi As Crónicas de Nárnia: o Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa também por causa do tempo. Estava nos Alpes italianos e queria neve real. Estava muito frio e começou a nevar fortemente. Diverti-me imenso, apesar de tudo."

Ainda muito jovem, "acabo de fazer 23 anos -, Charles Roux não esconde que quer ir mais além e "fazer exposições em toda a parte do mundo". Para isso já enviou "portfólios para festivais e feiras". "Gostava de mostrar as fotos em cidades importantes e Portugal faz parte. Gosto também de Espanha, gosto de espanhol (aliás foi o idioma escolhido para responder ao DN), estudei Literatura e Civilização Hispânicas. Além disso, fiz fotos inspiradas em autores espanhóis como Miguel de Cervantes, Carlos Ruiz Zafón... O ideal seria trabalhar com galerias em grandes cidades europeias e também americanas", diz, adiantando ter "também um projeto de livro" para as 50 fotografias que já assina.
Afinal, "faz sentido que Fictitious Feasts seja um livro. De livro a livro ando à procura de uma editora". Enquanto não a encontra, continua a montar a mesa nos mais diversos cenários.

Vencer preconceitos

A par do trabalho que o coloca agora na ribalta, Roux também se movimenta no mundo da moda. "Inicialmente não gostava, pois era muito introvertido e tinha estereótipos negativos: um mundo de dinheiro, de superficialidade, de materialismo, de relações estranhas, pessoas caprichosas... Depois enfrentei o meio da moda para afrontar o que me assustava. Descobri que se os meus clichés eram verdadeiros, então eram muito suportáveis, e sobretudo que se pode encontrar pessoas muito criativas, sensíveis e autênticas. Tinha de desmistificar a perceção que tinha e o azar da vida fez que tivesse pedidos comerciais em moda. Vi assim uma oportunidade para me envolver e abrir a minha mente", diz. Arrumados os preconceitos, começou a trabalhar mais em moda e agora é também assistente de outros fotógrafos.

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