"Não tenho problemas em ser um artista de quem as crianças gostam"

“Até podia ser só eu a cantar 'Manto de Água', mas não pus essa hipótese. Sou muito mimado ou persistente e era a Ana Moura ou não era”

Agir, 28 anos, acaba de editar uma nova canção, Manto de Água, com Ana Moura. E está a produzir disco do pai, Paulo de Carvalho.

Agir passaria despercebido com o seu capuz se não fossem as mangas arregaçadas da camisola negra (que trocaria para a fotografia). Deixam à vista as tatuagens que lhe cobrem os braços e se tornaram imagem de marca, juntamente com os alargadores nas orelhas. A entrevista, no Espelho de Água, em Lisboa, acontece a poucos dias de mostrar um novo single, Manto de Água, para o qual convidou a fadista Ana Moura. Em 2016 atuou no NOS Alive e encheu os Coliseus de Lisboa e Porto, no primeiro trimestre do ano retirou os concertos da agenda. Em março, atua na Suíça, em junho estreia-se numa semana académica e em julho vai ao festival Marés Vivas. Pelo meio, um desafio: produzir o disco do pai, Paulo de Carvalho.

Uma criança de 9 anos encomendou um autógrafo de Agir quando soube que ia dar esta entrevista...

[Interrompe] Vamos tratar disso já...

Agir e Paulo de Carvalho

... Mas o que pensa um músico quando percebe que a sua base de apoio são miúdos?

Realmente quando vejo uma data de malta com 5, 6, 8, 9 anos, às vezes ainda não falam e gostam, não consigo explicar porquê. É uma coisa, não digo a ser estudada, mas a tentar perceber, é curioso.

A que atribui? À música, ao seu estilo?

Eu acho que até certa idade as pessoas gostam ou não gostam, não têm preconceitos e eu gosto de pensar que talvez seja por isso. As músicas têm refrães mais fáceis, como uma lengalenga, e, enquanto os adultos olham para mim e pensam "está todo tatuado", eles se calhar olham para mim como uma coisa mais abonecada. Quando estão uma data de miúdos estrangeiros, e portanto não me conhecem de lado nenhum, ficam a olhar para mim. Há de ser pela figura que fascina de alguma maneira.

Como músico, as crianças gostarem da sua música tem consequências na maneira como compõe? Por exemplo não introduzir letra explícita?

Hum... [pausa]... Se calhar na escolha de um single ou outro, sim, mas, posso dizer, este álbum já vai ter uma coisa ou outra explícita, portanto depende de para onde estou virado. Tento ter uma responsabilidade acrescida, mas não demasiado, porque o papel de educar cabe aos pais, não a mim. Se sentir que me tenho de condicionar, isso para mim não é fazer arte. As coisas que faço refletem muito aquilo que vivo, as minhas experiências, se há um dia que estou passado e me apetece dizer um palavrão, não vou deixar de dizer porque estão crianças de 5 anos a ouvir. Isso é um papel dos pais, conhecerem um bocadinho o que os filhos gostam, autorizar ou não autorizar, fazerem uma seleção do que têm de ouvir ou não. Devo ter alguma responsabilidade mas q.b.

Esse próximo disco sai quando?

Gosto de apontar mais para depois do verão, yeah.

Os singles não vão ter a indicação "explícito" no Spotify?

Até ver não, mas está a ser natural. Se tiver de ter tem, não tenho problemas com isso. Já tenho uma equipa que trabalha comigo, as coisas não são decididas instintivamente mas, lá está, pensamos só um bocadinho mais, não quero realmente ser um artista para crianças. Eu não tenho problemas em ser um artista de que as crianças gostam, mas há uma diferença entre ser um artista de que as crianças gostam e ser um artista para crianças. Eu acho realmente que uma Xana Toc Toc tem de ter esse problema, eu não me acho no dever de ter esse problema.

A pergunta tinha que ver com essa polémica de Facebook, vale o que vale, em que um grupo de pessoas se manifestou contra isso após o concerto no Coliseu dos Recreios. Acompanhou?

Sim. Se calhar, as crianças vão começar a conhecer agora, antes disso nunca tinham ouvido falar. Compu-la [Gosto do Teu Rabo] com 12,13 anos, falava de um estilo de vida que levava na altura, hoje não faria sentido. Quando comecei com a agência com que estou agora e a dar concertos maiores, ainda cantava uma música ou outra [dessa altura], porque, a um nível mais pequeno, eram os meus êxitos, foram muito conhecidas no YouTube, mas eu já percebia que a maioria das pessoas não conhecia. Há muita coisa que só começaram a conhecer do Leva-me a Sério para a frente. São músicas que não faria agora porque não faz sentido, mas não passo a ter vergonha delas e, se calhar, não fazia as que faço agora se não tivesse passado por aquelas, mas, mais uma vez, o meu papel não é educar as pessoas, seja de que idade forem.

Leva-me a Sério: esse disco era mesmo para que as pessoas o levassem a sério?

Tudo partiu obviamente de uma música chamada Leva-me a Sério e achar que seria engraçado pegar num estado de espírito e fazer questão de dizer que estou cá para ficar. Todas as pessoas tiram primeiras impressões, é normal, todos nós olhamos para uma pessoa e pintamos uma ideia, e a ideia era um bocadinho esqueçam um bocadinho a primeira impressão e a imagem e vão ouvir as músicas, mesmo que depois nem gostem, mas vejam que há trabalho e coerência.

Pode dizer-se que é a partir desse disco que é um músico profissional?

Não, isso já era. Já vivia disso, já tinha atividade aberta, já me sustentava, melhor ou pior. Acabei de dizer que comecei a fazer coisas com 12, 13 anos e aí não é profissional mas quando comecei a dar os primeiros concertos acho que era profissional. Obviamente não eram tantos nem com tanto êxito como agora, mas o ser profissional não tem que ver com sucesso. Até posso, de hoje para amanhã, não ter sucesso, e continuar a ser músico, com mais ou menos dificuldades.

O single que acaba de lançar, Manto de Água, é uma parceria com Ana Moura. Como surgiu?

Raramente faço uma música a pensar que gostava de fazer alguma coisa com alguém em específico. Estou a compor e do nada as músicas fazem-me lembrar timbres de vozes e consigo imaginar uma certa pessoa a cantar. Foi o que aconteceu com esta. No processo de acabar de compor e ouvir comecei a achar que fazia sentido. Mostrei o refrão à Ana Moura com a minha voz, não tão "afadistado", que era o que eu queria que ela fizesse.

Podia fazer com outra fadista?

No fim do dia, até podia ser só eu a cantá-la, mas não pus a hipótese. Sou muito mimado ou muito persistente e era a Ana Moura e não era outra [risos].

Como é o seu processo de trabalho? Li que gostava de apanhar a inspiração quando surge, que era individualista.

Nunca tive aquela coisa de ter uma banda quando era mais novo. Queria ter uma ideia às cinco da manhã e não queria depender de "ah, hoje não posso, só posso amanhã". Tenho uma ideia na cabeça e quero fazer já! Isso torna-nos mais individualistas. Não quer dizer que hoje já não faça coisas com outros, mas não me impede de ter uma ideia a meio da noite e ir a correr para o computador gravá-la. Isso nunca vai poder deixar de acontecer, porque é o que me dá gozo. Não conseguia ficar com a ideia presa na cabeça e não a deitar cá para fora, nem que seja gravá-la no telemóvel.

Se tivesse de explicar o seu método de trabalho, como era?

Regra geral, começa sempre por estar ao computador a fazer instrumentais e a fazer o que se chama o beat. Depois de ter um loop minimamente viciante é que me começam a surgir ideias de melodias. Não sou nada aquela pessoa de andar com um bloco de notas, escrever letras e depois musicá-las. Já aconteceu, mas é raro. Tento fazer melodias logo com frases, mesmo que não façam grande sentido. Raramente escrevo poemas por escrever.

Agora até lhe saiu com um pouco de desprezo.

Não estou a dizer mal de quem o faz, eu próprio já o fiz, até já aconteceu mandarem-me letras e musicar, estou só a dizer o que acontece 90% das vezes. Instrumental, acordes viciantes e melodias e aí é que começam a vir as letras.

Um refrão catchy e uma melodia?

Eu tenho para mim, como desafio, acabar uma música e mostrá-la a alguém. Se a pessoa não sai de ao pé de mim a assobiar eu vou lá dar um toque ou outro.

Tem mais medo de falhar agora?

Aprendi a não me preocupar com o que não depende de mim. O facto de uma música ser um sucesso não depende só da pessoa que faz a música, são mil e um fatores à volta, portanto eu só me preocupo com aqueles que me competem, ter na minha consciência que a letra e a música estão boas. Estou agora a fazer este álbum, e claro que há sempre aquela coisa de vamos lá ver se consegue estar ao nível ou superar o anterior, mas, eh pá, não vivo... [simula preocupação]

Mas qual é a medida do sucesso?

É continuar a ter concertos. Claro que as coisas hoje são muito medidas, tem cinco milhões de visualizações, tudo bem, é bom, para o ego é muito bom, mas não quer dizer que as pessoas saiam de casa para ir ver o concerto. Ou quer dizer que as pessoas saem de casa para ir ver o concerto. Conseguimos olhar para as coisas que nos aconteceram há um ano e neste ano e ver que umas correram melhor ou pior, mas não ponho essa carga de "esta música não está a ficar como O Tempo É Dinheiro". Claro que, se mostro a dez pessoas e oito gostam e duas não, há de querer dizer alguma coisa. Estou numa profissão em que não posso fechar-me sobre mim, tenho de ter em conta que uma pessoa que vai ver um concerto tem de ter uma noite fixe e que vai para casa com histórias para contar.

Quando começou a ser músico já não se vendiam muitos discos. Isso mudou a maneira como se faz música?

Mais uma vez, só me posso preocupar com o que me compete. Eu não acredito que consigo mudar o mundo. Mais depressa me tento adaptar e tento dar a volta do que ficar a queixar-me de que agora já não se vendem discos. Eu tenho de perceber que isto já não é o futuro, é o presente, portanto, o que é que eu vou fazer para contornar? É dar mais concertos? É um formato que ainda venda? Agora ficar no "no meu tempo é que era bom e agora não se vendem discos", não. Temos de abraçar a mudança, porque ela é inevitável. Torna o jogo muito mais difícil, mas, acredito, aquilo de que as pessoas ainda gostam mesmo, as pessoas compram. Agora se calhar temos de ser mais diretores de conteúdos e menos músicos. Se quisermos, claro.

Está a produzir o disco do seu pai... Quem é que propôs o quê a quem?

Propus eu e o meu pai não se mete mesmo quase nada. Foi uma das condições que impus, digamos assim: só vais ao estúdio pôr voz. É pegar nas coisas que ele já fez, dando uma roupagem mais moderna. Continuando a ser clássico, atenção! Não vou pegar nele e fazer remisturas de hip-hop, é clássico à mesma, com uma orquestra enorme e tocado. Sou suspeito, mas acho que o trabalho ficou muito fixe e ele também está muito contente com o resultado. Já está praticamente acabado. Sai em março, abril. Exceto o possível single, que é desconhecido, o resto são os êxitos. É um disco que tem que ver com o facto de ele fazer 70 anos e 55 de carreira.

Ele, Paulo de Carvalho, não se mete mesmo?

Não, porque eu não deixo. Conheço muito bem o repertório do meu pai, andei na estrada com ele, mesmo sem cantar, ia e via.

Mas como é que isto aconteceu?

Ele entrou há um ano para a agência onde estou [We Are Music] para gerirmos a carreira e eu propus fazer este disco. Disse-lhe "confia em mim, vamos fazer à minha maneira e vamos ver como é que corre". Se calhar vai ao fundo logo de uma vez... [risos]

Identifica-se na sua escrita com canções que o seu pai foi cantando?

Embora o tempo do pai seja agora, havia uma escrita da época, muito poética, e eu sou muito direto a escrever, para as coisas que faço. Eles eram capazes de escrever coisas como "cidade a ponto luz bordada" e eu se calhar dizia logo que a cidade está bué iluminada. Não tenho esse romantismo, porque sinto até que a mim e às pessoas de agora e que me ouvem isso não diz tanto. Eles arranjavam uma maneira poética de dizer que está tudo mal, eu digo que está tudo mal, ponto.

Tem vontade de fazer crítica social?

Não quer dizer que não tenha um som ou outro que fale disso, mas não sou uma pessoa contestatária. Sou uma pessoa de dar a volta. Até porque acho que as coisas podem mudar para nós e para os que estão à nossa volta quando arregaçamos as mangas e faço com que as coisas não me afetem assim tanto. Depois, eu não vivo na pele uma data de coisas, seria uma hipocrisia da minha parte. Não quer dizer que não tenha olho crítico e não veja que há pessoas que passam dificuldades. E, levando para a política, há muita gente que fala e nem percebe metade. Como eu, assumidamente, não percebo metade, não me ponho a falar. Estamos numa fase em que podemos dizer tudo, não acho que mostre muita inteligência dizer tudo só porque podemos.

Perfil:
Chama-se Bernardo de Carvalho.

Nasceu a 18 de março de 1988.

É filho do músico Paulo de Carvalho e da atriz Helena Isabel.

Agir era a assinatura que usava como graffiter. Mantém a paixão, agora com outro nome. "Não dava muito jeito."

Começou a fazer músicacom 12, 13 anos. Aprendeu música a experimentar em casa, faltando às aulas. Os seus "sons" começaram a circular entre amigos, chegaram ao YouTube, ele próprio criou um canal. Antes de ter um disco, já tinha concertos cheios, diz.

Os primeiros, adolescente, foram no Mercado da Ribeira. Editou o álbum Agir em 2010, Leva-me a Sério em 2015, e, no meio, a mixtape #agiriscoming.

Últimas notícias

Em 2013, o Governo Passos obrigou-se a três campanhas de sensibilização da opinião pública, até 2020, para combater a discriminação dos ciganos. Em 2017, o candidato do PSD a Loures faz a campanha contra eles; as sondagens dizem que a maioria aprova. De acordo com a autarquia, serão menos de 600 em 204 mil habitantes, estas pessoas que tanto incomodam. Quem são? Que fazem? Como se reconhecem? Viagem a Loures, à boleia de um estereótipo

Partilhar

Conteúdo Patrocinado

Mais popular

  • no dn.pt
  • Artes
Pub
Pub