"Não escrevo um texto sobre o palerma com quem fui jantar"

Não aprecia os diários de Sylvia Plath, que leu há pouco: “Os que mais me marcaram são os de Kafka e de Pavesi. Mas há outros, os de Virginia Woolf ou de Katherine Mansfield, por exemplo.

Assessora o Presidente da República e há quem aguarde que nos próximos volumes do seu diário Pedro Mexia deixe um pouco do que tem vivido nos últimos tempos. Até lá, o novo volume de "memórias" faz a radiografia intelectual e cultural de um dos resistentes do género.

É dos poucos diaristas no ativo em Portugal, mas Pedro Mexia acredita que um lote razoável de leitores se interessa pelo que revela nestas novas páginas intituladas Malparado. Textos que têm origem desde há anos no seu blogue e que, após uma depuração, publicará em livro enquanto, diz, "existirem editoras que tenham interesse neste género".

Quando se lhe pergunta se num próximo volume haverá entradas sobre este período em que é conselheiro cultural do Presidente da República, a resposta é negativa. Mas, depois, salvaguarda: "Não... Poderei fazer alguma referência a sítios onde fui a acompanhar a comitiva presidencial, como aconteceu numas crónicas sobre as cidades de Maputo e Havana, mas com certeza não vou fazer de Fernando Lima [ex-assessor de Cavaco Silva] e contar histórias. Não tenho interesse e não o faria."

Questiona-se se é por não ter interesse na maledicência? Resposta: "Não tenho interesse na maledicência e mesmo em privado não sou assim. Gosto de coisas engraçadas da vida privada mas a maledicência não é dos meus defeitos. Sei que alguns dos diários mais conhecidos, como o Conta-Corrente de Vergílio Ferreira, contêm azedume e amargura do princípio ao fim, no entanto como leitor interessa-me pouco e nada como autor."

Marcel Proust e The Smiths estão empatados na quantidade de referências no índice onomástico...

Costumam ser o Leonard Cohen ou a Agustina os mais referidos...

... Agustina é claramente vencedora...

... É a minha escritora favorita, daí que seja normal. Quanto aos Smiths, também posso dizer que são a minha banda favorita, mas Proust não é um autor por quem tenha particular interesse. O número de citações corresponde em muito à frequência com que leio ou vejo os artistas em causa.

Este diário está diferente do anterior. Mais sistematizado?

São todos um pouco diferentes. Este é mais pequeno porque escrevi menos nessa altura e não de um modo tão anárquico. Não diria sistematizado, antes mais arrumado, porque não foi preciso cortar muito. O tom também é diferente, está a meio caminho entre o melancólico e o lírico. Aliás, o título espelha isso, que não se sabe para onde vai - Malparado -, como se fosse um carro mal estacionado.

O diário é prática rara. Porque teima?

Há poucos diários famosos em Portugal, o mais conhecido é o do Miguel Torga. Eu sempre escrevi para a gaveta até que apareceram os blogues, aí pensei que era uma forma de me incentivar a escrever. Nem pensei na edição em livro, só quando a Cotovia me sugeriu publicar Fora do Mundo é que percebi que podia resultar. Enquanto houver editores que queiram perder dinheiro com isto, eu continuarei.

A publicação obriga a mais cuidados?

Isso já o blogue obrigava, mas o diário tem uma componente potencialmente melindrosa, a de referir pessoas. Por isso, na gestão que faço obedeço a regras deontológicas: se vou jantar com alguém não chego a casa e escrevo um texto sobre o palerma com quem fui jantar. Há regras para não expor terceiros ou escrever sob o impulso noturno, pois de manhã estamos arrependidos.

Esse freio não retira sinceridade?

Sim, mas acrescenta civilidade. Acredito muito na autobiografia radical, no sentido do factual e de exposição de uma intimidade, se não for a minha. Jamais contaria histórias de outros ou de um modo que os pudesse identificar. Contar tudo, incluindo o que outros me relataram, uma situação de que há inúmeros exemplos no mercado, é absurdo e nunca o faria.

Exige muita censura ou atenção?

Há uma autocensura na vida quotidiana que nos faz civilizados, ninguém diz tudo o que lhe passa pela cabeça.

Pode-se fazer a sua biografia através destes diários?

A biografia factual não, porque se os diários têm muita vida íntima pouco existe de vida privada. Não dá para fazer uma cronologia, apenas se vê que então estava a pensar em certas coisas e isso não tem interesse público.

Então, para quem são os diários?

Não faço ideia, além de ser um público quase inexistente. Talvez uma mistura de leitores que transitaram dos blogues, os que leem os livros que escrevo e aqueles de que desconheço a origem.

Os temas que prevalecem são a literatura, o cinema e a música. Porquê esta opção?

São artes de que gosto mais e com que estou familiarizado. Teria mais dificuldade em falar de artes plásticas, por exemplo, porque não têm a presença diária na minha vida como os outros.

Na página 56 tem uma entrada que fala dos Pixies e outra do Frei Luís de Sousa. Não é demasiada amplitude?

Gosto disso e é uma marca geracional esta ideia do alto e do baixo, do erudito e do popular, mais do que uma característica minha. Interesso-me por coisas de qualidade diferente e existe um certo efeito cómico quando se os associa.

Na 38 faz previsões para o Nobel da Literatura de 2013 e aponta Alice Munro, que foi quem venceu...

... E devo falar no Bob Dylan também.

Acreditou que Dylan poderia ganhar o Nobel da Literatura?

Era uma hipótese longínqua mas acreditei, pois a sua presença regular nas listas e a vontade da Academia em fazer alguma coisa inusitada, como premiar uma jornalista [Svetlana Alexievich], indiciava isso. Era um salto inesperado e viram-se as reações que suscitou, principalmente em Portugal, onde foram particularmente mais veementes e negativas do que noutros países. Surpreendeu-me a ideia de que existe uma hierarquia das artes, como se uma canção nunca pudesse chegar ao estatuto sagrado da literatura. É absurdo, nenhum romance é mais importante culturalmente que uma canção pop.

A hierarquia não existe nestes diários?

É-me natural, tanto gosto de filosofia como das séries da HBO. A variedade é uma marca do diário e das crónicas.

Qual o género que prefere: crónica, poesia ou diário?

A poesia é onde o grau de satisfação é muito maior. Crónicas escrevo todas as semanas, diários houve alturas em que escrevi todos os dias, mas um poema aparece quando aparece.

Como surgem os diários?

Tomo muitas notas, no entanto há uma massa de textos que não chegam lá.

Que temas ficam mais de fora?

As coisas que perderam o interesse ou que nem fazem sentido por serem cifradas e só se compreendiam na altura.

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