Martin Landau: o homem das mil caras

Hitchcock lançou-o no grande ecrã, mas Martin Landau será sempre conhecido pela série televisiva Missão Impossível.

"Está tudo nos olhos, na voz, nas mãos...", disse Bela Lugosi sobre a sua personagem de Drácula. Ou melhor, disse-o Martin Landau, o ator que morreu no sábado, aos 89 anos, em Los Angeles, e que interpretou essa lenda injustiçada no filme Ed Wood (1994), de Tim Burton. E se Lugosi nunca ganhou o Óscar, a verdade é que Hollywood não pôde fechar os olhos ao desempenho de Landau na pele do húngaro, entregando-lhe a estatueta dourada ao fim de três nomeações, na categoria de ator secundário.

Um eterno secundário no cinema a quem, precisamente, nunca faltou charme nas interpretações muito devido à combinação dos seus olhos azuis com o timbre de voz e o uso das mãos, ou não tivesse ele sido também o mestre do disfarce na série televisiva Missão Impossível. Percebe-se por isso a sua célebre recusa do papel expressivamente monótono de Mr. Spock, nas primeiras escolhas para Star Treck.

Nascido numa família de imigrantes judeus, em Brooklyn, a 20 de junho de 1928, o ator que desapareceu na sequência de súbitas "complicações" de saúde e que ainda marcava presença no grande ecrã (vimo-lo recentemente em O Número, de Atom Egoyan) deixa para trás uma carreira dividida entre o cinema e a televisão, embora a primeira experiência profissional tenha sido na imprensa.

Com efeito, Martin Landau trabalhou como cartoonista no jornal New York Daily News, começando aos 17 anos e desistindo ao fim de cinco, quando seria promovido (decisão que arreliou muito a mãe por significar um futuro incerto para o filho, depois da garantia de um lugar seguro à secretária).

Grande apreciador de Charles Chaplin, Landau atirou-se de cabeça e em 1955, juntamente com Steve McQueen, era selecionado para integrar o famoso Actors Studio, em que conheceu e namorou Marilyn Monroe, e mais tarde foi professor de talentos como Jack Nicholson, Anjelica Huston e Harry Dean Stanton. No mesmo ano morreu-lhe o melhor amigo, James Dean, que havia conhecido numa das audições que fizera para TV.

Ao fim de algum tempo de Broadway e aparições no pequeno ecrã, Landau estava pronto para ver a sua figura ampliada. 1959 é o ano da estreia no cinema, que será lembrada por Intriga Internacional, de Hitchcock, depois de um pequeno papel no drama de guerra de Lewis Milestone, Pork Chop Hill. Mas as participações em séries televisivas nunca deixaram de marcar o seu percurso. Tanto que fez de general Rufio em Cleópatra (1963), de Mankiewicz, e entrou em A Maior História de Todos os Tempos (1965), por entre episódios de várias dessas séries. A mais importante foi a já referida Missão Impossível (1966-69), que lhe cimentou a fama como o "homem das mil caras" Rollin Hand, seguida de Espaço: 1999 (1975-77), sempre acompanhado pela então sua mulher, Barbara Bain.

Embora não tivesse largado o cinema nesse período de estrelato na televisão, foi só na década seguinte que os papéis dignos de Martin Landau chegaram. Francis Ford Coppola foi o primeiro a acender essa luz, quando o convidou para Tucker: O Homem e o Sonho (1988), em que na personagem do financiador de um carro de design revolucionário dá sinais de um certo pesar em relação ao passado como se vida e ficção se confundissem.

Mas foi verdadeiramente em Crimes e Escapadelas (1989), de e com Woody Allen, que lhe sentimos a gravidade no papel do atormentado oftalmologista Judah Rosenthal. Nomeado para o Óscar em ambos os filmes, sempre como secundário, foi à terceira, como Bela Lugosi, em Ed Wood, que o levou com ele.

Apareceu pela última vez no grande ecrã em The Last Poker Game - título sugestivo -, ainda não estreado entre nós. Mas é com a memória de um Drácula amargurado que ficamos. Citando-o: "Bullshit! I"m ready now! Roll the camera!"

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