Marion Cotillard abriu o festival com um passo em falso

Deceção estrondosa o filme de abertura (fora de competição), Les Fantômes d"Ismaël, de Arnaud Desplechin

Será que é de propósito que o maior festival do mundo escolhe um filme problemático para a abertura da edição que celebra os seus 70 anos? Se não o é, parece. Abrir a seleção oficial com Les Fantômes d"Ismaël (já comprado para Portugal), de Arnaud Desplechin, é um ato de provocação. O filme foi ontem recebido com uma frieza solene na sessão de imprensa e cedo se percebeu que vai haver um enorme pé-atrás com a nova obra do cineasta de Reis e Rainha.

A ação passa-se em diversas áreas temporais e narra as atribulações de um cineasta (Mathieu Amalric) que está prestes a começar a rodagem de um filme de espiões. Tudo descarrila quando a sua ex-mulher (Marion Cotillard) aparece 20 anos depois e compromete a sua relação com a atual namorada (uma Charlotte Gainsbourg inacreditavelmente sem carisma...). Desplechin continua a filmar lindamente corpos e movimentos, mas aqui parece sem inspiração nos diálogos e na metodologia dos truques de câmara. É como se estivesse demasiado fascinado com as suas pequenas brincadeiras de fechar o ecrã em zooms idiotas e ainda acreditasse no valor aleatório do charme dos casos de amor absurdos. Obviamente, está a filmar a sua vida, obviamente o seu alter ego Dedalus (aqui um Louis Garrel em bom plano) anda por lá, mas já nada é novidade. Não será muito difícil de admitir que pode ser realmente o seu pior filme.

Voltemos então ao golpe de teatro: por que razão está a abrir o Festival de Cannes? Hipótese mais óbvia: para criar debate, sobretudo porque esta versão não é do realizador, que tem em apenas num cinema de Paris uma versão maior (o Le Monde recusou fazer crítica da versão que vimos em Cannes, preferiu da grande). Aliás, Les Fantômes d"Ismaël chegou ontem também às salas francesas (em Portugal, a Leopardo Filmes vai preferir a mais extensa). O certo é que mesmo com mais sequências e minutos, não há salvação possível para um filme virado para a ordem do aleatório. Também é provável que o diretor artístico de Cannes queira ter aberto com um "red carpet" recheado do star power mais nobre em França. É muito provável.

E se devido à história da polémica com a Netflix Cannes já merece uma mudança de nome para Cannesflix, a conferência de imprensa do júri ainda ajudou mais. Os jornalistas presentes obrigaram Pedro Almodóvar, o presidente do júri, a tomar uma posição. O cineasta espanhol chegou mesmo a ler uma cábula sua onde argumentava que as novas plataformas digitais têm de se ajustar às regras de regulamentação europeia, chegando mesmo a dizer que podem pôr em causa a sobrevivência da indústria de cinema. Almodóvar disse ainda que seria irónico se a Palma de Ouro fosse para um filme que nunca será visto em sala de cinema. Dessa forma, deduz-se que as duas produções da Netflix, The Meyerowitz Stories (New and Selected), de Noah Baumbach, e Okja, de Bong Joon Ho, não devem ter muita sorte no palmarés.

Will Smith, outro dos jurados, foi mais apaziguador: "Os meus filhos em minha casa são a prova de que a Netflix não tira público às salas. Vão duas vezes por semana ao cinema e no resto do tempo veem cinema na plataforma."

Hoje, passa numa sessão especial Sea of Sorrow, de Vanessa Redgrave, documentário sobre a sua atividade humanitária junto aos refugiados. Uma pequena desgraça que tecnicamente é de um amadorismo escandaloso.

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