Lisboa contada sobre rodas num passeio à beira-rio

Cerca de 12 quilómetros sobre duas rodas, percorrendo as mudanças à beira-rio.

De Santa Apolónia ao Padrão dos Descobrimentos pedalam-se quase 12 quilómetros, driblando obras e histórias com 800 anos. A proposta é da Europcar, assinalando Dia Internacional de Monumentos e Sítios. Foi na terça-feira, o passeio fez-se na quarta-feira, mas o que importa é este fim de semana. Sábado e domingo, às 11.00 e às 15.00, grupos de quinze pessoas podem fazer-se à ciclovia (verdadeira ou improvisada), gratuitamente, bastando para isso inscrever-se na página de facebook da empresa de aluguer de carros e duas rodas. Luís Maio, jornalista especializado em viagens, fundador dos passeios pedestres Lisbon Art & Soul, é o cicerone.

Santa Apolónia, encruzilhada

A introdução faz-se com os cruzeiros atracados, meio escondidos pelos tapumes das obras do futuro terminal, da autoria do arquiteto Carrilho da Graça, e a estação de Santa Apolónia, inaugurada em 1865, no campo de visão. Os navios hão de fazer chegar 6 mil pessoas à cidade, os comboios, apesar de já não serem como antes da abertura da Estação do Oriente, ainda fazem mais de uma centena de ligações. D. Fernando mandou construir uma muralha no século XIV. Marquês de Pombal manda destruir em 1775. Passam 20 anos do terramoto, a cidade sonha com a inauguração. No topo da colina, a fundição produz a estátua de D. José, destinada ao Terreiro do Paço. "Para a fazer sair a estátua, "o Marquês de Pombal manda romper o pano de muralha", conta Luís Maio. "A estátua levou três dias a chegar ao Terreiro do Paço".

Chafariz d" El Rey, o do quadro falso afinal verdadeiro

Atravessamos as obras do terminal e, pedalando paralelamente ao rio, mas por dentro, junto ao museu do fado, chegamos ao Chafariz D"El Rey. Fala-se dele desde o século XIII. E no século XV já tem seis torneiras, cada uma para sua classe. "Homens brancos, mulheres brancas, raparigas não casadas, índias e escravas, raparigas não casadas brancas", elenca Luís Maio. É o mesmo do quadro do final do século XV, que esteve no centro da polémica sobre a sua autenticidade na exposição "Cidade Global", do Museu de Arte Antiga.

O que, por estes dias também chama a atenção por estes dias é o edifício sobre o chafariz. Foi um palácio, veio a ser comprado, em ruínas, por um português que fez fortuna no Brasil que o remodelou neste estilo que junta mourisco e gótico e outras influências. Foi tão mal recebido à época, 1915, que, dois anos depois, "uma comissão de bom gosto queria destrui-lo".

Terreiro do poder

Com as bicicletas no descanso, ouve-se falar pela primeira vez de D. Manuel II, o rei que tirou o palácio das Alcáçovas e construiu o Paço da Ribeira. "A Avenida da Liberdade, era uma ribeira, a Ribeira de Valverde", contextualiza Luís Maio. Em 1505 está pronto. "Nos dez anos seguintes constrói-se a torre de castelo. O rei sai do palácio, pela galeria, diretamente ao torreão". Vê o rio e o fervilhar da cidade. "No início do século XVI, Lisboa é a cidade mais dinâmica e exótica", prossegue. Há paradas com elefantes, cavalos persas... "Aparecem todo o tipo de produtos que o Ocidente não via há muito tempo". Damos um salto no tempo, passamos as melhorias dos arquitetos dos Filipes e chegamos a D. João V, que manda construir a Sé Patriarcal, e a D. José, que ordena a Ópera do Tejo, inaugurada seis meses antes do terramoto de 1755. Com Marquês de Pombal a praça é à francesa. O arco da Rua Augusta aparece 100 anos depois.

Ribeiras das Naus, ganha ao rio no século XX

No relvado que é hoje a Ribeira das Naus, Luís Maio faz nova paragem, lançando uma data surpreendente. Até 1938 havia aqui água, não passavam carros, eram construídos barcos como nos tempos de D. Manuel. Esta era a zona do estaleiro das naus. A requalificação, já no século XXI, quis mostrar a estrutura que vem do tempo de D. Manuel I.

Entre São Paulo e Santos, não tão limpo como hoje

De novo sobre rodas, pisamos o poema de Alberto Caeiro, Guardador de Rebanhos, passamos a estação do Cais do Sodré, obra de Pardal Monteiro nos tempos de Duarte Pacheco à frente das obras públicas, e só paramos diante da nova sede da EDP, obra dos arquitetos Manuel e Francisco Aires Mateus. A nova zona de negócios da cidade era onde se Lisboa despejava as suas "imundices". "As escravas calhandreiras andam nas casas a recolher todas as imundices. Entre São Paulo e santos despejam os detritos."

Alcântara, revolução industrial

Alcântara era limite de Lisboa a ocidente como Santa Apolónia a oriente. Até ao século XIX havia pomares e quintas. Até que se instalam as fábricas. "São 25 em meados do século XIX. Trabalham 1200 homens, 800 mulheres e 400 crianças menores de 18".

Belém, zona chique

"D. João V compra seis quintas em Belém e faz um palácio de veraneio", conta Luís Maio na paragem junto ao Terreiro das Missas, de frente para o palácio da presidência da República. D. José estava aqui quando se deu o terramoto, D. Carlos vive no Palácio de Belém. A República toma-o após o 5 de outubro.

Padrão dos Descobrimentos, a obra que Salazar pediu

Última paragem: Padrão dos Descobrimentos, entre o Centro Cultural de Belém e o Museu dos Coches, palco da exposição do Mundo Português de 1940, um "Disneylândia de Portugal", como lhe chama Luís Maio. Feitos de madeira e gesso, os edifícios não resistiram ao ciclone de 1941. Nem mesmo o Padrão dos Descobrimentos. Desses tempos, sobraram a atual sede da associação naval e, muito transformados, o Espelho de Água e o Museu de Arte Popular. O Padrão voltaria em 1960, para assinalar os 500 anos da morte do Infante D. Henrique. Sem querer gastar dinheiro, Salazar pede que se refaça o monumento da exposição da autoria de Cotinelli Telmo com estátuas de Leopoldo de Almeida. Tem 33 figuras. D. Henrique ao centro, 16 de cada lado (Pedro Hispano foi acrescentado nesta versão). As bicicletas arrumam-se, a viagem terminam. Três horas a pedalar mil anos de história.

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