"Estou a fazer um filme sobre mim. É uma chatice porque já sei tudo"

Hojé é dia de festa nos Artistas Unidos. Passam 20 anos sobre a estreia de António, Um Rapaz de Lisboa. Jorge Silva Melo, o encenador e ator foi crítico e jornalista, trabalhou em cinema, tem uma série de documentários sobre artistas plásticos. É um solitário que adora estar acompanhado por muita gente

No dia 15 de março de 1968, Jorge Silva Melo acordou na prisão de Caxias, foi libertado à hora do almoço, leu no jornal que Jacques Tati estava em Lisboa, correu desengravatado e careca para a embaixada de França e foi adotado instantaneamente pelo realizador de Playtime.

No dia seguinte, às 8 da manhã, Jorge entrevistou Tati no Hotel Ritz. Estas 24 horas têm mais que se lhe diga, como se verá adiante, mas poderiam ser a metáfora de uma vida variada e aventurosa. Este homem de Lisboa que criou os Artistas Unidos há 20 anos é enciclopédico, dado ao teatro, evidentemente, e também ao cinema, às artes plásticas, à literatura e à música.

Junta tudo isto nos documentários que continua a realizar. Explica que gosta de fazer grandes produções, ele que tem uma pequena sala com 70 lugares, e de estar no meio de muita gente, ele que vive sozinho.

Hoje há festa nos Artistas Unidos, com teatro e comidas e bebidas e baile e muitas conversas. Amanhã retoma os ensaios de Os Jogadores, do catalão Pau Miró, a montagem de uma exposição de desenhos de Sofia Areal, e a tarefa demorada de fazer um filme sobre ele próprio, coisa maçadora porque já sabe tudo, não tem surpresas. Enfim, tudo isto para dizer: "Ainda não acabámos".

É um homem do teatro mas também do cinema.

Comecei a fazer crítica de cinema no Diário de Lisboa aos 14 anos. Que convencimento... Dois anos depois, o João Bénard da Costa convidou-me para escrever sobre cinema n" O Tempo e o Modo. Entretanto fiz teatro universitário. Mais tarde, fiz escola de cinema em Londres, como bolseiro da Gulbenkian.

Trabalhei em cinema, com o António Pedro de Vasconcelos, o Seixas Santos, o João César Monteiro, o Paulo Rocha. Mas depois deixou de haver filmes, fiquei a viver de traduções. O Luís Miguel Cintra tinha estudado teatro em Inglaterra, quis fundar a Cornucópia, vamos lá a isso. A mim interessava-me era estar com outras pessoas.

Durante seis anos estive na Cornucópia e depois voltei ao cinema. Ainda vivi uns anos a trabalhar em cinema e a ser professor. Depois fui estrangeirado, trabalhei em França e na Alemanha como ator, com o Jean Jourdheuil. Ia todos os anos para fora fazer quatro meses da minha saison parisiense ou berlinense.

Mas acabou por fixar-se cá.

Quando estava a fazer um filme chamado Coitado do Jorge, descobri dois jovens atores, o Manuel Wiborg e a Joana Bárcia, absolutamente extraordinários, novíssimos, com 20 anos. E pensei: estou a perder um grande momento deste país, uma nova gente com uma energia, uma disponibilidade, um à vontade que eu não tinha aos 20 anos, quero vê-los crescer. Resolvi ficar cá e não foi nada fácil, estive quase dois anos no total desemprego, vivendo do dinheiro que tinha ganho como ator em França. Ninguém me queria.

Isso foi em que altura?

Entre 1991 e 1993. Foi então que Lisboa 94 me convidou para fazer uma série para a televisão de quatro episódios e eu escrevi dois episódios e meio daquilo que viria a ser António, um Rapaz de Lisboa.

A história tinha de ser circular, não havia mortes nem casamentos, nada de definitivo: uma mãe, dois filhos, namoradas várias. Era o que a juventude da altura vivia. Ninguém tomava decisões, ninguém se definia, havia um prolongamento permanente da adolescência, ninguém morria nem o pai almoçava. Quis descrever esse impasse.

Como quase sempre acontece, gostaram muito, ou seja, não se fez a série. Acabou por ser uma peça de teatro, produzida pela Yvette Centeno com muito pouco dinheiro. Estreámos em 18 de setembro de 1995.

Leia mais pormenores na edição impressa ou no e-paper do DN

Últimas notícias

Conteúdo Patrocinado

Mais popular

  • no dn.pt
  • Artes
Pub
Pub