"Espero que o ego não o coma"

Salvador Sobral numa sessão fotográfica do Ídolos

Salvador Sobral fica na memória. Dos organizadores dos concursos de TV, dos músicos com quem tocou e da escola de música que frequentou em Barcelona, cujo fundador diz que ele chegou lá "já noutro lugar, no lugar da arte".

"Ele queria saber a teoria, porque quando chegou aqui já sabia muito. Tem uma intuição musical brutal e mesmo sendo muito jovem tinha uma grande maturidade artística. Sabe perfeitamente o que é importante na música e o seu desejo desde sempre foi ter a sua voz própria. É um artista, não se pode tratar só como intérprete. Os professores que tinham contacto com ele encantavam-se. Percebíamos que ele queria aprender e pusemo-nos à sua disposição. A escola está muito agradecida por ele nos ter escolhido. Foi uma bênção tê-lo cá, um anjo que aterrou aqui."

Lluis Cabrera, 63 anos, é o fundador da escola Taller de Músics, onde Salvador Sobral estudou entre 2013 e 2015 - entre os 23 e os 25 anos - depois de, de acordo com a sua biografia oficial, ter passado algum tempo em Palma de Maiorca a tocar em hotéis e bares. Cabrera fala com o DN na semana seguinte à vitória do ex-pupilo na Eurovisão. "Surpreendeu-me muito mas suponho que também os dirigentes do festival perceberam que era preciso premiar a qualidade e não a superficialidade." Reconhece que, face às ambições artísticas "sérias" de Salvador, "é um pouco paradoxal ele ter concorrido ao festival." Mas, prossegue, "cuidado, porque a canção é arriscada. Os dirigentes da Eurovisão foram recetores de algo muito grande. Por fim, havia um país que apresentava um artista que faz música criativa e, porque o festival está muito desprestigiado, o que ele fez foi prestigiá-lo. E provou-se que é possível, num mundo mercantilizado, numa sociedade líquida como a nossa, fazer boa música e agradar a muita gente."

O ex-aluno trazia já, ao chegar à escola, "a sua musicalidade", fruto de "um talento inato": "Quando recebemos um candidato fazemos uma prova teórica e prática e coloca-se o aluno no nível correspondente. Mas com ele foi difícil colocá-lo no nosso programa de estudos, porque estava já noutro lugar, no lugar da arte. Pusemo-lo num programa específico." Aliás, apesar de certificar que a escola "não é muito cara", assegura ter dito a Salvador, de quem não sabe se "é pobre, médio ou rico", que podia ir às aulas sem pagar.

"É um músico por inteiro"

Descrita pelo diário espanhol El Mundo como "ponto de encontro de artistas de todas as tendências, estilos e nacionalidades e atuando como um libertário e atípico centro de formação musical e agitação cultural", a Taller de Músics existe desde 1979 em Barcelona, no bairro de Raval, e é um estabelecimento privado que desde 2009 foi reconhecido pelo governo autónomo como escola superior na especialidade de música moderna e jazz. Uma escola especial, que usa o jazz como "método pedagógico" e simultaneamente gere um clube, organiza concertos e grava discos: "Sempre achámos que, além de dar formação aos nossos alunos, tínhamos também de gerar uma oferta contínua de trabalho para eles; levar as aulas para o palco", explicou Cabrera numa entrevista ao El Mundo. Ao DN, revela que quando se sabia que Salvador Sobral ia atuar nas jam sessions do clube da escola havia mais público. "Temos vídeos incríveis no YouTube dele a atuar no nosso clube."

Cabrera, a quem Salvador falava da irmã Luísa como grande referência - "Ele dizia "tu és Luís e ela é Luísa", estava sempre a falar dela" - faz questão de dizer que o atual programa de estudos da Taller foi desenvolvido por um compositor e músico português, o contrabaixista e pianista José Eduardo (conhecido por Zé Eduardo), fundador e diretor da escola de jazz do Hot Club de Portugal que esteve na escola catalã entre 1984 e 1990 como diretor pedagógico. E foi aí, no Hot Club, que Salvador conheceu Júlio Resende, o pianista que com ele toca e que com ele gravou (e coproduziu) o disco Excuse Me, lançado em 2016. "Conhecemo-nos numa jam session lá, há uns três anos. Tocámos uma canção juntos e correu bem. Começámos a fazer ensaios em casa e como o Salvador tinha canções trabalhadas para fazer um disco trabalhei com ele a parte de produção e arranjos e na direção da banda. Ele não conhece só a parte de cantar, é um músico por inteiro." Resende, que prefere não dizer a idade, tinha já vários discos editados quando conheceu Salvador. Não se recorda se a primeira canção que interpretaram juntos foi o I fall in love too easily, tornada famosa na voz de Sinatra mas que é também um clássico do trompetista e cantor de jazz Chet Baker, um dos ídolos de Salvador. "Pode ter sido essa." Mas se a canção exata não ficou na memória, Resende, grande admirador de Amália, sabe o que o fez conectar com Salvador: "O que me impressionou foi sobretudo a entrega, a expressividade e o modo emocional como se entregava à canção. Achei inesperado o facto de ser um homem a cantar, que é uma coisa mais rara. E alguém tão concentrado na parte emocional de fazer música e ao mesmo tempo dominando a parte mais erudita. Porque é um estudioso da música mas está mais interessado em expressar a emoção." Quanto a se o "estilo" ou "definição musical" de Salvador se inscreve no jazz, o pianista encolhe os ombros: "Acho que ele é sobretudo uma pessoa ultracriativa e o jazz permite que as pessoas criativas se expressem muito livremente."

Como Cabrera, Resende começou por encarar a participação de Salvador no festival com apreensão. "Antes de saber que havia um novo formato fiquei um bocado assustado, confesso. Mas ele acabou por ser uma bomba lançada no festival. Todos os cânones daquilo que era a Eurovisão foram postos em causa. Se vão ser alterados, vamos ver na próxima edição." A ver, também, o que subsistirá do êxito instantâneo de Salvador e do seu efeito, por exemplo, na venda do disco que fizeram juntos, assim como nos convites para espetáculos (vão tocar os dois em vários festivais de verão): "O disco foi lançado há um ano e praticamente não teve efeito. Vejo com alegria que é um fenómeno agora."

Da fama e do vazio

Da efemeridade deste tipo de fenómenos o próprio Salvador já falou. Conhece-os, da sua passagem pelo Ídolos, aos 18/19 anos, quando frequentava o curso de Psicologia. Frederico Ferreira de Almeida, diretor da produtora do programa, a Freemantle, reconhece que os concorrentes caem no vazio depois das alturas de uma grande exposição mediática: "Ganham-na de um dia para o outro e perdem-na também de um dia para o outro. Por esse motivo é que quando chegamos a uma certa fase em que estão uns 50 candidatos os reúno e digo que o momento para desistirem é aquele, porque mesmo que ganhem isso não fará deles cantores, que a seguir é preciso muito trabalho e uma travessia do deserto." Algo que vê no percurso de Luísa Sobral (que também entrou no concurso e também não o venceu) e do irmão. "Já conhecia a família, a mãe trabalhou no meio [que entretanto abandonou, para se dedicar à confeção de roupa] e o Salvador é muito amigo de um dos meus sobrinhos. Mas de facto ele destacava-se pela personalidade, por aquele ar blasé, descontraído." Que pode ser interpretado como arrogância - aliás, o júri do Ídolos acusou-o disso -, observação que o diretor da Freemantle não acompanha. "Esse cool faz parte da personalidade dele. E havia outra coisa diferente, a cultura musical. Mais jazzy do que a dos outros, não seguia as tendências, era mais para trás. Gostava de Beatles, por exemplo. Claro que isso depende muito da família, do que se ouve em casa." E em casa, Salvador e a irmã tiveram um pai melómano e baterista (no que o filho lhe seguiu as pisadas, também toca bateria).

Mas, apesar de todas as suas qualidades, Salvador não ganhou. "Foi uma edição com gente muito forte. Ficou entre os cinco finalistas. E disse que ter ido até ali ou ficar até ao fim era igual." Talvez perder, no entanto, tenha surtido algum efeito. Isso e, acha Frederico Ferreira de Almeida, a doença. "Acrescentou qualquer coisa, algo que não existia antes, quando esteve no Ídolos. A qualquer coisa mais que os artistas têm quando são bons - a capacidade de emocionar."

Virá disso a "alma especial" que Lluís Cabrera lhe reconhece e que, espera, o êxito não estrague? "Ele aqui no Taller era uma pessoa humilde, simples e humilde, nunca senti que fosse arrogante. Mas a fama e o êxito podem mudar as pessoas. Pedir-lhe-ia que mantenha os pés na terra, que se mantenha preocupado com os problemas sociais, as injustiças do mundo, que continue a ser a pessoa que conhecemos. Que o ego não o coma."

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