Convento de São Francisco abre como lugar de cultura

Projeto do arquiteto Carrilho da Graça

Autarquia abre equipamento e quer "ombrear" com CCB e Serralves. Com menos orçamento mas com "engenho e arte" assume o presidente da câmara, Manuel Machado

A partir do próximo fim de semana nada vai ser como dantes, na cidade dos estudantes. O imponente edifício do Convento de São Francisco está (quase) pronto para receber os grandes nomes da cena nacional e internacional que fazem a programação de abril, maio e junho, entre as várias áreas artísticas. Do teatro à dança, passando pelo novo circo, cinema, exposições, ilustração, artes digitais e música vão passar por ali, num conjunto de salas e auditórios com capacidade para cinco mil pessoas em simultâneo. Mão Morta & Remix Ensemble (16 de abril), Pedro Burmester e Mário Laginha (22 de abril), TAO Dance Theatre (25 de abril), Takami Nakamoto e Sebastien Benoits (20 e 21 de maio), Michael Nyman (14 de maio), Benjamin Clementine (3 e 4 de junho) e Maria Rita (25 de junho) são alguns dos nomes sonantes que fazem parte da programação do Convento de São Francisco até junho deste ano.

Mas é sobretudo de emoções que se vai fazer a reabertura do espaço, na próxima sexta-feira, com a peça de teatro Os Bichos, baseada na obra homónima de Miguel Torga, que estará em cena nos dias 8 e 9 de abril. A peça será reproduzida pela companhia artística O Bando, tal como aconteceu há 26 anos, então na Igreja de São Francisco. "Muitos atores são ainda os mesmos daquela época. É um espetáculo marcante na vida cultural da cidade de Coimbra", disse João Aidos, consultor da Câmara Municipal para a área da programação. Apesar de não estar criada a figura de um diretor do espaço (que ficará sob a alçada do município), será ele o rosto do Convento, que tem adstrito uma equipa com cerca de 40 pessoas. "A diferença é que, desta vez, não terá lugar num único espaço, mas sim em vários locais do Convento, permitindo que os espectadores conheçam e se familiarizem com todo o equipamento", sublinha a vereadora da Cultura, Carina Gomes. O espetáculo será de entrada livre, embora seja necessário fazer pré-reserva do bilhete. De resto, o espaço abre ainda sem bilheteira online, um atraso que a Câmara de Coimbra conta resolver "dentro de uma semana".

"Nova centralidade"

"Este complexo é dos poucos em Portugal que une as características de grande sala de espetáculos, grande área de exposições e de grande centro de congressos", disse o presidente da Câmara, Manuel Machado, ontem à tarde, na apresentação à imprensa. O autarca acredita que está a desenhar-se "uma nova centralidade cultural em Portugal", ele que se assume como opositor do conceito de "estratégia cultural, que é uma heresia e uma perversidade". "Isso é ser controleiro da cultura. E o que nós temos de ser é impulsionadores", sustenta Manuel Machado, sem esconder alguma pressa que tinha em reabrir um espaço que estava em obras há muitos anos, com custos na ordem dos 42 milhões de euros. "Está aqui dinheiro do povo e é preciso pôr isto a funcionar", disse.

O orçamento inicial do Convento de São Francisco estima-se num milhão e meio de euros, valor muito inferior aos 17 milhões do Centro Cultural de Belém (CCB) e dos oito milhões de Serralves, com que a Câmara de Coimbra quer ombrear, "sem falsas modéstias ou ambições desmedidas".

"Ficamos felizes com o êxito do CCB ou Serralves, mas estamos para competir", assegurou o presidente da Câmara. Para o responsável, se CCB e Serralves "contribuíram" para notabilizar Lisboa e Porto, então o Convento "servirá para valorizar Coimbra como centro cultural que é há muitos séculos".

Como é que Machado pensa concorrer com ambos, sem equipa ainda formada nem verba equivalente? "Com engenho e arte. Mais importante do que ter dinheiro é ter crédito", responde o autarca, orgulhoso do equipamento de som e multimédia, "da concha acústica" e dos congressos que já conseguiu atrair para o espaço, neste ano e no próximo.

No entanto, por Coimbra corre um misto de satisfação e desagrado, nomeadamente entre os agentes culturais da cidade e os hoteleiros. Os primeiros têm vindo a manifestar publicamente o lamento de não serem ouvidos para construir o projeto, os segundos porque há uma parte da cidade universitária que se sustenta também através dos congressos.

PROGRAMAÇÃO

8 e 9 de abril.
Os Bichos, Teatro O Bando,

10 de abril
Grão de Bico, o Teatro o Bando

16 de abril
Photomaton, de Fernando Mota

17 de abril
NANA NANA, de Carla Galvão e Fernando Mota

15 de abril
"António e Maria", da companhia Teatro Meridional

15 e 16 de abril
Dança para os mais novos, com o projeto "Cara", de Aldara Bizarro (15 e 16 de abril)

14, 15 e 16 de abril
"A Recompensa", de Arthur Duarte

16 de abril
Mão Morta & Remix Ensemble - 16 de abril

17 de abril
Josephine Foster vai trazer o folk ao Convento, um género musical que será depois explorado por Joana Guerra.

22 de abril
Pedro Burmester e Mário Laginha

25 de abril
Dança - Tao Dance Theatre

De 26 de abril a 1 de maio são dias dedicados às artes circenses, com uma Mostra Internacional de Novo Circo.

14 de maio
Michael Nyman

21 de maio
Quinteto Sandro Norton com Gary Burton

3 e 4 de junho
Benjamin Clementine

25 de junho
Maria Rita

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