Cartas trocadas entre Saramago e Jorge Amado vão dar um livro

Saramago com Amado (e José Cardoso Pires, ao meio) em Portugal, foto do arquivo DN

Com o Mar por Meio reúne faxes enviados de Lisboa para Salvador, de Paris para Lanzarote. Lançamento será na FLIP

Jorge Amado e José Saramago - Com o Mar por Meio é uma curta mas tocante troca de inconfidências e agrados entre dois dos maiores autores da língua portuguesa do século XX. A reunião e seleção da correspondência será lançada oficialmente na sexta-feira, já madrugada de sábado em Portugal, na Casa José Saramago, em Paraty, cidade sede da FLIP, feira internacional de literatura que começa hoje. Paloma Jorge Amado, filha do escritor brasileiro, e Pilar del Río, mulher do autor português, estão à frente da iniciativa.

"Foi uma explosão de alegria", contou Paloma a propósito do momento em que acordou os detalhes do projeto com Pilar após uma rara coincidência de vontades. Os pesquisadores da Fundação Casa de Jorge Amado, no Largo do Pelourinho, centro histórico de Salvador onde está o acervo do autor de Gabriela, Cravo e Canela, já estavam a ocupar-se de digitalizar cartas enviadas por Saramago a Amado com vista a publicar um livro quando Pilar entrou em contacto por telefone. A jornalista espanhola propôs que as duas famílias montassem uma casa na FLIP para discutir essa, ainda pouco conhecida, troca de correspondências. Juntou-se o útil ao agradável: além do livro editado pela Companhia das Letras, as cartas do português e do brasileiro estarão em debate na feira literária da cidade a poucos quilómetros do Rio de Janeiro.

Saramago e Amado conheceram-se em 1990, o primeiro com 68 anos e o segundo com 78, no júri do prémio da União Latina, em Roma. A partir do ano seguinte, quando foram novamente jurados, intensificaram a relação, desenvolveram uma amizade e encontraram um objetivo comum: que o Prémio Nobel viesse um dia parar às mãos de um autor de língua portuguesa.

A primeira carta trocada entre ambos, assinada unicamente "José" em Dezembro de 1992 já fala do tema. A última, assinada por "Jorge", mas também pela sua mulher Zélia (a escritora Zélia Gattai) e por Paloma, filha de ambos, data de 8 de Outubro de 1998 e é exatamente a congratular o português pela conquista do prémio da academia sueca. Conta Paloma que "na época, o papai vivia fechado em si, pesaroso pelo enfarte e principalmente pela perda de visão, por isso ficava no seu cadeirão de olhos fechados". "Mas", continua, citada pelo Estado de São Paulo, "quando José venceu, contei-lhe e ele imediatamente abriu os olhos, foi pegar o champanhe e disse eufórico "vamos escrever-lhes um fax"".

O meio usado para a maioria das correspondências foi, de facto, o fax, hoje obsoleto mas à época uma forma demasiado moderna de comunicação entre os dois já anciãos autores. Num dos faxes trocados entre Salvador e Paris, as cidades da família Amado, e Lisboa e Lanzarote, as moradas dos Saramago, o escritor baiano conta, com detalhes divertidos, como o seu aparelho se assemelhou a um vulcão em chamas após uma surpreendente avaria.

Pilar e Paloma contam que a generosidade e o humor os uniram. "Eles partilhavam o mesmo espírito de generosidade num meio onde a competição dita, em muitos casos, as relações", afirma a filha do baiano. Pilar, também ao jornal O Estado de S. Paulo, acrescenta que "os dois estavam destinados a entenderem-se pelo humor, pela ironia e pela autoironia".

Mas é o Prémio Nobel o tema mais recorrente das missivas: escreve Amado, em Outubro de 1994, que "ainda não será desta vez que iremos os quatro a Estocolmo festejar o Nobel do José, um japonês [Kenzaburo Oe] atropelou-nos". Noutra ocasião, os dois ironizam sobre a possibilidade de António Lobo Antunes ganhar o prémio. Um e outro demonstram também sentir a pressão dos próprios países, da imprensa e até dos amigos sempre que se aproximava a data de divulgação do prémio. "Condenados por não ganhar", queixavam-se.

Jorge, segundo Paloma, sabia que jamais ganharia por, defendia, existirem "escritores mais velhos e com idênticas opções políticas à sua frente", mas mesmo assim suportou a pressão "às vezes infernal" de ser sempre citado ao longo de 30 anos. Já Saramago venceu mesmo e no discurso da vitória dedicou o prémio "aos escritores em língua portuguesa, os contemporâneos e os do passado".

Em São Paulo

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