Aves, gatos e outros animais bordalianos em Paula Rego

Os “híbridos” - plantas e animais com traços humanos - são uma constante em Paula Rego e em Bordado Pinheiro

Exposição "Diálogos Imaginados, Rafael Bordalo Pinheiro e Paula Rego" mostra como a obra destes dois artistas tem imensas confluências. Para ver no Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa.

Sentada no seu ateliê, rodeada de telas e filmada pelo filho, Nick, Paula Rego lembra para a câmara como, em casa da avó, havia uma parede com pratos de Bordalo Pinheiro. "Os pratos tinham animais e eu queria fazer-lhes festinhas mas não podia para não os partir." O vídeo, apesar de curto, inclui imagens da artista em criança e da sua avó e é uma das preciosidades que integra a exposição Diálogos Imaginados - Rafael Bordalo Pinheiro e Paula Rego, que está patente até ao final de setembro no Museu Bordalo Pinheiro, no Campo Grande, em Lisboa.

A ideia da exposição não é original. Já em 2014 a Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, tinha colocado lado a lado a obra dos dois artistas, separada por mais de cem anos. Mas Pedro Bebiano Braga, o comissário destes Diálogos Imaginados, achou que havia ainda muito por explorar. Não só porque os pontos de vista são diferentes - Paródias partia de Paula Rego (1935), Diálogos Imaginados parte de Bordalo Pinheiro (1846-1905). Mas também porque, mais do que ligações temáticas, que também existem, procurou afinidades nos elementos usados por ambos. "Tentei pegar onde as Paródias tinham ficado e fazer uma continuação", explica. "A própria artista confessa que a caricatura é uma das referências no seu trabalho."

Investigador do Museu Bordalo Pinheiro, Bebiano Braga é um admirador de há muito tempo da obra de Paulo Rego. À medida que mergulhava ainda mais no universo da pintora, não parou de se surpreender. "O que encontramos não é uma relação de influência ou de inspiração, porque o mais provável é que Paula Rego não conhecesse muitos destes desenhos de Rafael. Mas há, visivelmente, uma confluência."

Veja-se o caso dos "híbridos", figuras que são animais ou plantas mas humanizadas. Os gatos, as aves, os cães, os sapos e aqueles maravilhosos legumes com mãos e braços, uma cebola a chorar (em Paula Rego), uma salsa-brava a chorar (em Rafael Bordalo Pinheiro). Na maioria dos casos, a intenção com que os artistas recorreram ao antropomorfismo é completamente distinta: em Bordalo Pinheiro trata-se quase sempre de crítica social e política, de tentar atribuir características animais a figuras públicas; em Paula Rego é muitas vezes o inverso, a humanização de animais, e estamos perante um universo mais onírico. Mas os traços acabam por ser incrivelmente semelhantes.

Há também confluências temáticas - por exemplo, as mulheres, o aborto, o travesti - mas, mais uma vez, as intenções são muito distintas. "A partir do jogo de elementos comuns, ambos constroem narrativas próprias", escreve Pedro Bebiano Braga na folha do programa do museu. E na sua pesquisa o comissário teve ainda a agradável surpresa de encontrar citações que Paula Rego fez de Rafael Bordalo Pinheiro. Uma delas já tinha sido identificada - o prato com lagosta que está retratado em A Sereiazinha - mas as outras duas tinham até aqui passado despercebidas aos críticos: uma andorinha de Rafael que está em A História de Balzac e a peça Mísula Peru que está claramente presente em Primeira Missa no Brasil.

A artista, atualmente com 81 anos e a residir em Londres, esteve na inauguração de Diálogos Imaginados e surpreendeu-se, ela própria, com as confluências encontradas. A exposição tenta sempre ter duas obras de Bordalo para uma obra de Paula Rego embora, por motivos de espaço, nem sempre isso seja possível. "Havia tanto mais para mostrar e para explorar." Ficará para uma próxima ocasião.

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