Arquitetos vencedores do Mies van der Rohe: "As cidades estão a crescer de forma desigual"

Exemplo. O bloco residencial, arquitetura moderna dos anos 60, foi reabilitado com a preocupação de proporcionar habitação acessível e dar aos moradores a possibilidade de escolher os acabamentos e tipologias das suas casas

Olhar para o edificado e reabilitá-lo de forma sustentável. Esta é uma das mensagens do coletivo de arquitetos que venceu o prémio Mies van der Rohe de arquitetura. Dois dos quatro arquitetos que desenharam esta revolução, falaram ao DN.

A reabilitação de um complexo residencial dos anos 60, criando 500 apartamentos a preços acessíveis (1200 euros/m2), valeu a dois ateliers de arquitetura holandeses - NL Architects e XVW Architectuur - o prestigiado Prémio Mies van der Rohe. O edifício brutalista, em Amesterdão, estava condenado à demolição e foi "salvo" após uma onda de críticas dos cidadãos e autoridades locais. Os quatro arquitetos acabaram por criar um projeto que realça as qualidades da arquitetura e oferece casas que os moradores podem compor a seu gosto. Dois dos autores das casas faça-você-mesmo responderam às perguntas do DN. Menos de uma semana depois do anúncio do prémio, veem o mundo interessar-se pelo projeto. E ainda não sabem o que vão fazer aos 60 mil euros que vão receber na próxima sexta-feira, em Barcelona. Eis parte da entrevista, feita por email, a Kamiel Klaase, da NL Architects e Xander Vermeulen Windsant, da XVW architectuur.

O Kleiburg é um projeto que estimula a imaginação dos habitantes. Concordam?

Claro! É o reconhecimento de que muitas pessoas têm desejos e ambições específicas para as suas casas. Especialmente no desenvolvimento de casas acessíveis, que raramente é reconhecido. Porque as pessoas, quando confrontadas com o facto de apenas as casas "normais" estarem à sua disposição, são obrigadas a adaptar-se à situação e estes temas continuam esquecidos. O Kleiburg mostra que se deixares uma parte significativa do processo de desenvolvimento para os próprios moradores, acabas com uma variedade de casas que nunca terias se fossem projetadas por um arquiteto. A imaginação e os sonhos dos habitantes do Kleiburg resultaram em 500 apartamentos específicos, cada um diferente do outro.

O vosso projeto mostra um grande respeito pela arquitetura. Foi fácil encontrar a solução final? Como chegaram ao desenho final?

O projeto começo com os quatro arquitetos a fazer o reconhecimento do potencial do Kleiburg para proporcionar habitação acessível de uma forma completamente nova. Os apartamentos tinham grandes pisos e as vistas eram incríveis! Mas estas qualidades básicas estavam "escondidas" por detrás de elementos entretanto adicionados nos anos 80 e décadas de falta de manutenção. Assim desde o início, o conceito básico foi abraçar o que já ali estava. Ao mesmo tempo, reconhecemos que era necessário melhorar os aspetos problemáticos: a forma como os apartamentos individuais, mas também o Kleiburg como um todo se relacionavam com a cidade. A maioria das tentativas para renovar os pisos residenciais no Bijlmer [nome do empreendimento original] focaram-se na diferenciação. O objetivo: verem-se livres da uniformidade, humanizar a arquitetura. Para muitos, a repetição era entendida como um mal. Mas depois de três décadas de individualização, fragmentação e atomização, parece uma ideia atrativa para fortalecer a unidade: Reformular o todo! De uma certa maneira tivemos de desenhar as alterações com a mesma atitude que o arquiteto original, Fop Ottenhof, deve ter tido nos anos 60. Todas os elementos do seu desenho tinham um claro papel funcional e técnico. Tentámos desenhar todas as nossas mudanças com a mesma precisão e clareza.

O projeto vencedor é uma mensagem para a Europa e a sua herança. Como veem a evolução das cidades europeias nos últimos anos?

As últimas décadas foram uma viagem de montanha russa, económica e politicamente. Durante a crise económica, a forma como desenvolvemos as nossas cidades estagnou. De certa forma, o Kleiburg é um produto da impossibilidade de fazer as coisas da "forma normal" há cinco anos. Na ausência da possibilidade de reabilitar o Kleiburg da forma tradicional, as pessoas ficaram recetivas aos novos conceitos de desenvolvimento. Hoje, as cidades estão a crescer de forma desigual, trazendo maiores dificuldades aqueles que procuram por habitação acessível, um lugar para viver. O Kleiburg sugere um novo caminho para o proporcionar. Mostra duas coisas. Primeiro, que é possível dar novas oportunidades de habitação acessível a uma larga variedade de necessidades de alojamento pessoal, se ousares cooperar com os futuros habitantes. Segundo, mostra que o "brutalismo", a arquitetura moderna tardia, pode ainda ser muito relevante e até amada, quando é alvo de atenção apropriada e cuidada, como nós fizemos.

Acreditam que podem ter criado uma nova forma de habitar? Uma nova forma de pensar a arquitetura?

A ideia do "klushuis" (casas faça você mesmo) não é nova na Holanda, mas os projetos anteriores eram de menor dimensão. Propor este conceito num edifício com 500 apartamentos era atrevido e completamente novo. Além disso, os anteriores exemplos deste conceito nunca propuseram grandes mudanças para os espaços coletivos do edifício, como fizemos no Kleiburg. Originalmente os projetos de habitação dos anos 60 e 70 como o Kleiburg, foram desenhados com uma crença dogmática nas suas qualidades urbanísticas. Hoje muitos destes edifícios, que formam uma grande parte da oferta habitacional das cidades contemporâneas europeias, são logo descartados com uma atitude dogmática: falharam como arquitetura urbana. Nós, como equipa, trabalhámos com uma abordagem, sensível mas crítica: abraçámos as qualidades do Kleiburg, mas colocámos numa posição crítica em relação aos seus aspetos problemáticos. Isto é uma aproximação não dogmática em relação a um edifício existente desta época, é provavelmente uma nova forma de pensar sobre a arquitetura.

Se tivessem de escolher apenas uma palavra para o vosso projeto, qual seria?

Experimentar!

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