Vera Lynn. A madrinha da guerra ainda não se rendeu

Foi a voz que confortou os britânicos no maior conflito bélico do século XX. Manteve-se disponível para causas de mérito. Faz hoje, 20 de março, 100 anos.

A meio caminho entre o armistício que pôs fim à II Guerra Mundial e os dias de hoje, Vera Lynn teve direito a uma homenagem singela e significativa dos "seus pares": em 1979, a mulher que imaginamos a cantar com ruído de fundo de rajadas e bombardeamentos foi expressamente referida no épico The Wall, provavelmente a obra mais ambiciosa dos Pink Floyd e do seu líder de então, Roger Waters.

Durante pouco mais de minuto e meio, na canção Vera, esta filha do Essex, batizada como Vera Margaret Welch, está no centro das atenções. Primeiro, com a pergunta cortante: "Há aqui alguém que se lembre de Vera Lynn?"

Depois, com o apelo à memória: "Lembrem-se: ela disse que haveríamos de voltar a encontrar-nos, num dia de sol..." Por fim, com a dúvida: "Vera, o que te aconteceu?" Isto antes de se abrir espaço à lancinante Bring the Boys Back Home e à genial Confortably Numb.

Passados 38 anos sobre esse "lembrete", há mais uma via para responder: Vera Lynn festeja hoje o centenário, fez publicar há três dias uma nova coleção das suas canções, com uma abordagem orquestral inédita e com colaborações (por exemplo com os cantores Alfie Boe e Alexander Armstrong) permitidas pelas tecnologias, e admite-se como forte a hipótese de que possa bater o seu próprio recorde, estabelecido em 2009, e que diz respeito à artista mais velha a conseguir chegar ao primeiro lugar do top de vendas.

A marca em vigor foi estabelecida há precisamente oito anos, quando a cantora de White Cliffs of Dover publicou a sua autobiografia (um terceiro livro de memórias, sublinhe-se), Some Sunny Day, com o título "desviado" de um verso da mais emblemática das suas interpretações, We"ll Meet Again.

A indústria discográfica agradeceu a boleia e lançou a compilação The Very Best Of Vera Lynn, que rapidamente chegou à posição cimeira entre os mais vendidos - Dame Vera tinha 92 anos... Agora, com Vera Lynn 100 e com as tais novidades formais, os analistas admitem que esta "história interminável" conheça um novo capítulo glorioso. Aparentemente, o grande obstáculo a que esta centenária consiga mais uma proeza parece ser o novo disco de Ed Sheeran, o ruivo que surge como atual coqueluche da pop britânica e que nasceu "apenas" 76 anos depois da sua "rival" de circunstância...

As canções e as causas

Vera Lynn tem, ainda por cima, plena consciência de que a longevidade do apreço dos seus compatriotas radica em circunstâncias muito especiais, provavelmente irrepetíveis: ao chamar a si temas como We"ll Meet Again (em que se promete o reencontro, mesmo em parte incerta e sem data previsível, mas num dia de sol...), foi a sua voz que serviu de alento aos que viviam os dias nebulosos da II Guerra Mundial, sobretudo aos que eram chamados a vestir uma farda para defender a pátria.

Ouçamo-la, até para percebermos a sua impecável lucidez. Uma vez: "Nunca me considerei uma grande cantora, mas sempre dei o melhor que tinha. Tenho muito orgulho no que fiz, e que me proporcionou uma vida maravilhosa." E outra: "Recebi tantas cartas... Ainda me chegam muitas, e continuam a emocionar-me como se fosse a primeira. Sempre considerei extraordinário que aqueles homens que voltavam das frentes de batalha, onde arriscavam a vida a toda a hora, me escrevessem para agradecerem o que eu tinha feito... Era razão bastante para que eu fizesse tudo o que estava ao meu alcance para lhes agradecer a eles."

Foi mesmo We"ll Meet Again, a canção escrita por Ross Parker e Hughie Charles, que mudou a vida desta mulher, que se tornou profissional com apenas 18 anos: gravado em 1939, o ano preciso em que a tempestade bélica se abateu sobre a Europa, o tema valeu a Vera figurar no topo das preferências dos militares destacados para a Guerra, segundo um inquérito levado a cabo pelo Daily Express.

Vera Lynn assumiu na plenitude o seu papel de madrinha de guerra ao realizar e apresentar um programa radiofónico, Sincerely Yours, em que não só correspondia aos pedidos musicais dos soldados como fazia eco das mensagens enviadas pelos que estavam deslocados e assim iam dando sinais de vida às famílias e aos entes próximos. Em 1943, o título da "canção-hino" foi aproveitado para um filme, dirigido por Philip Brown: Vera dá vida a Peggy Brown, uma dançarina que descobre que pode cantar, com agrado geral, exceto do seu prometido, um compositor clássico que torce o nariz à música "popular"...

No ano seguinte, além de protagonizar mais dois filmes (Rhythm Serenade e Aconteceu de Madrugada), Vera desenvolveu a sua colaboração com o aparelho militar, apresentando-se em espectáculos para as tropas britânicas estacionadas na Índia, no Egito e na Birmânia. Curiosamente, no ano em que o pesadelo terminou (ficando as sequelas, claro), Vera Lynn estava ocupada noutra "batalha", a da maternidade - a sua filha, Virginia Penelope Ann Lewis, nasceu a 10 de março de 1945.

No pós-guerra, a dama ainda prolongou uma carreira impressionante. Em 1952, com a canção Auf Wiederseh"n Sweetheart, tornou-se a primeira artista britânica a comandar o top de vendas nos Estados Unidos.

Em 1954, o tema My Son, My Son, de que é coautora, valeu-lhe nova liderança na tabela britânica. Durante décadas - literalmente -, foi chamada como convidada especial para programas da BBC e para espetáculos patrocinados pela Família Real, que já a condecorou diversas vezes. Como a própria escreve em Some Sunny Day, a "reforma nunca foi uma opção levada a sério", porque estava demasiado ocupada com as suas causas: foi presidente do fundo de pesquisa para o cancro da mama, criou uma fundação com o seu nome para participar na ajuda às crianças vítimas de paralisia cerebral. Pelo caminho, nunca abdicou de outras convicções, algo que deixou bem claro quando, em 2009, processou o British National Party, de extrema-direita, por incluir a sua canção White Cliffs Of Dover num disco anti-imigração.

Viúva desde 1998, depois de um casamento que durou mais de meio século (desde 1941), viveu sozinha até há pouco tempo, embora tendo a filha e o genro como vizinhos. Hoje, festeja mais uma vitória e, um pouco por toda a Grã-Bretanha, vai voltar a ouvir-se a sua voz, nas versões que assinou de As Time Goes By, When You Wish Upon a Star ou A Nightingale Sang in Berkeley Square (todas recuperadas em Vera Lynn 100), mas sobretudo nos êxitos que construiu de raiz.

Fica desmentido o final apocalíptico traçado por Stanley Kubrick em Doutor Estranho Amor (1964), em que o ator Slim Pickens monta, como se de um rodeo se tratasse, uma bomba atómica que vai espalhando a destruição ao som de We"ll Meet Again e da voz de Vera Lynn. Kubrick e todos os atores principais do filme - Peter Sellers, George C. Scott, Sterling Hayden, Keenan Wynn e Pickens - morreram há muito. Só Vera ainda não se rendeu.

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