À Cachupa Psicadélica ninguém tira o negócio

Lula's, cabo-verdiano que começou no rock e que redescobriu a música do seu país, dá hoje a provar a sua cachupa no Centro Cultural de Belém

Cachupa Psicadélica é um grupo musical criado por Lula's, de seu nome Luís Gomes. E quem é este autor do Mindelo? Um pouco como o seu gosto musical: fez punk-rock só com guitarras acústicas; é entrevistado pela Antena 3, mas é a 2 que ouve. "É como a cachupa, vai tudo na mesma panela. Não consigo definir onde me deixo: em casa ouço uma música do Loreta (hip-hop) e a seguir uma dos GNR".

Aos 36 anos, Lula's está a realizar o objetivo a que se propôs há uma década, quando deixou para trás o terceiro ano do curso de Design Multimédia para se dedicar à composição e à criação artística. "Gosto da ideia de conseguir do norte-americano, "I"m gonna make it". Temos é de ter em mente que os meios têm de justificar os fins." No ano passado lançou o disco de estreia, em nome da Cachupa Psicadélica, O último caboverdiano triste. Um título que reflete uma mensagem da elevação do homem, o de imaginar o preciso momento em que não há um único compatriota contristado. "No dia seguinte só há cabo-verdianos felizes e realizados... O Voltaire tem uma dica linda no Cândido: tens de cuidar do teu jardim e esperares que o vizinho cuide do dele". Lula's reconhece que o otimismo não chega, mas "ajuda à ignição do sonho". Viver só da música foi uma opção tomada com otimismo - e que a realidade demonstrou não ser um percurso fácil. Durante oito anos recorreu ao trabalho sazonal da apanha da fruta, na região Oeste.

Foi do Mindelo para as Caldas da Rainha que Lula's viajou. Uma viagem sem bilhete de volta, para estudar na Escola Superior de Artes e Design. Da cidade e das suas gentes só guarda boas recordações. "Conhecia Lisboa e o Porto, mas não conhecia Portugal real, digamos. As Caldas deu-me o outro lado da tuga, por exemplo, o cota que faz vinho e que quer que eu prove o bagaço que produz."

Lula's mudou-se das Caldas da Rainha para a Reboleira, Amadora. Uma realidade bem diversa. "Para mim é muito importante demonstrar que um imigrante cabo-verdiano pode viver de fazer arte e eu quero passar esta mensagem vivendo lá." Uma mensagem positiva, tal como as letras (em crioulo) das canções. Lula's também quer relacionar-se com o público mais novo através do swag e criar um contexto novo para essa palavra: "O negócio é meu. Falando na língua do bairro, se a polícia vier não pode tirar o meu negócio, direitos de autor são meus. Mesmo que esteja num carro ilegal, só vou ter de explicar porque estou naquele carro, de resto a minha fonte de rendimento vai continuar a ser minha. Isto para mim é swag".

Cachupa Psicadélica é formada por Bilan e Danilo Lopes. Lula's começou a tocar com estes amigos, na adolescência - e mais tarde reencontrados em Portugal -, quando conheceu Nirvana. "Apareceu o Never Mind e a seguir o Unplugged. Aquilo bateu a sério e queria tocar." Lembrou-se da guitarra que servia como elemento decorativo em casa da irmã e nunca mais parou. A princípio eram três guitarras acústicas a tocar grunge. "Depois o Bilan começou a tocar numa bateria que fizemos com material da obra da casa que o meu pai estava a construir na altura. Era feito de bidões, rádios velhos, tampas de lata", sem saberem que estavam a seguir o exemplo dos congoleses Konono n.º1.

Cachupa Psicadélica

Hoje, 21:00

Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém

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