"Éramos sete irmãos, nunca havia silêncio. Eu desejava um pouco de silêncio para mim"

Gisela João regressa aos coliseus - 31 de março no Porto, 7 de abril em Lisboa. Fala da família, do fado, do respeito pelo público, de pintar as unhas. "Não posso estar a meio gás no palco, nem que a vaca tussa!"

É fadista e é cantora em vários registos, tem uma voz muito flexível, capaz de chegar a diferentes estilos. Nasceu em Barcelos em 1983, tem 33 anos. Quis ser bailarina, cozinheira, designer de moda. Escolheu o fado porque parecia ouviu Amália a cantar Que Deus me Perdoe e achou que estava a contar a vida dela, a mais velha de sete irmãos, capaz de fazer um cozido à portuguesa aos oito anos. Vai fazer novamente os coliseus: Porto a 31 de março, Lisboa a 7 de abril.

Chegou à conclusão de que não é uma Branca de Neve mas sim uma Cinderela. Porquê?

Porque tudo o que tem acontecido na minha vida, nos últimos anos, é como na Cinderela - ela não estava à espera e aconteceu. Então deixo ir e vou na vaga. Não deixo de dançar, cozinhar, costurar, porque eu até cafés tiro, se for preciso. Gosto de olhar para mim como uma Cinderela. Sempre adorei a Branca de Neve e hoje percebo que a Cinderela faz todo o sentido na minha vida.

A Cinderela trabalha muito, daí a comparação?

Muito trabalho, muitas noites mal dormidas. Quando eu chamo filhos aos meus cds - e é uma confusão, há pessoas que pensam que estou grávida e que tive um bebé... até a minha mãe pensa que estou grávida, as redes sociais são incríveis - é porque é mesmo um filho, sai-me da pele. São muitas noites sem dormir, muitos dias em stress total. Mas é bom.

O primeiro cd chamava-se Gisela João, o que saiu em novembro do ano passado tem o título Nua. Deve ter sido alvo de imensas histórias.

Claro. "Olha o que esta moça faz para vender discos..." É para o lado que eu durmo melhor.

O que quer dizer Nua neste contexto?

É para não ser Gisela João 2. É um bocado cliché mas é aquela coisa da nudez da alma. Eu ali estou nua. Não tenho problemas em escolher os títulos, preocupa-me o conteúdo. Tenho uma política na minha vida que serve para tudo, para as conversas com os amigos, para os mal-entendidos: pôr-me sempre do outro lado. Até com o homem do supermercado faço esse exercício. Tenho uma luta constante para que o meu círculo de amigos veja a música da forma que eu vejo - o conteúdo. Irrita-me aquelas pessoas que são só teorias e conceitos. Para mim, é um bocado assim: põe-me essa merda a tocar porque é assim que eu sinto.

Escolheu cantar o que sente?

É claro que dou importância aos conceitos, até porque requerem muita pesquisa. Mas isso não é tudo. Costumo dizer: não são as minhas sapatilhas que cantam, nem os meus vestidos curtos, nem a minha fotografia. Sou eu que canto. As pessoas gostam dessas coisas, porque quando se vê um espetáculo vê-se o todo, mas compram bilhete para um concerto de música. A minha premissa é sempre: tem de ser uma coisa muito honesta comigo mesma.

Nua é a base dos espetáculos que vai fazer nos coliseus, no Porto a 31 de março, e em Lisboa a 7 de abril?

Quero deixar as pessoas avisadas de que não vou fazer um concerto do Nua. Já houve um concerto de apresentação, têm estado a acontecer concertos, mas nos coliseus há uma questão de escala, são salas muito grandes e diferentes, icónicas. Os coliseus merecem uma coisa especial. Tem de ser um todo da Gisela João - olha eu a falar na terceira pessoa... - tem de ser uma coisa que fale sobre mim e o meu trajeto, que faça uma ligação com o passado. Não fico presa ao passado mas o saudosismo não é uma coisa má, é bom termos boas memórias. Gosto de continuidades, gosto de pensar que as pessoas que foram aos meus primeiros coliseus [2012] neste vão sentir "caramba, eu faço parte disto, há aqui coisas que só eu percebo porque estive nos outros". Gosto dessa ideia de continuidade e de família. Talvez porque venho de uma família muito grande.

Uma família muito grande mesmo. Tem seis irmãos, são sete.

Sou a mais velha de sete.

Imagino que todos falam em cima uns dos outros.

Todos. Sou um bocadinho estridente, falo alto, falo muito. Sei que não parece mas eu sou muito tímida, muito tímida mesmo. Por ter vivido numa casa com nove pessoas, tudo aos gritos, dois choravam, outros riam muito alto, a televisão aos berros, o rádio aos berros, o aparelho da música aos berros, dou muito valor ao silêncio e a estar sozinha. Gosto de pensar o porquê das coisas. Há uns dias estive na ilha do Pico, fiz lá dois concertos incríveis, fiquei de alma cheia, e conversei com um técnico que foi substituir o meu sobre como sinto e vejo a música. Disse-lhe que para mim o silêncio é muito importante, até na música, e isso vem da minha casa porque eu nunca tinha silêncio. Eu desejava sofregamente momentos de silêncio para mim.

Foi difícil a transição para viver sozinha quando veio para Lisboa?

Foi, foi. Não sou nenhuma coitadinha, foi tão difícil como para qualquer pessoa que vai sozinha para uma cidade diferente, principalmente para uma cidade grande que está a anos-luz da sua pequena cidade.

Barcelos, neste caso.

Sim. E há muitas pessoas como eu. Mas foi difícil porque era tudo muito maior, a oferta era 100 vezes mais, tal como a quantidade de pessoas na rua. Tudo é mais. A linguagem é outra. Isso já tem a ver com norte e sul, este sul acima do Tejo. Percebi isso nos meus três primeiros anos em Lisboa e ainda hoje tenho algum cuidado. É muito fácil as pessoas pensarem que estou a responder mal ou que estou nervosa ou chateada, por causa de uma entoação. E para nós não é nada. Uma vez o Helder Moutinho, o meu manager, estava a chamar por mim à porta de casa e eu gritei lá de cima "Já vou, já vou!" Quando ele me apanhou sozinha disse -percebi que ficaste chateada há bocado... Chateada, eu? Porquê?

Não tinha dado por nada?

Não tinha dado por nada. E isto é um exemplo pequenito mas já senti que houve outros com pessoas com quem não tenho muita ligação e que se calhar ficaram com uma imagem de mim que tem a ver com isso. Vi isso também com amigas minhas que vêm do norte para cá e também comentam.

Há um lado obsessivo na sua maneira de trabalhar?

Completamente.

Há pouco disse que trabalha muito.

Não tenho férias há quase três anos.

Quando viaja para fazer concertos fica poucos dias?

É trabalho e é muito cansativo. Há um lado bom, todas as profissões têm um lado bom e um lado mau. Por exemplo, vou para Berlim, já lá estive cinco vezes e gostava de conhecer bem a cidade mas não conheço nada. A questão é que estou ali porque houve pessoas que pagaram bilhete para ouvir o meu concerto. A minha garganta é muito frágil, qualquer alteração de temperatura, uma bebida, uma comida... O que eu quero é estar fechada no meu quarto de hotel porque tenho de estar no meu melhor a cada concerto que faço. Acho que era uma fraude eu chegar lá e fazer 50 por cento do que consigo fazer. Não é justo, ainda por cima em tempo de crise. Penso muitas vezes nisso. Cá em Portugal muita gente que mal tem dinheiro para mandar cantar um cego e para pôr comida na mesa, vê-se e deseja-se para pagar as rendas aqui em Lisboa que é um desespero, e no entanto ainda consegue pôr um dinheirinho de lado para comprar um bilhete para ir a um concerto meu. E eu vou estar lá a meio gás? Nem que a vaca tussa! Nem pensar!

Onde foi desencantar o fado O Senhor Extraterrestre, tão divertido?

É anterior ao meu nascimento [O Senhor Extraterrestre, composto por Carlos Paião para Amália, 1981]. Vivia no Porto e lembro-me de ver à venda um monte de vinis, uma reedição deste disco. Na altura eu não tinha gira-discos. Estava no meu intervalo de almoço e pensei, "olha que giro, não tenho este vinil da Amália, compro amanhã". Uma semana depois recebi o ordenado e já não havia o disco. Fiquei com isso entalado. Depois apareceu-me a música no youtube ou numa rádio e, quando estava a juntar repertório para fazer este cd, o Francisco Vasconcelos falou-me nela e eu disse "gosto tanto dessa música, ainda por cima é super atual". E é uma ferramenta que me dá muito gozo.

Porquê?

Eu adoro crianças, faço tudo por crianças, posso estar com o Presidente da República mas se me aparecerem duas criancinhas ao lado eu passo o tempo inteiro a brincar com as elas, não quero saber do business, nem do trabalho nem da etiqueta, nada. Adoro crianças. É muito importante saber como chegar a elas, não impondo nada, não apontando o dedo, dar-lhes espaço. Foi assim que me fizeram. Esta música é uma excelente forma de chegar até elas. É um extraterrestre verdinho, vem numa nave espacial...

E tem uma forma deliciosa de tratar o extraterrestre.

Claro, é o Carlos Paião, convido-o logo para minha casa.

E arranja-lhe um farnel quando ele regressa.

Um farnel e uma camisa quentinha de flanela para não ficar com frio. Aquilo podia ser eu porque eu sou assim com as pessoas.

Tem uma frase no facebook que é: O feminino de super-herói é mulher.

Acho mesmo. As coisas são mais facilitadas para os homens. Eles que me desculpem, também há coisas difíceis para eles, eu estou aqui nas Torres de Lisboa e se calhar na Cochinchina até há homens que são muito maltratados e as mulheres são bem tratadas, não sei. O que eu sei, o que sinto e o que chega até mim é que a desigualdade entre homens e mulheres é completamente díspar. Ainda no outro dia vi aquele anormal [o eurodeputado polaco Janusz Korwin-Mikke] a dizer que as mulheres eram menos inteligentes e que por isso deviam ganhar menos.

E mais pequenas, gostei desse pormenor.

Mas a mim o que me preocupa não é esse anormal, que não tem outro nome, é as crianças que ouvem essa pessoa falar. Sou muito pelas mulheres, venho de uma família completamente matriarcal. A minha avó [paterna] é o ferro e fogo da família, a minha avó materna é igual, a minha mãe é igual e eu sou igual. Dou muito valor a isso. Chateia-me muito a que muitas mulheres sejam violentadas, têm vergonha e ninguém as ajuda, elas não falam e vivem muitos anos assim. Por outro lado, também me chateia ver algumas mulheres - isso irrita-me em dobro - falarem disso de uma forma fácil porque sabem que vende e é bom para a imagem delas: "olha eu tão querida que sou a dizer igualdade de direitos. Não queremos bombons, não queremos flores, queremos que nos tratem de igual forma." Para mim as coisas não são assim. Quero bombons, quero flores e também quero igualdade de direitos. Ao tratar-se assim as coisas tira-se seriedade e aí já se está a perder pontos.

Depois de um concerto seu em Nova Iorque houve uma crítica no New York Times que dizia que o seu concerto tinha sido luminoso. É uma palavra que se adequa perfeitamente a si.

Obrigada. Ai que eu fico logo emocionada, sou uma pessoa de choro fácil.

Também a citavam dizendo o fado é intenso, não é forçosamente triste mas é intenso.

Digo sempre isso nos meus concertos. Fico contente de ver muitas pessoas hoje a dizê-lo. Apaixonei-me pelo fado quando era criança. Sempre me chateou ver os da minha idade torcerem o nariz ao fado, porem o fado de lado porque era "música de velho". Essa mensagem de peso, de castração, de dor, dessa coisa negra sempre me fez confusão. O fado é poesia, e poesia para mim é vida, fala da vida. A vida não é só preta e cinzenta, tem muita luz também. Não andamos sempre a rir nem sempre a chorar, há muita coisa. Temos de trazer os assuntos para cima da mesa de uma forma leve. Eu falo de amor. Há coisas muito pesadas, muito dramáticas, e há outras muito divertidas. Por isso digo que é intenso.

Como é que o fado apareceu lá em casa?

Eu ouvi a Amália cantar o Que Deus me Perdoe na rádio - já contei esta história muitas vezes - e achei que ela estava a falar sobre a minha vida. Eu tomava conta dos meus irmãos, queria brincar e não podia porque tinha de cozinhar e arrumar a casa, tomar conta deles, porque eram muitos e mais pequeninos. A minha irmã Diana fugia, ia brincar com as amigas, quando eu dava por mim tinha a porta de casa encostada e ela tinha fugido.

Qual é a diferença de idades?

Não chega bem a ser dois anos, um ano e meio. Aos oito anos eu já fazia um cozido à portuguesa e uma feijoada, ia levar os meus irmãos à escola e ia para a escola. Quando a ouvi cantar aquilo - por isso é que eu acredito que a poesia pode salvar o mundo - achei que era sobre mim, aquela mulher estava a falar sobre mim e eu nem sabia quem ela era. Quem é esta mulher? E comecei a cantar aquilo porque quando cantava eu sentia que era um espaço só meu onde ninguém pode entrar e saía-me tudo. Comecei a cantar na escola primária.

Tornou-se notada?

Os professores chamavam-me para a sala deles e eu cantava enquanto estavam a lanchar, e cantava nas festas de fim de ano e de período. Os meus colegas nunca gostavam. Depois participava nas "mini-chuva de estrelas" que fizeram em Barcelos - claro que eu nunca ganhava, quem é que votava no fado? Ganhavam sempre os Ace of Base ou coisa assim.

E no entanto nunca se desencorajou?

Não. Sempre fui muito baixinha, as minhas coleguinhas eram altas, e eu chorava. Eu cresci a ouvir a senhora dona da família, a minha avó, muito católica, a dizer-me: "Se Jesus te pôs neste mundo é porque havia lugar para ti. E ninguém faz nada igual a ti, assim como ninguém faz nada igual às tuas amigas." E também cresci a ouvir: "Não são os outros que te põem a comida na mesa e que pagam as tuas contas". Isso ficou-me até hoje e passo-o às pessoas com quem lido, porque vivo assim. Amigo não empata amigo. Às vezes até levo isso a um extremo que pode ser confundido com caramba esta rapariga é mesmo desapegada. Não, não sou. Não queres ir, eu vou, eu faço. Por exemplo, diante das críticas ao Nua respondi que é para o lado que durmo melhor. É claro que eu choro em casa e fico triste quando vejo as pessoas dizerem coisas de forma leve e leviana sobre o que faço. Dói, quem não se sente não é filho de boa gente e eu não tenho sangue de barata. Mas digo que é para o lado que eu durmo melhor porque, ao fim e ao cabo, sou eu que pago as minhas contas, não são os outros que vivem por mim. Como tenho a certeza de que fiz tudo de coração, durmo descansada. O grande problema é quando nós fazemos as coisas a meio gás. Aí, quando nos apontam o dedo, nós sabemos, puseram-nos o dedo na ferida.

No Nua tem poetas consagrados, como o Alexandre O" Neill, e tem a Capicua. É uma espécie de alma gémea sua?

Eu gosto da forma como ela escreve e ela é minha amiga, percebe o que eu quero e vê as coisas da mesma forma que eu. É muito importante encontrarmos alguém assim, facilita tudo. Eu já achava que ela escrevia bem e tinha a certeza de que ia escrever bem para fado. E já sei que vai escrever mais para fado.

Foi buscar o André Teodósio [do Teatro Praga] para trabalhar consigo. Eu pensaria que seria a última pessoa a trabalhar com uma fadista, não era o perfil que esperava. E no entanto encaixa tudo muito bem. São preconceitos.

Encaixa muito bem. Todos nós temos preconceitos. Eu nasci em 1983 num país com uma liberdade muito recente e parecia que deixámos de ser cinzentos. Mas continuamos a viver dentro de uma sociedade estruturada que nos diz como fazer e como não fazer, como ser e como não ser, e todos nós fazemos juízos de valor errados. O André disse-me que gostava de falar comigo e eu não o conhecia, não conhecia os Praga. Convidou-me para participar num espetáculo dele, mas eu na altura não conseguia porque estava cheia de concertos marcados. E ficámos amigos. Antes dos meus primeiros coliseus [2015] eu queria convidá-lo mas não tinha dinheiro para lhe pagar. As pessoas olham para mim e esperam de mim o mesmo que esperam de outras pessoas que são faladas da mesma forma que eu. Mas eu não tenho os mesmos meios, nem nada que se pareça. Estava um bocado aflita mas sabia que pelo menos o não já tinha garantido. Sem rodeios, disse-lhe que gostava de convidá-lo para trabalhar comigo os coliseus. E ele: ai que lindo, quero tanto! E agora vamos fazer os coliseus outra vez. Temos uma grande amizade, somos muito diferentes e muito iguais ao mesmo tempo. Faço o papel de mãezinha, porque ele é muito ativo, muito respondão, discute muito. E eu sou mais de "deixa-os falar, deixa falar". Mas gostava de ser como ele.

Os dois juntos equilibram-se?

Sim, e depois estamos a falar de cenografia e de poemas e não sei o quê e de repente estamos agarrados a um verniz a pintar as unhas e a conversar. Tudo isso faz parte e acrescenta ao que estamos a fazer.

Antes de começarmos a entrevista, quando a Gisela estava filmar-nos para o facebook, o Mário Dias [da TSF] perguntou se a Gisela ia cantar outra vez os Vampiros [Eles comem tudo, Zeca Afonso], como cantou uma vez no Lux. Vai cantar nos coliseus?

Nos coliseus não. Posso ter 200 anos, se durar até lá nunca me vou esquecer do concerto na Festa do Avante! em que cantei isso. Nunca me vou esquecer. Foi das coisas mais emocionantes que já me aconteceram, porque tinha toda a gente à minha frente a cantar e a chorar, e eu igualmente a chorar. Já não sei o que era aquilo, se era um concerto, se era um rio, se era o que era, não sei. Foi muito lindo.

Este foi o Começo de conversa com a Gisela João, que vai cantar nos coliseus no Porto a 31 de março e em Lisboa a 7 de abril.

Isto foi só um começo de conversa?

É uma maneira de dizer que há sempre muito mais para conversar, podíamos ficar aqui a conversar as duas.

Que boa ideia essa.

E se houvesse verniz até podíamos pintar as unhas.

Adoro pintar as unhas, pinto e arranjo super bem. Sabe porquê? Eu roía as unhas quando andava no quinto e no sexto ano e não queria. Comecei a pintar as unhas e depois não queria estragar. E ao mesmo tempo relaxa-me porque nós quando estamos a pintar temos de controlar a respiração para não estragar. E então acalma-me muito. Ainda está a gravar?

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