Canto lírico

Apesar de sermos um país de tradição no canto lírico, é quase impossível desenvolver uma carreira em Portugal. As ofertas de trabalho para os cantores portugueses rareiam, sejam eles papéis secundários no Teatro Nacional de São Carlos, ou um ingresso difícil no coro da Fundação Gulbenkian.

Não obstante são muitos os jovens que, apesar de tudo, ambicionam esta carreira.

A prova são os 30 concorrentes, dos 19 aos 35 anos, que recentemente se candidataram à única prova de canto lírico existente em Portugal, o Concurso Nacional de Canto Luísa Todi. Trata-se de um acontecimento organizado e financiado pela Câmara Municipal de Setúbal, e presidido por José Carlos Xavier, que é o seu fundador.

A competição, criada em 1991, é já uma tradição, em memória desse grande vulto do canto lírico mundial, Luísa Todi, nascida em Setúbal. Esta prova dir-se-ia, também, o expoente máximo da visibilidade dos jovens intérpretes nacionais que terminaram a sua formação em canto, dentro e fora de Portugal, e se apresentam a um concurso de extrema exigência, perante um júri constituído por reconhecidos especialistas deste meio musical (cantores, maestros, musicólogos).

Foram primeiros prémios casos emblemáticos como Ana Ester Neves e Elisabete Matos, figura de proa que pisa os maiores palcos mundiais, como o Scala de Milão, Silvia Mateus, Luís Rodrigues e Bruno Ribeiro, finalista este ano do Operália.

É a persistência do cantor lírico e professor de canto do Conservatório Nacional José Carlos Xavier e da autarquia setubalense que continuam a manter vivo o evento.

O concurso funciona também como trampolim para o estrangeiro dos jovens cantores portugueses, nomeadamente quando integram o seu júri nomes como os de Mara Zampieri ou Ernesto Palácio, a exemplo da bienal de 2003.

"O concurso é o barómetro da produção nacional neste domínio, que tem grande potencial mas continua ignorada", defende José Carlos Xavier, que passou a viver há alguns anos entre Portugal e Itália, país onde se formou e fez carreira, bem como noutros países estrangeiros.

Regressado a Portugal, foi a verificação da inexistência de espaços, onde os jovens cantores pudessem actuar, e a desmotivação que os seus alunos lhe transmitiam durante as aulas que o impulsionaram a criar este concurso.

Hoje, orgulha-se de saber que grande parte dos participantes, premiados ou não, está a fazer importantes carreiras em Portugal e no exterior e também de alguns dos primeiros galardões terem sido atribuídos a cantores que formou. Isto apesar de o concurso de Setúbal impedir que o professor vote neles e a transparência deixar que os concorrentes conheçam a classificação atribuída por cada elemento do júri.

Os vencedores ex aequo do primeiro prémio este ano, a soprano Carla Caramujo e o barítono Diogo Oliveira, já pisavam palcos conceituados. E, tal como eles, vieram jovens cantores de todos os pontos do país, provenientes de várias escolas nacionais e estrangeiras, alguns com expressivas carreiras já iniciadas. "Em Portugal temos excelentes escolas de canto, com bons pedagogos, a julgar pela boa imagem que esses jovens, aqui formados, têm nas escolas estrangeiras onde se vão aperfeiçoar", salienta José Carlos Xavier.

OS MELHORES. O maior desejo da premiada Carla Caramujo é que as portas se abram em Portugal, apesar do seu invejável currículo obtido no Reino Unido.

"Gostava muito de ter cá um futuro, nunca deixando de lado a perspectiva de uma carreira internacional. É mais fácil lá fora, apesar de a concorrência ser maior", confessa, não obstante as críticas elogiosas na imprensa britânica. Além de integrar um elenco (ver texto em cima), tem-se apresentado em recitais com conhecidos pianistas em salas como Stone Hall (Norfolk), Heidenheim Concert Hall, Fairfield Hall, St. James Piccadily e Barbican Hall (Londres), Casa de Mateus e Centro Cultural de Belém, entre muitos outros.

O salto da sua vida aconteceu quando, depois do curso de canto na Universidade de Aveiro, se candidatou em Londres, onde a colocaram no terceiro ano, terminando lá o mestrado. A oportunidade de ingressar em Glasgow, na segunda casa de ópera mais importante do Reino Unido, surgiu logo a seguir, e lá se mantém a estudar e a trabalhar.

Adorava voltar a Portugal, onde iniciou o percurso musical aos oito anos no violino e aos 16 enveredou pela aprendizagem do canto "Espero que as entidades nacionais que organizam eventos musicais, se dêem ao trabalho de nos chamar", apela.

Diogo Oliveira, de 26 anos, formado em Engenharia da Linguagem e do Conhecimento, e também primeiro prémio, está a dar os primeiros passos numa carreira internacional, com a interpretação desde 2003 de OFantasma da Ópera por toda a Alemanha, tendo actuado em mais de 80 locais.

É certo que ainda está no último ano do Conservatório e tem de conjugar muito bem as datas entre os dois países, "mas quando se faz as coisas por gosto…"

A entrada no canto foi por acaso, durante as aulas de guitarra clássica numa paróquia de Lisboa. Lá se descobriu que a sua voz era ainda melhor e mandaram-no para o coro, cujo maestro o remeteu, por sua vez, para as aulas de canto lírico.

"Aprendi a gostar de canto" confessa o Diogo. E conta como "é bom fazer um papel principal e conhecer a Alemanha inteira. Em Dezembro vou voltar, no recomeço da temporada."

Depois do prémio Luísa Todi fez uma audição para o Teatro São Carlos onde conseguiu um peque- no papel no Otelo, de Verdi.

"Tenho de conjugar as oportunidades que aparecem. A vida de um cantor é andar de um lado para o outro. Quero investir na minha formação na Alemanha, mas isso custa dinheiro. E para estes trabalhos o ideal é ter um agente no país onde queremos trabalhar. Em Portugal não há agentes para cantores líricos e lá fora os melhores levam muito dinheiro - o que se torna incomportável para quem está no início de carreira -, e dos outros não sabemos em quem podemos confiar", desabafa.

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