Ativista são-tomense em greve de fome há 15 duas contra milho transgénico

A ambientalista são-tomense Elsa Garrido cumpriu hoje o 15.º dia de greve de fome em frente à embaixada do seu país em Lisboa, em protesto contra a falta de transparência na introdução de milho transgénico chinês no arquipélago.

"Cumprem-se hoje 15 dias que estou em protesto. Sinto-me mal. Ontem [quarta-feira] perdi os sentidos, fui levada de ambulância para as Urgências e já começo a ter sequelas da greve de fome: anemia, baixa de tensão e a musculatura, a massa muscular está enfraquecida", contou a ativista da Greenpeace à agência Lusa.

Em abril, o chefe da missão agrícola chinesa em São Tomé, Hou Xiaoping, disse aos jornalistas que uma equipa de técnicos chineses começou a cultivar milho híbrido - que resulta de cruzamentos controlados entre duas espécies diferentes, mas pertencentes ao mesmo género - no campo hortícola de Mesquita no centro da ilha de São Tomé, para ração animal.

Os ambientalistas acusaram o governo são-tomense de ter autorizado a plantação de milho transgénico (geneticamente modificado para resistir a doenças ou espécies invasoras), mas o executivo desmentiu essa informação, reafirmando que se trata de milho híbrido e que o cultivo não passa de um teste.

"Os especialistas dizem que um híbrido também pode ser transgénico. O nosso ministro da Agricultura, Teodorico Campos, veio dizer que milho não tem perigo nenhum, mas ele próprio não sabe, porque não foi feito nenhum estudo de impacto ambiental", disse Elsa Garrido.

A ativista também disse que as autoridades são-tomenses não fizeram um estudo prévio ou um relatório de avaliação de riscos, nem fizeram qualquer comunicação à população.

"A nossa principal reivindicação é o direito do cidadão a saber o que vai comer. Simplesmente, queremos um debate público - com os prós e os contras - e informar a população sobre as diferenças destas sementes. Queremos debater, que é algo que acontece num país democrático", realçou.

Por outro lado, Elsa Garrido duvida que este cultivo se trate apenas de uma experiência.

"O Governo disse que era uma experiência, mas não apresentou dados. O ministro diz que é uma experiência, mas está a fazer plantação num território de seis hectares [equivalente a cerca de seis campos de futebol], com uma colheita prevista de oito toneladas. Não sei bem se isso é teste ou produção. A ambiguidade está aí", explicou.

Como a ilha de São Tomé tem 854 quilómetros quadrados, afirmou a ambientalista, "seis hectares para um são-tomense já é uma produção, não propriamente um teste".

Elsa Garrido diz que as pessoas em São Tomé estão desinformadas e assegura que os técnicos, os engenheiros e os jornalistas são-tomenses têm medo de falar sobre o caso.

"O cidadão está a ser silenciado com meios tão severos como se estivéssemos numa ditadura. Os técnicos têm medo de falar e perder o emprego, os engenheiros têm medo de falar e até os jornalistas em São Tomé têm medo de falar. Da questão do milho passou-se ao direito cívico à informação", disse.

Apesar de estar à duas semanas sem resposta do governo do seu país ou da embaixada que a representa, Elsa Garrido diz que vai manter o protesto.

"Até o ministro declarar a abertura de debates públicos em São Tomé [sobre o milho transgénico]", concluiu.